Capítulo 19– Corações que se alinham

1640 Words
O consultório era pequeno, aconchegante, com quadros de bebês sorrindo nas paredes e o aroma suave de lavanda preenchendo o ar. Eu estava sentada na maca, com as mãos entrelaçadas às de Eiden, tentando disfarçar o frio nas mãos e o tremor na barriga. Não era só ansiedade. Era também emoção. Medo. Alegria. A médica sorriu, gentil, enquanto aplicava o gel gelado na minha barriga e deslizava o aparelho pelo meu ventre. A tela ao lado acendeu, e ali, minúsculo, pulsava um coração. Nosso bebê. — Olha só, o coraçãozinho tá forte — disse a médica, apontando para o monitor. — Está com quase 10 semanas. Vocês podem ouvir. O som preencheu a sala: ritmado, apressado, vivo. Eu chorei. Não consegui conter. Eiden apertou minha mão com força, e olhei para o lado, vendo os olhos dele marejarem também. Pela primeira vez, ele viu. Pela primeira vez, ele ouviu. Era real. Nosso bebê era real. — Você tá bem? — ele perguntou, limpando minhas lágrimas com a manga da blusa. — Tô melhor do que achei que conseguiria estar. Tô… feliz. Eiden Nunca pensei que o som de um coração batendo tão rápido pudesse me fazer parar o mundo por alguns segundos. Fiquei olhando pra tela, tentando imaginar como seria segurar aquele ser minúsculo, ensinar, proteger. A ideia ainda parecia grande demais pra mim. Mas naquele momento, senti algo dentro de mim mudar. Um tipo de certeza silenciosa de que eu daria meu melhor. Depois da consulta, andamos de mãos dadas até a saída do prédio. O sol batia de leve, e o vento trazia aquele cheiro de dia novo. Respirei fundo. — A gente tem que contar pra eles, né? Gabbie parou e assentiu, com um pequeno sorriso nervoso. — Vai ser difícil… mas necessário. No dia seguinte – Casa dos pais da Gabbie A mãe dela foi quem notou primeiro. — Gabbie… você tá diferente. Ela trocou um olhar rápido com o pai. Ambos estavam sentados à mesa do café, e o silêncio tomou conta quando Eiden puxou a cadeira ao lado da minha. — A gente precisa conversar com vocês — eu disse, sem conseguir encarar minha mãe por muito tempo. — O que houve, filha? — Eu… tô grávida. Por um segundo, o tempo parou. Minha mãe ficou estática. Meu pai levantou as sobrancelhas, descrente. Ninguém falou nada por um momento inteiro. — Como assim? — ela perguntou, a voz trêmula. — Vocês têm ideia do que isso significa? — Sim — Eiden respondeu firme. — E a gente quer fazer isso juntos. Com responsabilidade. Com amor. O que veio depois foi um turbilhão de perguntas, lágrimas e conselhos — alguns duros, outros carinhosos. Mas no fim, o olhar da minha mãe suavizou. Ela se levantou, veio até mim e me abraçou com força. — Você sempre será minha menina. E agora, vai ser mãe. A gente vai estar com você. Meu pai assentiu, e o nó que havia no meu peito finalmente se desfez. No mesmo final de semana – Casa dos avós de Eiden A casa dos avós sempre cheirava a bolo e café fresco. A avó dele nos recebeu com um sorriso caloroso, mas Eiden estava visivelmente nervoso. — Vó, vô… sentem aqui com a gente. A gente quer contar uma coisa. — Meu Deus, vocês vão casar? — a avó perguntou, animada. — Não… ainda não — ele riu, nervoso. — Mas… a Gabbie tá grávida. Dessa vez, não houve choque. Só surpresa e, depois, emoção. A avó segurou minha mão com carinho e sorriu. — É claro que tá. Você tá com aquele brilho. O avô de Eiden se limitou a dar um tapinha nas costas do neto, mas seus olhos diziam tudo: orgulho silencioso. — Vocês vão precisar de apoio. E vão ter — ele disse, sério. — Criar um filho é uma das maiores responsabilidades da vida, mas também é o maior amor que existe. Mais tarde – Planejando o futuro Estávamos deitados na cama do Eiden, cadernos abertos, anotações espalhadas. — Eu quero continuar a faculdade. Mesmo com o bebê — disse Gabbie, anotando no canto da folha: “Planos pós-parto”. — Eu também. A gente vai ter que adaptar tudo, mas… não quero abrir mão do que somos por medo. E quero ser um pai presente, não importa o que isso exija. — A gente vai morar juntos? Ele me olhou, pensativo. — Quer morar comigo? Sorri. — Mais do que nunca. Ficamos assim, planejando entre anotações e beijos calmos, sonhando com um lar que, embora ainda em construção, já era cheio de amor. O medo ainda existia, mas agora ele vinha acompanhado de algo maior: esperança. Gabbie A imagem do bebê ainda dançava na minha mente horas depois da consulta. Aquele batimento acelerado era agora a trilha sonora do meu dia. Mas a alegria vinha acompanhada de um novo cansaço — um peso constante nos ombros e um enjoo que não me deixava em paz por muito tempo. Voltar para casa foi um misto de alívio e receio. A primeira coisa que fiz foi deitar e colocar uma das mãos sobre a barriga. Ainda era pequena, mas a sensação de que algo estava crescendo ali era gigante. Nos dias que se seguiram, tudo começou a mudar. As manhãs viraram um desafio: acordar enjoada, tentando comer algo para segurar o estômago, enquanto o cheiro de café ou qualquer outra coisa me fazia correr para o banheiro. Minha mãe me ajudava com chás e cuidados, mas mesmo assim, havia um desgaste que não dava pra disfarçar. Eiden passou a vir mais vezes. Algumas manhãs ele trazia torradas simples, outras, só vinha me ver dormir um pouco mais. Eu percebia que ele também estava cansado, tentando dar conta das responsabilidades e da preocupação. — Eu não quero te sobrecarregar, Eiden. — Você não tá — ele respondia sempre com a voz firme. — Isso é nosso. Eiden Quando começamos a planejar o futuro juntos, achei que o mais difícil seria lidar com o julgamento dos outros. Mas a realidade me mostrou que o maior desafio era o desgaste silencioso — o corpo da Gabbie mudando, as emoções dela oscilando, e eu tentando aprender como ser o apoio que ela precisava sem invadir o espaço dela. Vi minha mãe se emocionando com o ultrassom. Vi meus avós mandando mensagens todo dia perguntando como ela estava. Mas ao mesmo tempo, vi olhares estranhos na escola, sussurros nos corredores. A volta às aulas foi como uma exposição. Chegamos juntos, de mãos dadas. Eu quis mostrar pra todos que estávamos bem, que ela não estava sozinha. Mas bastou entrar na sala pra sentir o clima mudar. Alguns se calaram. Outros disfarçaram risos. E então teve Nina. Ela não disse uma palavra, mas o olhar dela disse tudo. Um misto de julgamento e algo que talvez fosse inveja. Ou mágoa. Não importava mais. Na primeira aula, Gabbie se sentou ao meu lado, mais quieta que o normal. Durante a explicação, ela encostou a cabeça no meu ombro discretamente. Eu sabia: era o cansaço, era o enjoo, era o peso de tudo. E era amor. No intervalo, fomos até o pátio. Alguns colegas vieram falar conosco com um certo receio, mas demonstrando apoio. Outros só observavam de longe. — Vai ser assim por um tempo — eu disse pra ela, acariciando suas costas. — Eu sei. Mas eu tô pronta. Porque agora, eu tenho você. Gabbie Minha barriga ainda não estava visivelmente grande, mas eu me sentia como se estivesse carregando o mundo. E não era só o bebê. Eram os olhares. Os julgamentos silenciosos. As dúvidas que vinham à noite, quando me deitava e tentava lembrar quem eu era antes disso tudo. Será que eu ainda podia ser eu? A escola agora era um campo minado de emoções. Professores que me tratavam com delicadeza excessiva. Colegas que me evitavam ou exageravam na simpatia. Eiden segurava minha mão o tempo todo, como um lembrete constante de que eu não estava sozinha. Mas havia dias em que, mesmo com ele ali, a solidão batia. Mas aos poucos, percebi que a força também vinha de dentro. Numa aula de redação, a professora pediu um texto sobre transformação. E eu escrevi sobre o que era renascer, não por v*****e própria, mas por necessidade. Sobre descobrir que carregar uma vida dentro de si é, de alguma forma, se tornar outra pessoa. Mais forte. Mais intensa. Mais vulnerável. A professora me chamou depois da aula e disse: “Você tem muito mais do que coragem, Gabbie. Você tem luz.” Naquele dia, eu sorri de verdade. Eiden A rotina mudou. A gente começou a anotar despesas, pesquisar planos de saúde, consultar sobre o pré-natal, equilibrar horários. Eu consegui um estágio em meio período pra ajudar em casa, e Gabbie começou a estudar de casa nos dias em que não aguentava ir até a escola. — Você acha que a gente vai dar conta? — ela perguntou, numa noite em que ficamos até tarde organizando papéis. — Acho que a gente já tá dando. — Mesmo com tudo tão incerto? — A única certeza que eu tenho é que amo você. E esse bebê. E isso é tudo que eu preciso pra continuar. Ela me olhou, emocionada. Me puxou pra perto. E naquele silêncio, selamos algo mais forte que promessas: compromisso. Gabbie Às vezes ainda acordo assustada. Com medo. Com dúvidas. Mas toda vez que olho pro Eiden — preparando um lanche pra mim, se preocupando se eu comi, anotando as consultas na agenda — lembro que o amor também é isso. É dividir o peso. É crescer junto. É renascer. Estamos só no começo. Mas agora, com os desafios assumidos e os planos em andamento, eu finalmente sinto que a gente tem algo sólido: um futuro. Nosso futuro.
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