Duque Narrando
Acordei cedo, antes mesmo da minha madrinha. Primeiro, dei uma olhada no quarto pra ver se estava tudo certo. As paredes descascadas, o colchão fino, o ventilador velho rangendo devagar. Era simples, mas era onde eu estava caindo, ainda bem que tenho um teto sobre a minha cabeça, só quem viveu igual eu, no meio do mato, se escondendo igual bicho, sabe o valor disso aqui.
Levantei, cocei a cabeça e logo lembrei da roupa suja que tinha escondido embaixo do colchão. A última coisa que eu queria era minha madrinha mexendo nas minhas coisas. Peguei a camisa e a calça, fui direto pro tanque e comecei a esfregar com sabão e escova. A água fria ajudava a tirar a sujeira, mas as manchas não saíam fácil. Bati a roupa no tanque até sentir que tava limpa o bastante.
Quando fui estender no varal, escuto a voz dela na porta.
— Bom dia, meu filho. Dormiu bem? Por que não colocou essa roupa no cesto? Eu posso muito bem bater suas roupas na máquina junto com as minhas.
Levantei a cabeça e dei um sorriso de canto.
— Bom dia, madrinha. Esqueci.
Ela balançou a cabeça, mas não disse mais nada. Entrou pra dentro e seguiu a rotina dela. Eu terminei de pendurar a roupa e fui fazer a minha. Escovei os dentes, lavei o rosto, joguei uma água no cabelo, e vesti uma bermuda velha.
Quando voltei pra cozinha, minha madrinha tava lá, preparando o café. O cheiro do café fresco e do pão na chapa enchia o ar. Mas, antes mesmo de sentar, ela pegou a Bíblia e se virou pra mim.
— Não vou tomar café agora. Vou pra igreja orar por nós.
Dei de ombros e só balancei a cabeça. Não tinha muito o que dizer.
Ela saiu, e eu fiquei ali, olhando a mesa posta. Peguei o pão, passei manteiga e comi devagar. Enquanto mastigava, minha mente tava a mil. Eu precisava fazer alguns contatos. Ainda conhecia muita gente do meio, mas desde que eu sumi, perdi o respeito de alguns. Eu era o elo entre várias transações do Nobre, e agora eu precisava me recolocar no jogo.
Mas antes de qualquer coisa, precisava de umas paradas. E pra isso, tinha que falar com alguém que não fosse do Morro da Providência.
Foi quando vi o celular da minha madrinha largado no braço do sofá. Ela só tinha levado a Bíblia pra igreja. Peguei o aparelho e fui direto pras configurações. Desativei a opção de mostrar o número e instalei um aplicativo interno pra não ser rastreado. Depois, fui pros contatos que eu ainda lembrava de cor.
Chamou duas vezes antes do cara atender.
— Quem é?
— Sou eu, Duque.
Do outro lado, silêncio. Depois, uma risada curta.
— Achei que tinha sumido. Tá no Rio?
— Tô, e preciso de umas paradas.
— Nada sai de graça.
— Eu sei. Tenho grana pra pagar. Mas só posso pegar na calada da noite.
Ele ficou uns segundos em silêncio, depois deu a resposta.
— Fechou, Mesma fita de antes, vou levar até a ferrovia desativada, tô confiando em tu.
— Beleza.
Desliguei, apaguei o registro da chamada, mexi de novo na configuração, mas deixei o aplicativo instalado. Coloquei o celular no mesmo lugar e fui cuidar das coisas.
Lavei a louça, varri a casa e deixei tudo no jeito. Minha madrinha gosta da casa arrumada, e isso evita que ela fique pegando no meu pé.
Quando ela voltou da igreja, já encontrou tudo pronto.
— Você arrumou tudo, meu filho?
— Sim, madrinha, tava sem fazer nada.
Ela sorriu, satisfeita, e sentou pra tomar o café. Eu sentei do outro lado da mesa, só observando. Na minha cabeça, o plano pra essa noite já tava armado. Nobre vai sentir o baque e nem ia saber de onde veio.
Depois que minha madrinha terminou o café, ficou ali sentada, me olhando de um jeito diferente. Primeiro, achei que era coisa da minha cabeça, mas quando levantei o olhar, vi que ela tava mesmo me observando, como se quisesse falar algo e não soubesse como.
— Que foi? — perguntei, largando o copo na mesa.
Ela respirou fundo antes de responder.
— Vi a irmã Rosilene na igreja hoje.
Meu coração disparou. O nome dela me trouxe lembranças que eu tentava evitar. Rosilene é a mãe da Ruth. Apertei o punho embaixo da mesa.
— E ela falou alguma coisa?
— Falou — minha madrinha confirmou, mas hesitou antes de continuar. — Mas foi na frente do pastor Paulo e da missionária, a esposa dele.
Isso não me tranquilizou nem um pouco. Pelo contrário. Meu sangue ferveu.
— O que ela disse?
— Que já sabia de tudo. Que o Nobre fez questão de espalhar pelo morro.
Bati a mão na mesa, sentindo a raiva subir pelo meu peito.
— Desgraçado... Fez a mërda e ainda saiu espalhando.
Minha madrinha abaixou a cabeça, mexendo na alça da xícara.
— Ela e a família saíram do morro. Estão em Santa Teresa agora.
Respirei fundo, tentando controlar o ódio que subia. Nobre tinha destruído minha vida e ainda fazia questão de espalhar minha dor pros outros. Mas tem nada não, tua hora vai chegar.
Olhei pra minha madrinha, desconfiado.
— E ela perguntou de mim?
— Não. Mas eu disse que você entrou em contato uma vez, depois sumiu.
Pisquei devagar.
— Só isso?
Ela assentiu, mas no mesmo instante fechou os olhos e suspirou.
— Me perdoa, meu Deus, por essa mentira.
Peguei na mão dela, firme, tentando tranquilizar.
— Não precisa pedir perdão por isso. A senhora só tá me protegendo.
Ela olhou pra mim, e dava pra ver o medo nos olhos dela. Não medo de mim, mas medo do que eu poderia fazer.
— E agora? O que você vai fazer?
Levantei da cadeira, passando a mão no rosto. Minha respiração tava pesada. Quando encarei minha madrinha de novo.
— Vou matar um por um.
Ela arregalou os olhos, se levantando também.
— Não faz isso, Duque. Entrega nas mãos de Deus, filho.
Soltei uma risada seca.
— Deus? Que Deus? Onde Ele estava quando mataram minha mulher e meu filho? Deus me abandonou, ou Ele nunca existiu.
Ela me olhou com tristeza, mas não disse nada.
— Ou Ele me abandonou, ou Ele nunca existiu, madrinha.