Duque Narrando
Cheguei num dos acessos do Morro da Providência. Como eu já imaginava, não tinha ninguém guardando a entrada. Quem cuidava disso era eu. O Nobre nunca deu a mínima pra segurança do morro, só pra dele e da família dele. Sempre foi assim. Enquanto eu sangrava por esse lugar, ele só se preocupava com o próprio rabö. Mas isso não importa mais. Nada mais importa.
Entrei no morro sem olhar pra trás. O que deveria ser nostalgia virou ódio puro. Antes, eu amava essa comunidade, fazia de tudo por esse povo. Agora, só sinto nojo. O morro me traiu, me virou as costas quando mais precisei. E o pior de tudo: agora sou eu quem despreza esse lugar.
Ajeitei o capuz do casaco, cobrindo bem o rosto, e segui pelos becos escuros. Conheço cada viela, cada canto onde dava pra se esconder. O caminho até o barraco do Gabriel era automático na minha cabeça. O irmão mais novo do Nobre, o CDF da família, gênio da tecnologia. Era ele quem cuidava do sistema de segurança do Nobre e do Comando. O queridinho da família, o único que parecia prestar pra alguma coisa sem precisar pegar numa arma. E era justamente por isso que ele ia pagar hoje.
Antes de me aproximar, tirei o silenciador da mochila e encaixei na arma. Mirei na lâmpada do poste e apertei o gatilho. O vidro explodiu num estalo seco. Depois, fiz o mesmo com a lâmpada da frente do barraco. Escuridão total. Era agora.
Subi os três degraus de cimento e bati na porta, firme, sem hesitar. Do lado de dentro, ouvi um barulho, passos rápidos.
— Quem é? — a voz do Gabriel saiu abafada.
— Sou eu, Gabriel. Abre aqui.
Nem dois segundos e a porta se abriu. O moleque ainda tentou perguntar “eu quem?”, mas eu já estava com a mão na boca dele, calando qualquer chance de reação. A outra segurava a pistola, a ponta fria do cano encostada bem no meio da testa dele. O olhar de espanto dele foi a última coisa que vi antes de apertar o gatilho. O tiro foi seco, preciso. O corpo desabou na minha frente.
— AAAAAAAAH! — O grito estridente veio da cama. Só então notei a garota, seminua, os olhos arregalados de puro terror. Ela tentou se arrastar pra trás, os braços tremendo, a boca abrindo e fechando como se quisesse falar algo. Mas não tinha mais tempo. Mirei e atirei. O corpo dela caiu sobre os lençóis, agora manchados de vermelho.
O silêncio veio logo depois. Nenhum som além do meu próprio coração batendo acelerado.
Não podia ficar ali. Precisava sair rápido.
Guardei a arma, puxei o capuz pra frente e saí do barraco do mesmo jeito que entrei. Silencioso, certeiro. Corri pelos becos, desviando dos poucos que ainda estavam na rua. Ninguém reparou em mim. O morro tava acostumado com o barulho de tiros, com mortes repentinas. Mais uma noite normal no Providência.
Minha cabeça fervia. Não era só sobre o Gabriel. Não era só sobre o que ele fazia pelo Nobre. Era sobre tudo que eu tinha perdido. O Duque de antes morreu junto com esse morro. Agora só restava isso. Vingança.
Quando cheguei na casa da minha madrinha, meu peito ainda subia e descia rápido. Fechei a porta devagar, respirei fundo. Meu corpo tava sujo de sangue, mas eu não me importava. Essa é a minha nova realidade. E eu vou levar isso até o fim.
Larguei a mochila no quarto e joguei a arma debaixo do colchão, como sempre fazia. Cautela nunca era demais. A madrinha tava dormindo no quarto ao lado, e eu não queria dar brecha pra ela perceber nada. Não era só questão de esconder o que eu fiz, mas também de poupar ela desse mundo sujo que eu escolhi voltar. Ela já sofreu demais na vida pra ter que carregar mais essa preocupação.
Fui direto pro banheiro, fechei a porta sem fazer barulho e liguei o chuveiro. A água quente escorria pelo meu corpo e levava o peso do dia, mas não o peso da minha mente. Olhei pro meu reflexo no espelho embaçado, os olhos fundos, os ombros tensos. O tempo passa e eu continuo assim, sem descanso. Respirei fundo, tentando colocar as ideias no lugar.
Terminei o banho rápido, me sequei e vesti uma roupa limpa. Peguei a suja e enfiei embaixo do colchão, junto com a arma. Amanhã eu lavo. Não posso dar mole, não queria a madrinha vendo as manchas no tecido. Ela podia não entender o que realmente eram, mas conhecia bem o cheiro do perigo.
Me joguei na cama, mas sabia que o sono não ia vir fácil. Fechei os olhos e deixei a mente viajar.
A imagem do Nobre veio na minha cabeça. Eu queria estar lá, queria ver a cara dele quando encontrasse o irmãozinho dele estirado no chão, caído feito um presunto sem vida. Pena que não pude assistir de camarote, mas não importa. O jogo já começou, e ele nem desconfia quem tá derrubando a banca dele.
Cada um dos dele vai cair. Um por um. Ele vai perder tudo, igual eu perdi. E quando ele perceber que não sobrou ninguém, vai ser tarde demais. Vai implorar, vai tentar entender, mas eu não vou dar explicação nenhuma.
Não sou burro. Sei que tomar a quebrada dele não vai ser fácil, mas eu já tenho o plano montado. Vou derrubar ele e deixar que qualquer um que já foi vítima do Nobre se levante e tome o lugar. Vou transformar o império dele em pó.
Minha cabeça girava com esses pensamentos. Me virava de um lado pro outro na cama, sem conseguir encontrar uma posição confortável. A adrenalina ainda tava alta, o coração ainda batia forte. Faz tempo que dormir de verdade virou luxo. Cochilos curtos, pesadelos, um descanso que nunca chega. Talvez só quando tudo isso acabar.
Talvez só quando eu tiver acabado com a vida do Nobre.
Talvez só quando a minha vingança estiver completa.
Fechei os olhos de novo, forçando minha mente a desligar, mas sabia que era inútil. Até o último deles cair, até o Nobre sentir na pele tudo o que fez comigo, eu não vou ter paz.