Duque Narrando
Acordei sentindo o peso do mundo nas costas. O corpo doía como se tivesse levado uma surra, mas a dor maior não era física. Era o buraco dentro de mim, um vazio cheio de ódio e desejo de vingança. Fiquei um tempo ali, deitado, encarando o teto manchado de mofo, tentando organizar os pensamentos. Por onde começar? Como dar o primeiro passo para transformar a vida do Nobre, aquele desgraçado num inferno? Porque isso vai acontecer, eu tenho certeza. Ele vai viver o mesmo inferno na Terra que eu tô vivendo.
Respirei fundo e joguei as pernas para fora da cama. O chão estava frio, um contraste com o calor que ardia dentro de mim. Quando abri a porta, lá estava ela, minha madrinha, com um monte de coisas na mão.
— Aqui, filho. — Ela me entregou um kit cheio de coisas de higiene: escova de dente, barbeador, desodorante — Cuida de você. Não se entrega, não.
Peguei as coisas sem dizer nada de imediato. O olhar dela era preocupado, mas também firme. Sempre foi assim. Ela não era de passar a mão na cabeça de ninguém, mas também nunca me abandonou.
— Valeu, madrinha. — Minha voz saiu rouca, ainda pelo sono.
Entrei no banheiro e tranquei a porta. Era a primeira vez em meses que eu tomava um banho de verdade. Não de balde, não de rio, não de garoa no meio da mata. Água quente, caindo no meu corpo, levando embora a sujeira e o cansaço. Fechei os olhos e senti a pele arder em alguns lugares. Feridas, arranhões, lembranças do que passei fugindo feito um bïcho.
Peguei o barbeador e comecei a tirar a barba desgrenhada que cobria meu rosto. Fazia tanto tempo que não me via sem ela. Cada deslizar da lâmina revelava um pedaço do homem que eu fui um dia, antes de tudo desmoronar. Passei a mão no rosto liso. Estranho. Parecia até outro cara me encarando no espelho.
Minhas unhas estavam imundas, crescidas, parecendo as de um animal selvagem. Peguei o cortador e fui ajeitando, uma por uma. Cada corte era um pequeno passo para me lembrar que eu ainda era humano, que não tinha me transformado completamente num monstro.
Quando saí do banheiro, minha madrinha me olhou e sorriu.
— Bem melhor assim. Mas ainda falta o cabelo, Vou chamar um barbeiro pra vir aqui.
— Nem pensar — Cruzei os braços. — Não confio em ninguém.
Ela soltou uma risada leve, como se já esperasse minha teimosia.
— Esse você pode confiar. É o irmão Andrade, Obreiro da igreja, filho, Eu agora estou servindo a Jesus.
Revirei os olhos e soltei um sorriso amargo.
— Igreja não é sinônimo de nada, madrinha. Não confio.
— Você não vai ficar parecendo um bïcho só porque não confia em ninguém. Vai cortar esse cabelo sim. Me obedeça, eu sou sua segunda mãe.
A forma como ela falou me fez rir. Mesmo nesse inferno, ela conseguia arrancar um sorriso de mim. Balancei a cabeça e suspirei.
— Tá bom, madrinha. A Senhora venceu.
Me sentei na cadeira e encarei a mesa posta. Fazia tempo que eu não comia assim, de verdade. Comida quente, bem-feita, cheirosa. Peguei o garfo e ataquei, sem cerimônia. Mastiguei rápido, engoli depressa, e nem me importei se ela tava me olhando. A fome falava mais alto. Cada colherada parecia um prêmio, um pedaço de vida voltando pra dentro de mim. Só depois de raspar o prato e beber o café é que percebi o que tinha feito. Fiz um esforço pra desacelerar, pra não parecer que eu nunca tinha visto comida antes, mas já era tarde.
Levantei, levei os pratos pra pia e comecei a lavar tudo. Minha madrinha ainda tava na sala, sentada com aquele olhar que via tudo e nada ao mesmo tempo. Guardei as coisas no armário e sai pro quintal, sentando numa daquelas cadeiras de plástico que rangem quando a gente se mexe. O sol batia de leve, aquecendo a pele sem incomodar. Cruzei os braços, joguei a cabeça pra trás e fechei os olhos por um instante.
Hoje ainda, na madrugada, eu subo o morro.
A ideia martelava na minha mente. Eu conhecia cada viela, cada atalho, cada canto escuro daquele lugar. Vou subir sozinho, sem alarde, só pra deixar claro que a guerra fria começou. Nobre não perde por esperar.
Tava tão concentrado nos meus pensamentos que quase não percebi a risada baixa vinda da sala. Olhei de banda e vi minha madrinha conversando com um homem. Ela sorria daquele jeito meio tímido, ajeitando o cabelo atrás da orelha. O coroa também sorria, meio sem jeito, como se tentasse se segurar. Aí tem coisa.
Me levanntei e antes que eu pudesse falar alguma besteira, o velho se virou e veio até mim, segurando uma bolsa de mão.
— Senta aí, rapaz, vamos dar um jeito nesse cabelo.
Me joguei na cadeira sem reclamar. Ele pegou a navalha e começou o serviço, sem pressa. Eu tava quieto, só sentindo o barulho da máquina deslizando pelo couro. Mas o coroa era falador. Começou a jogar papo, falar de tudo, mas nem meu nome perguntou.
Depois de um tempo, o assunto mudou.
— Você já ouviu falar de Jesus, filho?
Fiz uma careta. Sabia que ia dar nisso. Ele começou a falar de Deus, da cruz, de redenção. Eu só escutava por obrigação, sem dar a******a. Fiquei na minha, esperando ele cansar. E cansou.
De repente, em vez de falar, ele começou a cantar:
"Sim, eu amo a mensagem da cruz..."
O som da voz dele me atingiu no peito como um soco. Por um segundo, esqueci onde tava. Fechei os olhos, e a imagem dela veio forte na minha mente. Ruth. Minha Ruth. Ela cantava esse hino. A voz dela era doce, pura, me fazia esquecer do mundo.
Uma lágrima escorreu pelo meu rosto sem permissão. Mas limpei rápido, disfarcei. O barbeiro continuou cantando até terminar.
Assim que ele parou, perguntei seco:
— Quanto deu?
Ele sorriu de canto.
— Nada, meu filho. É só um corte de cabelo.
Balancei a cabeça, sem paciência.
— Não gosto de dever favor. Manda o preço certo.
Ele deu o valor, e sem pensar duas vezes, meti a mão no bolso, tirei uma nota e passei pra ele. O velho pegou sem discutir.
Levantei, virei as costas e fui direto pro banheiro. Liguei o chuveiro e deixei a água escorrer, levando embora qualquer vestígio de fraqueza. Aos poucos, eu tava me recuperando.
Passei o dia trancado no quarto. Madrinha nem desconfiou. De tarde, foi pra igreja e saiu dizendo que ia orar por mim. Só balancei a cabeça e deixei ela acreditar que suas preces fariam alguma diferença. Deus não faz muita coisa, Se fizesse, teria impedido tudo o que já aconteceu.
Quando a noite caiu, fiz meu papel direitinho. Jantamos em silêncio, e depois lavei os pratos pra ela, como um bom afilhado. Dei um beijo em sua testa e disse que ia deitar mais cedo.
Mentira, me tranquei no quarto, mas não pra dormir. Me deitei, olhos fixos no teto, esperando o momento certo. O coração batia no ritmo da vingança. Cada minuto que passava era um passo mais perto do inferno, mas eu já tava condenado mesmo.
Hoje o morro vai tremer, Hoje eu vou derrubar um, O primeiro de muitos.
Peguei a arma debaixo do colchão, sentindo o peso frio na mão. Respirei fundo, mas não havia medo, só uma certeza amarga. Ele vai saber o que é perder um filho. Vai sentir a mesma dor que me rasga por dentro.
Nobre acha que pode tudo. Que a família dele tá segura atrás dos muros da mansão. Que dinheiro compra paz. Mas eu vou mostrar que o sangue deles vale tanto quanto o de qualquer um.
Abri a porta devagar, ouvindo a respiração tranquila de madrinha no quarto ao lado. Se ela soubesse o que eu ia fazer, tentaria me impedir. Mas essa noite não tinha volta.
Saí na calada, me misturando às sombras. O primeiro já tava marcado. O próximo?
O próximo vai ser o mais inocente da família do Nobre.
E aí, sim, ele vai saber o que é perder alguém que se ama de Verdade.