03 - Duda

1328 Words
Duda Narrando Fala, meu povo! Eu sou a Maria Eduarda Brandão, mas todo mundo me conhece como Duda. Tenho 26 anos, sou morena, tenho 1,65 m, cabelo cacheado e olhos escuros. Sou cria do Morro da Providência, mas minha vida nunca teve um endereço fixo. Cresci entre a Gamboa e, às vezes, Santa Teresa, sendo jogada de um lado para o outro como se fosse um objeto. Meus pais sempre tiveram esse vai e vem na relação. Se separavam, cada um seguia sua vida e ia distribuindo os filhos por aí. Quando voltavam, recolhiam todo mundo, como se fôssemos sacolas de supermercado. Essa confusão sempre fez parte da minha vida. Mas dos meus 9 aos 18 anos, eu morei com a minha tia Fátima, na Gamboa. Ela é a mais cabeça da família, crente daquelas fervorosas, sabe? Me levou para a igreja e eu cresci ali dentro. Morando com a tia Fátima, pela primeira vez na vida, senti que podia estudar em paz, sem medo, sem preocupações que não deveriam ser minhas. Ela já tinha dois filhos, os dois mais velhos do que eu, e um deles, Bem, um deles tentou se aproveitar de mim uma vez. Mas minha tia era uma mulher forte, de pulso firme. Ela deu uma surra tão grande nele que, até hoje, ele nem olha na minha cara. Foi naquela casa que aprendi o que era respeito de verdade. O que era certo, o que era errado. Coisas que minha mãe deveria ter me ensinado, mas que, por um motivo ou outro, não ensinou. Tia Fátima tomou para si essa responsabilidade. E eu sou grata a ela por isso. Conheço a Bíblia de co e salteado. Fui batizada nas águas, fiz parte do grupo de jovens, cantava nos congressos. Eu tinha uma vida com Jesus. E, por um tempo, achei que aquele seria o meu caminho. Mas a vida tem uns desvios, né? E foi quando completei 18 anos e meio que tudo mudou. Quando consegui um trampo fixo, ganhando um salário razoável, decidi sair da casa da minha tia. Não porque eu não gostava de lá, mas porque eu queria sentir o gosto da liberdade. Queria conhecer o mundão além dos muros da igreja, além do olhar vigilante da minha tia Fátima. Queria entender o que tinha além daquelas regras que me foram ensinadas. E eu fui. Fui e nunca mais consegui voltar. No começo, era só curiosidade. Uma saída aqui, outra ali, experimentar o que antes era proibido. Mas, quando me dei conta, já estava afundada em um estilo de vida que não combinava com quem eu fui um dia. As noitadas viraram rotina, os copos cheios eram constantes, e as companhias mudaram. Eu me vi presa num mundo onde liberdade e perdição andavam de mãos dadas. E não pensem que eu não sentia falta. Eu sentia, sim. Quantas vezes, no silêncio da madrugada, eu me pegava lembrando das músicas do grupo de louvor, das palavras que eu mesma já preguei, das vezes que chorei no altar pedindo direção? Só que agora eu já estava longe demais. E quando a gente se perde, nem sempre é fácil encontrar o caminho de volta. Eu sei que, lá no fundo, minha tia Fátima ainda ora por mim. Sei que, no meio daquelas vigílias intermináveis, ela fala o meu nome pedindo para Deus me resgatar. Mas será que ainda tem jeito? Ou será que eu fui longe demais? Foi em uma festa que eu conheci o Nobre, o dono do Morro da Providência. Eu sabia quem ele era, aliás, todo mundo sabia. Casado, temido, poderoso. Mas naquela noite, nada disso pareceu importar. Ele chegou em mim com aquele jeito envolvente, aquele olhar que parecia atravessar minha alma. Eu deveria ter recuado, ter ido embora, mas eu não fui. E quando percebi, já era tarde demais. No começo, eu achei que era só um lance, que ia ser uma coisa rápida. Mas o Nobre não é o tipo de homem que se contenta com pouco. Ele me queria. E quando o Nobre quer, ele toma. Criou uma obsessão por mim. Eu tentei sair fora, tentei terminar várias vezes, mas ele nunca deixou. Diz que se eu largar ele, me mata. Eu sei que ele não está brincando. Já vi do que ele é capaz. O pior é que eu não amo ele. Gosto? Talvez. Mas não amo. Não é amor o que eu sinto. É medo. É dependência. Ele me tem na palma da mão, e eu não sei como escapar. A mulher dele sabe da nossa história, mas fica na dela. Ela conhece o homem com quem casou. Sabe que se abrir a boca, pode acabar sem os dentes, ou coisa pïor. Ele nunca me bateu, mas me ameaça o tempo todo. Ele quer me dominar, quer que eu seja só dele. E como se não bastasse, ainda me faz de aviãozinho. No começo, eu não queria, mas fui obrigada. Hoje, levo recado, levo encomendas. Sei o que estou carregando, sei o risco que corro. Mas dizer "não" pro Nobre é assinar a própria sentença de morte. Às vezes, eu me pego pensando em quem eu já fui. Quem eu poderia ter sido. Me bate um vazio, uma tristeza que chega a sufocar. Esses dias, fui até a igreja. Sentei no fundo, quietinha, tentando sentir alguma coisa, tentar me reconectar com Deus. Mas o Nobre foi me buscar. Ele não quer que eu vá pra igreja, não quer que eu Ore, que eu peça ajuda. Ele me quer nesse mundo sujo, mergulhada até o pescoço na lama que ele espalha. Ele me leva pros bares, pros bailes, tanto na nossa favela quanto nas favelas aliadas. Ele não anda com a mulher dele, anda comigo. Me exibe como se eu fosse um troféu. As pessoas olham, algumas com inveja, outras com pena. Eu vejo os olhares, eu sei o que elas pensam. Mas ninguém diz nada. Porque todo mundo tem medo do Nobre. Já chorei tanto, já implorei a Deus por força, por direção, por um jeito de sair dessa vida. Mas às vezes acho que fui longe demais. Será que Deus ainda me escuta? Será que Ele ainda quer saber de mim? Ou já me abandonou de vez? Um dia, eu virei as costas pra Ele. Agora, talvez, seja eu quem esteja pagando o preço. Mas eu tenho fé que vou sair dessa. Nem que seja na minha morte, mas eu vou. Hoje fui no supermercado. Nada demais, só mais um dia comum. Peguei uma cestinha e fui andando pelos corredores, escolhendo as coisas que precisava. Arroz, feijão, umas besteirinhas, também verdura e fruta, Eu moro sozinha, mas o Nobre sempre vai almoçar, vou jantar comigo. Minha cabeça estava longe, cheia de pensamentos que nunca me dão trégua. Enquanto pegava um pacote de macarrão, senti um toque leve nas minhas costas, me virei rápido. No meu mundo, um simples toque pode ser sinal de perigo. Mas, para minha surpresa, era uma irmã da igreja. Sempre vejo ela descendo para o culto, daquelas bem tradicionais, com coque no cabelo e saia no meio da canela. Ela me olhou nos olhos, séria, mas com uma doçura que me desarmou por completo. — Deus vai ter um encontro contigo, e através da tua vida Ele vai resgatar outras vidas. Tudo tem um propósito, e ELE manda eu te dizer, que ele vai te libertar dessas amarras, e tá fechando a tua cova. No mesmo instante, senti um nó na garganta. Minhas mãos tremeram. Meus olhos se encheram de lágrimas e, antes que eu pudesse evitar, comecei a chorar ali mesmo, no meio do supermercado. Tanto tempo sem ouvir Deus falar comigo. Tanto tempo me sentindo sozinha, perdida, esquecida. Já tinha até achado que Ele tinha desistido de mim. Mas naquele momento, com aquelas poucas palavras, foi como se Ele estivesse ali. Me vendo, me ouvindo. Como se Ele nunca tivesse me deixado. E eu só conseguia chorar.
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