02 - Duda

1108 Words
Duque Narrando Salve, rapaziada. Eu sou Eduardo Figueiredo, mas no corre sempre fui chamado de Duque. Vivi quase 20 anos dentro do movimento, servindo ao morro da Providência. Sou moreno, tenho 1,78 de altura, sou moreno de Olhos verdes, tenho muitas tatuagens espalhadas pelo meu corpo,e cada uma traz um significado. Cresci vendo os mais velhos no crime, ostentando respeito, dinheiro, arma na cinta. Achei que aquilo era o caminho, o único que eu tinha. E foi mesmo, por um tempo. O problema do crime é que ele te abraça e não te solta. Eu quis sair, quis largar tudo, viver uma vida normal. Mas os cara não deixaram. Diziam que eu sabia demais, que eu era peça fundamental no corre. Tentaram me dobrar, me ameaçaram. Quando viram que eu não ia voltar, me juraram de morte. E foi aí que começou meu inferno. Tive que fugir, me esconder. Só que não era só minha vida que tava em jogo. A mulher que eu mais amei na vida tava comigo, e ela carregava meu filho na barriga. Meu moleque, o herdeiro que eu nunca conheci. A gente chegou a fugir junto, só que os caras descobriram onde estávamos. Pegaram ela antes de mim. Meu filho não teve a chance de nascer. Eu queria morrer ali, com eles, mas minha covardia falou mais alto. Corri, me escondi feito um bïcho, porque se eu ficasse, eles iam me matar. Os dias depois disso foram um inferno. Eu não tinha mais ninguém. Dormia no meio do mato, roubava comida pra sobreviver. Já fui bandïdo, já toquei o terror no morro, mas nunca me senti tão pequeno, tão insignificante. Eu era um rato fugindo da ratoeira. E aí vem aquela pergunta que não sai da minha cabeça até hoje: que Deus é esse? Me diz! Que Deus é esse que deixou minha mulher morrer, que matou meu filho antes dele respirar? Ela, que sempre acreditou nele, que orava, que pedia proteção. Que pörra de proteção foi essa? Onde tava esse Deus quando eu mais precisei? Falam que Deus escreve certo por linhas tortas, mas na moral? Só vejo linha quebrada na minha vida. Eu tentei mudar, tentei sair, e olha onde fui parar. Largado, caçado, sozinho. Mas eu não sou de me entregar. Passei fome, passei frio, mas sobrevivi. Os cara não me pegaram, não tiveram esse gostinho. E hoje tô aqui, contando essa porr@ dessa história, com um buraco no peito que nunca mais vai fechar. Dizem que a gente colhe o que planta. Mas e minha mulher, meu filho? O que eles plantaram pra morrer assim? No fim das contas, acho que tem coisa que a gente nunca vai entender. E eu, bom… eu sigo. Não sei pra onde, nem pra quê, mas sigo. Porque se tem uma coisa que aprendi nesses anos de guerra, é que enquanto a gente respira, a gente luta, e o jogo só acaba quando termina. Depois que o terreno tava limpo, eu decidi voltar. Minha casinha ainda tava lá, intacta. Só a mancha de sangue na sala lembrava o que tinha acontecido. Tudo tava do jeito que eu deixei. O tempo pode ter passado, mas o cheiro da covardia ainda impregnava as paredes. Fui direto pro quarto, afastei o guarda-roupa com força, abri o cofre e peguei todo o dinheiro que tinha guardado. Joguei umas mudas de roupa dentro da mochila, botei a arma na cintura e saí sem olhar pra trás. Chegou a hora de voltar, de mostrar quem manda no jogo. Esqueceram quem eu sou. Na rodoviária, comprei a passagem pro Rio e viajei quieto, com a mente a milhão. Cheguei de madrugada, sem alarde, como um fantasma. Assim que botei o pé na Cidade, senti o cheiro da cidade, aquele misto de maresia e fumaça, um cheiro que eu conhecia bem. O táxi me levou direto pra Santa Teresa, e quando desci em frente à casa da minha madrinha, o coração bateu mais forte. A casa tava do mesmo jeito de anos atrás, só um pouco mais velha, igual a dona. Bati na porta umas três vezes antes dela abrir. — Quem é? — A voz dela veio rouca do outro lado. — Sou eu, madrinha… Eduardo. O silêncio foi curto, mas intenso. A porta abriu devagar e, assim que ela me viu, arregalou os olhos e me puxou pra dentro num abraço forte. — Meu Deus, meu filho! Cê tá vivo! — Ela me apertou como se quisesse ter certeza. — Tô, madrinha. Mas fala baixo, ninguém pode saber que eu voltei. Ela fechou a porta rápido e me olhou de cima a baixo. Eu sabia o que tava passando na cabeça dela. Magro, barba por fazer, olhar pesado. — Entra logo. Quer comer alguma coisa? — Não, só preciso descansar um pouco e depois resolver umas paradas. — Que parada, Duque? O que aconteceu? Sentei no sofá, passei as mãos no rosto e suspirei. — Vou matar Nobre e a família dele. Depois vou atrás de cada um que apertou o gatilho contra a vida da minha mulher. Só assim, madrinha, eu vou ter paz. Ela me olhou como uma mãe olha pra um filho perdido. Sabia que não adiantava tentar me convencer do contrário. — O que aconteceu filho, onde você estava? — Eu tava no Espírito santo, e Nobre foi lá com os cão de guarda dele, e mataram a minha mulher e o meu filho. — Meu Deus! Meus sentimentos filho. Que tragédia. — Avisa a família da Ruth, madrinha, sem dizer que eu tô de volta. Eles merecem saber o que aconteceu com ela. Madrinha suspirou fundo e balançou a cabeça, meio triste, meio conformada. — E depois? Vai fazer o quê? Vai voltar pra vida do crime? — Eu nunca saí, madrinha. Só fiquei afastado. Mas agora eu tô de volta. Ela se levantou, foi até a cozinha e voltou com um copo d'água. Me entregou e sentou do meu lado. — E onde você vai ficar? — Primeiro, aqui. Depois, eu preciso entrar no morro. Sei que as coisas mudaram, mas ainda tenho aliados. — Duque, essa vida não vai te levar pra lugar nenhum. Dei um sorriso de canto. — Madrinha, eu já não tenho pra onde ir. Ela abaixou a cabeça e respirou fundo, como se estivesse buscando forças pra aceitar. — Vou arrumar um canto pra você dormir. — Valeu, madrinha. Eu sabia que aquilo era temporário. A madrugada tava me engolindo, e o que eu tinha pra fazer ia me levar de volta pras sombras. Mas era o que tinha que ser feito. Amanhã o jogo começava de novo.
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