Arthur Allbertilli
Sabe aqueles momentos que você quer apenas sumir? Pois bem, esses é um desses momentos. Falar que estou vivendo num inferno, seria pouco para descrever o que estou passando agora. Se eu pudesse voltar a anos atrás, eu teria feito tudo totalmente diferente, não teria feito a covardia que fiz com alguém que confiou em mim, nos gravar transando, mostrar para a escola toda, aquilo foi baixo, foi monstruoso.
Mas o que posso fazer agora? Nada, e o soco que acabei de levar foi pouco, acabei sabendo por acaso da doença de Alec quando um dos enfermeiros do hospital falou por alto e acabei associando ao nome dele, queria realmente saber dele, depois de anos fiquei sabendo dele e onde ele estava, fui feito louco a sua procura, para pelo menos me desculpar, pedir perdão, mas fui recebido pelo seu namorado e seu ódio, e eu sei que ele tem razão por me tratar do jeito que fui tratado, eu fui o que de mais desprezível um homem pode ser com o seu parceiro, umas das coisas, e foi algo que destruiu a vida dele, se eu pudesse, ah se eu pudesse voltar. Eu não teria feito aquilo, não teria mesmo, mas agora, do que adianta querer de volta o leite derramado?
-Arthur? O que faz aqui uma hora dessas? - Alberto, um dos donos e médico do hospital me para, logo ele nota minhas lágrimas. - Meu Deus, você está bem? O que aconteceu? Está passando m*l? - Eu m*l respiro nesse momento, mas o olho e ele logo aperta meu ombro me passando confiança.
-Eu estou bem, só fiz algo horrível a muito tempo atrás, e hoje não posso me perdoar, nem ter o perdão da pessoa que machuquei. - Ele sorri compreensível.
-Todos estamos fadados a errarmos, Arthur, o que importa é o processo de se arrepender e buscar se redimir, e olha, você já faz isso, você salva pessoas e crianças aqui sem cobrar nada, faz apenas porque quer, porque seu coração gosta de fazer isso. Para algumas coisas claro que nada pode ser o bastante para ser perdoado, mas creio que você não fez algo que realmente não seja merecedor do perdão.
-Está errado, foi algo desprezível. Eu acho que nada do que eu faça pode apagar o que fiz.
-Tenho certeza de que paga sim, não apaga, mas torna tudo menos pesado de carregar. você se arrependeu, sim? - Mordo meus lábios, segurando o choro.
-Muito.
-Então não tem por que se sentir culpado, se machucou alguém, vá atrás dessa pessoa peça desculpas.
-Tentei fazer isso, mas ele não quer me ver. - Meu peito se aperta.
-Então der um tempo, deixe que ele supere isso.
-Já se passaram anos, Alberto, anos! E mesmo assim ele não quer me ver. Essa foi a primeira vez que o vi em tempos, e mesmo assim ele ainda não estar pronto para me ouvir, na verdade ele nem chegou a me ver. - Fungo baixinho.
-Eu sei que é difícil, mas apenas tenha paciência e se auto perdoe, depois você procura por ele de novo. Deixe-me te dar um abraço, logo vai se sentir bem. - Ele me abraça, e me permito relaxar, faz uns dois anos que eu conheço esse cara, ele é super gentil, tem os olhos castanhos quase um mel, mais lindo que já vi, n***o, altão, seus cabelos raspados nas laterais e uns cachinhos soltos no topo, ele é sempre assim, sempre busca ajudar a todos, e foi ele quem me recrutou no hospital parceiro daqui, que é onde trabalho, para alguns atendimentos voluntários, não pensei duas vezes em aceitar, então de duas em duas semanas na minha folga eu estou por aqui.
-Obrigada por sempre me tratar da melhor forma possível.
-Que nada cara, trabalhamos juntos a um tempo já, são poucos os dias que nos vemos, mas já sinto como se fosse seu amigo. - Um sorriso se abre em meus lábios. - Ótimo, continue sorrindo assim.- Ele sorri de volta.
-Obrigado mesmo. - Falo apertando sua mão e me afastando, acho que ele é o único amigo que tenho, um verdadeiro amigo.
-Me ligue sempre que precisar de um ouvido e um ombro para desabafar, você tem meu número, e ainda não marcamos nossa próxima saída para uma bebida.
-Te ligo. - Digo e saio pelas portas do grande hospital, sempre bebemos juntos em alguns fins de semana que nossas folgas coincidem e não tenho que vir aqui.
Entro no meu carro, encosto minha cabeça no volante e a dor que tinha sumido a alguns segundos atrás volta, eu queria ter poder sobre minha própria vida, queria mudar muitas coisas, eu apenas queria e queria, mas nunca tenho força de vontade para mudar a minha nada, para tomar as rédeas de tudo, para ser eu, eu não posso amar quem meu coração quer, não posso ficar com quem quero ficar, não posso nada, tenho tudo, mas nada do que realmente eu queria.
Meus pais mais parecem ser meus chefes do que meus pais, eles apenas mandam, eu apenas abaixo minha cabeça como fui ensinado desde pequeno e aceito, não tenho liberdade para nada, nem mesmo tive quando escolhi minha profissão, fiz faculdade de medicina por pura e leve opressão, fiz por medo, por causa de ameaças.
Tenho pena do ser humano que eu me transformei, tenho nojo das coisas que fiz, nojo de mim.
As lágrimas agora escorrem pelo meu rosto, ah se meu querido pai visse que estou chorando feito uma menininha, assim mesmo que ele falava quando ainda com quatro, cinco anos eu chorava na sua frente.
Sinto o pânico querendo tomar cada pedaço do meu corpo, o choro se intensificar e o ar sumindo dos meus pulmões, então para pelo menos me acalmar, faço a única coisa boa que minha mãe fez por mim em todos os meus vinte e sete anos de idade. Canto uma música.
Não olhe, não olhe para a escuridão.
Não tenha medo, fique aqui, segure minha mão.
Sei que está escuro, o vento sopra forte.
Mas tudo bem, tudo bem, um dia o medo vira sorte.
Feche os olhos, respire devagar.
Se ficar com medo, cante e vai se animar.
Não tenha medo, não tenha medo...o frio logo vai passar.
Cruze os dedos, mamãe está aqui, ela vai te abraçar, com cuidado e muito amor, ela vai, ela vai te salvar.
Mas se demorar, e mamãe não chegar, só respire, respire devagar, eu estou aqui, não vou te abandonar. Eu vou te amar, e te cuidar, mesmo de longe, eu vou te proteger.
Não tenha medo. Eu cuido de você.
Sinto que aos poucos vai funcionando, pois minha respiração vai voltando ao normal, mas apenas a dor fica, e agora em dobro, pois minha mãe, a mesma que cantou essa música quando eu tinha seis anos e estava com medo de dormi sozinho, é a mesma que hoje grita e me xinga, eu não sei como algo como essa música pode ser a única coisa que me acalma em um momento de desespero, talvez seja porque é a única lembrança boa de infância, se é que posso chamar o que vivi de infância.
Eu sou um covarde, um homem, mas que aparenta ser um bebê sem controle de suas próprias emoções e controle motor.
Passo as mãos por meu rosto respiro fundo, finalmente ligando a merda desse carro, saio do estacionamento, entrando nas ruas movimentas da cidade grande, carros para todos os lados, eu ligo o rádio do carro, está passando, Clarão, do Jão, é uma música boa, vai me embalando me levando a momentos a muito tempo atrás, momentos que foram bons, mas eu estraguei, momentos que eu fiz ser algo r**m para Alec. E me faz ter esperanças por momentos bons no futuro, por momentos que eu não precise me esconder, que eu possa ser e amar quem eu quiser, quem meu coração escolher.
Esperança essa que já se encontra em suas últimas respirações.
Não vou ser um i****a mais ainda, em dizer que eu o amei ou que eu o amo hoje, isso não aconteceu, mas eu gostei dele, gostei dos momentos que vivemos, mesmo na maioria deles eu estava sendo o pior falso que alguém poderia ser. Eu sou um i****a, um desgraçado, eu me odeio. Me odeio muito! Mesmo que eu não o amasse, eu estava vivendo com ele, momentos que eu realmente queria viver, ali, pela primeira vez, por mais que fosse encenação, eu estava sendo eu mesmo de um jeito nojento. Mas os toques, as palavras, tinha tudo um pouco do verdadeiro Arthur, o menino que queria apenas amor.
Queria não ter que voltar para aquela casa, mas eu tenho medo, e isso tem me matado aos poucos. Então eu sigo caminho para meu calvário.
Pois é, ainda moro com os meus “pais”, hoje estou de folga, do hospital que trabalho, e ontem eu escutei sobre Alec, então, escondido, fingindo que iria ver uns amigos, vir ver ele, e aconteceu toda essa merda. E sim, nem mesmo sair de debaixo do teto deles eles me permitiram, mesmo assim tenho um apartamento perto do hospital, quando saio muito tarde, aproveito essa desculpa de estar muito cansado para dirigir, e durmo lá, são as únicas noites de paz, as únicas que consigo dormir tranquilo.
Respiro fundo, e o caminho que faço passo pela praia, estaciono o carro numa vaga que me deixa de frente para as águas cheias de ondas incontroláveis, abro as janelas do meu caro e deixo o cheiro da água salgada entrar em contado com meu nariz, aproveitando esses minutos de paz.
Hoje, segunda, tenho folga dos dois hospitais, mas amanhã chega os novos residentes que precisarei acompanhar de perto o estágio deles, serei aquele que vai decidir o futuro deles, ou quase isso, vai ser a partir da minha avaliação que eles podem ser aprovados ou não. Sempre gostei de fazer parte disso, me deixa bastante cansado, pois não paro o dia todo, então sempre acabo desmaiando quando me deito na cama, e isso me ajuda a não pensar onde estou e em como minha vida é uma merda completa.
Olho a hora no relógio caro em meu pulso e vejo que não está tão tarde, passei bastante tempo aqui, logo é hora do jantar, melhor não me atrasar.
Dou partida, me despedindo da vista do mar azul, só verei de novo quando for trabalhar no hospital como voluntario próxima semana.
Minutos depois me encontro na garagem da grande mansão dos Albertinelli. Desligo o carro, e sem a menor vontade, entro na grande casa, vejo a governanta e logo ela vem me receber.
-Boa noite senhor Arthur, seus pais estão a mesa do jantar lhe esperando. - Quase reviro meus olhos, me esperando, eles nunca estão.
-Obrigado. - Sorrio para a senhora e sigo até a sala de jantar com ela atrás de mim. - Boa noite. - Falo apenas pela “educação” que papai me deu, pois apenas, todas as vezes recebo apenas um balançar de cabeça, pois mamãe está ocupada com seu celular, e papai no seu tablet cuidando dos negócios da família.
-Onde foi? - A pergunta sai de papai, me sirvo da comida disposta ali na mesa quando me sento ao lado da cabeceira da mesa ao lado de papai e em frente mamãe. Nesse momento estou com minha máscara fria, não deixando nenhum sentimento transparecer, quando na verdade tenho vontade de revirar meus olhos, afinal, eu deixei avisado que iria ver uns “amigos”.
-Ver meus amigos do hospital. Fomos a um bar jogar papo fora. - Coloco uma garfada da salada na boca, mas não sinto fome alguma. Sinto os olhos de papai em mim.
-Entendi. - Pronto, nossa conversa acabou aí, tenho vontade de chorar, só queria meus pais, que me dessem amor, apenas isso. Acabo minha comida em silêncio.
-Posso me retirar? - Pergunto ao terminar tudo. Papai me observa e olha meu prato, se certificando que comi tudo, mamãe não me olhou ou se dirigiu a mim desde que pus o pé no ambiente. Respiro fundo segurando a vontade de chorar.
-Pode se retirar. - É como se eu estivesse a mesa com dois robôs. Me levanto devagar e saio da sala já com as lágrimas descendo pelo meu rosto, hoje foi um dia cheio de emoções, todas elas ruins.
Entro em meu quarto, nem mesmo posso trancar a porta dele, pois papai tirou a chave desde os meus cinco anos, tomo um banho, e me deito na cama, pego um livro qualquer na minha estante, meu quarto é o mais neutro possível, as paredes de um cinza melancólico, apenas minha cama de casal, a porta para o closet e o banheiro, nada mais.
Fico ali lendo até me cansar, então escuto tudo silencioso, as frestas da porta não têm mais a luz passando por elas, e sei que todos foram se deitar, então me permito sentir tudo que vivi ao longo do meu dia, durmo chorando.