Capítulo 2

1650 Words
Arthur Allbertilli Meus olhos se abrem ao escutar o barulho alto do meu celular, estou de bruços sobre a cama, respiro pesado, sentindo meus olhos inchados, me viro e me coloco de barriga para cima, passo alguns segundos olhando aquele teto branco, a merda da música chata continua tocando, o que me faz ficar irritado. Muito irritado, com tudo, com meus pais, e principalmente comigo mesmo, eu sou a p***a de uma marionete, um troféu que eles carregam para cima e para baixo, se gabando em como sou um bom médico. Faz exatamente vinte e sete anos que estou cansado, que não tenho paz. Eu queria acabar com tudo isso, mas nem mesmo pôr um fim a esse sofrimento eu consigo. Como vou me livrar dos meus sequestradores? Não no significado literal da palavra. Mas é assim que me sinto com relação as pessoas que chamo de pai e mãe. Sinto que vim a esse mundo para que eles me moldassem e controlassem, assim eu seria a peça perfeita de sua coleção, onde eles fazem o que bem entendem, e quando acha outra coisa mais interessante, apenas deixa de lado, acumulando poeira, as poeiras é todo meu medo, traumas e dores. E adivinha, não tem ninguém que zele pela peça que antes era perfeita. Me sinto assim, um objeto, e era por me sentir assim, que eu deveria nunca ter feito o que fiz com Alec. Não vou dizer que entendo por toda a dor que ele passou, mas eu conheço a sensação de ser usado. Levanto meu tronco da cama e fico sentado sobre ela, a música volta a tocar, me viro e alcanço o celular em cima da mesa de cabeceira, desligando o despertador. Passo minhas mãos pelo rosto, e logo pelos meus cabelos, bagunçando ainda mais os fios castanhos. Preciso sair dessa casa, cada dia abaixo do mesmo teto que meus pais, eu sinto que perco ainda mais o resto do que deveria ser eu. Com um suspiro pesado, sigo a passos vacilantes em direção ao banheiro, tomo um banho morno, lavando cada parte de mim. Assim que saio do boxe, me encontro de frente ao grande espelho do banheiro, encaro meus olhos ainda um pouco vermelho pelo choro da noite anterior, penteio meus cabelos com cuidado, os deixando numa bagunça organizada, escovo meus dentes e saio do banheiro, entro em meu closet e coloco uma calça social com uma camisa social também, calço meus sapatos e pego minha mochila com alguns pertences que sempre gosto de levar comigo para o hospital. Vejo se o jaleco dentro da mochila está ok, e assim que verifico isso, fecho o zíper da mochila e saio do closet, estou prestes a abrir a porta do quarto quando a voz da governanta me faz parar com a mão na maçaneta. -Senhor Arthur, o café está servido, seus pais esperam por você. - Droga, eles não saíram cedo hoje. Abro a porta e dou de cara com ela. -Estou descendo. - Com um aceno ele começa a andar e eu sigo atrás dela. Assim que chego vejo papai com seu tablet enquanto toma um gole de sua xícara, mamãe dessa vez se encontra concentrada em comer um pedaço de mamão. -Bom dia. - Eles me olham rapidamente e com balançar de cabeça voltam ao que estavam fazendo. Respiro fundo me sentando em meu lugar e me servindo de uma xícara bem generosa de café, preciso me manter acordado o dia todo. -Ah, Arthur. - Papai fala como se lembrasse de algo. - Em um mês você estará de mudança para os Estados Unidos. - Minha mão que levava a xícara até minha boca trava no ar. -O que? - Falo quase sem voz. -Não escutou menino? - Mamãe se pronuncia. - É uma ótima oportunidade, você irá trabalhar no hospital mais famosos de lá, isso irá trazer reconhecimento para nossos negócios aqui. - Minha mão treme, uma raiva nunca sentida antes me consumindo inteiro. -Mas eu não quero ir, eu amo meu trabalh... - Sou interrompido em minha fala por papai. -Desde quando você decide alguma coisa Arthur? Somos seus pais, você nos obedece e pronto. - Ele diz dando o assunto por encerrado. Fecho minhas mãos em punho. -Mas eu não quero ir! - Ele me olha, parecendo furioso, e não sei o que tem comigo, mas pela primeira vez, eu estou tendo coragem, ainda tenho medo de seu olhar, mas tenho coragem agora, o que me faz tomar a atitude seguinte. - Vocês nunca foram meus pais. -É o que moleque? Você quer morrer? - Ele diz se levantando e apoiando suas mãos sobre a mesa enquanto me dirige um olhar assassino. -Eu não quero mais viver assim pai. Não quero fazer tudo o que VOCÊ quer. Quero tomar minhas próprias decisões, eu sou um ser humano, não uma máquina a qual você pode programar como bem entender. - Me encontro respirando pesado e rápido, por colocar para fora metade de tudo que sinto. Seus olhos parecem pegar fogo, quando me dou conta estou sendo levantado da cadeira quando suas mãos agarram com força minha camisa. -Você é mesmo apenas a p***a de um robô, que não serve de nada, é apenas um fracassado. Um p*u mandado de merda, e olha, você sempre vai ser apenas isso! - Meus olhos se encontram cheios de lágrimas, p***a, isso dói, dói demais. - Você é um fracote Arthur, maldito dia que decidir te colocar no mundo. - Ele respira fundo parecendo buscar calma. Mas logo sinto seu soco no lado esquerdo do meu rosto, já quase não consigo enxergar nada a minha frente, meus olhos estão cheios de lágrimas, minha visão está toda borrada. - Você vai fazer o que eu mandar e ponto final. Entendeu? Com muito custo, tomo uma decisão ali. Ainda de cabeça baixa, pego minha mochila que deixei no chão e saio correndo em direção da porta, ainda escuto passos atrás de mim. -Arthur? - Escuto a voz de minha mãe me chamar, mas não paro de correr. -VOCÊ FOI O PIOR ERRO DA MINHA VIDA ARTHUR!! - Essas são as últimas palavras que escuto de papai ao passar pela porta e a fechar com toda a minha força atrás de mim. Entro no carro às pressas e saio dali sem rumo, quando vejo que estou longe o bastante paro o carro no meio fio e deixo o choro sair. Eu fui apenas a p***a de um erro. Apenas isso! Eu não sou nada, não sou ninguém, sou apenas um fodido de um monstro. Solto soluços e sons horríveis pelo meu choro desenfreado. Queria poder dizer que nenhuma daquelas palavras me feriram, mas elas machucaram, machucaram demais, e pior do que todos os socos que ele me deu, essa ferida nunca vai se cicatrizar, aquelas palavras vão ficar gravadas na minha mente e coração para sempre, de um modo r**m, mais muito r**m. Nesse momento me encontro sem família, sem casa, pois para lá não vou voltar mais. Quero começar tudo novamente, quem sabe encontrar o verdadeiro Arthur por debaixo dessa capa que eles moldaram para mim ser. Pego minha mochila, a única coisa fora o carro e as roupas que uso, tudo que trouxe daquela casa, procuro pelo meu celular e logo o encontro, procurando nos contatos o número de Alberto. -Oi Arthur, me ligando a uma hora dessas da manhã. Aconteceu algo. - O primeiro sorriso do dia se abre em meus lábios, ele me conhece muito bem. -Está ocupado? - Minha voz sai um pouco rouca pelo choro de minutos atrás. -Estou no hospital, mas tenho um tempinho. Estava chorando cara? O que aconteceu? - Ele pergunta preocupado. -Briguei com meus pais. - A linha fica muda por uns minutos. -Como assim Arthur? O que seu pai fez dessa vez que te fez revidar? Ele te bateu novamente. - Ele pergunta com carinho em sua voz, tentando me passar calma. Um nó se forma em minha garganta, ele é tão mais meu pai do que meu próprio pai, com toda certeza Alberto é bem mais que apenas meu melhor amigo. -Ele queria me obrigar a ir trabalhar no hospital de um amigo dele nos Estados Unidos. Não sei como, mas eu apenas explodi. - Conto tudo a ele exatamente como foi. -p***a meu amigo, finalmente você tomou uma atitude. - Ele fala com orgulho na voz, e isso de alguma maneira me faz bem. -Liguei para perguntar se conhece algum que esteja a venda ou alugando, pode ser casa, apartamento, no momento só tenho meu carro e algumas poucas coisas na minha mochila, nem mesmo roupas tenho. - Ele leva alguns segundos para responder. -Não lembro de nenhum lugar. - Suspiro em derrota. - Olha, vamos fazer assim, você trabalha hoje o dia todo certo? -Sim, saio no máximo as onze da noite. -Bom, hoje não vou ter plantão aqui, saio as sete, me encontre na minha casa quando sair, você sabe meu endereço. -Como assim, Alberto? -Você fica comigo esses dias, aqui tem bastante espaço para nós dois, você fica no quarto de hospedes, e na sua próxima folga você procura um lugar com calma. -Não quero te atrapalhar, Alberto. -Você não vai, estou apenas te ajudando, deixa de coisa, como você poderia me atrapalhar? Eu estou mais no hospital do que em casa, nós dois na verdade, só venho para casa para dormi. - Sinto minha cabeça começar a doer, levo minha mão a testa e suspiro baixinho. -Ok. Olha, muito obrigado por tudo. Você sempre me salva. -Amigo é para essas coisas Arthur. Logo encerramos a ligação e eu parto para meu trabalho, hoje tenho muitos pacientes, e sempre pode surgir uma emergência. Não sei se estou preparado para enfrentar todo esse mundo por mim mesmo. Mas sei que estou muito certo de que fiz a escolha certa de sair daquela casa.
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