Arthur Allbertilli
Sinto como se meu corpo estivesse caindo de um precipício, mas estranhamente me sinto muito leve, sem preocupações, apenas meu corpo na mais perfeita e equilibrada paz, mas então, vejo seu sorriso, ele é perverso, diria até que doentio, e a queda que antes me levava para um mar de paz, se transforma em um mar obscuro, de medo, infelicidade, meu coração acelera em meu peito, uma dor sufocante, e o sorriso do meu pai insiste em aparecer em minha frente.
- NÃO, PAPAI! – Levanto meu torso da cama, ficando sentado sobre ela, estou suado e meu coração parece que vai sair do peito, a porta do quarto é aberta num rompante e um Alberto descabelado e apenas de cueca passa por ela olhando para todos os lados com seus olhos arregalados, quando seus olhos castanhos focam em mim, escuto seu suspiro de alívio.
- Que susto p***a! – Ele leva a mão ao peito. – Acho que ainda estou dormindo. – Ele me olha mais intensamente, ainda posso sentir meu coração acelerado. – O que aconteceu? Pesadelo? – Desvio dos seus olhos, fico encarando minhas mãos sobre meu colo. Ele se aproxima e se senta sobre a cama, um pouco a minha frente. – Pode falar comigo, Arthur. – Volto a olhar para ele. Quem diria que seriamos tão próximos hoje? Nunca achei que teria um amigo de verdade, mas aos poucos e em tão pouco tempo, Alberto tem se mostrado um bom amigo, quase como um irmão mais velho preocupado com o caçula da família, sinto vontade de chorar, mas não o faço. Respiro fundo.
- Estou bem, foi só um pesadelo. Vai passar. – Ele me olha com dúvida. – É sério, vou ficar bem, não se preocupe. – Sorrio para ele tentando passar verdade. Ele ainda me olha desconfiado. Escutamos um som alto ao longe e olhamos quase que ao mesmo tempo em direção a porta do quarto.
- É meu despertador. – Ele fala e volta a me olhar. – Acordei no susto, mas ao menos não vou me atrasar. – Ele sorrir o que me faz rir também, dessa vez de verdade.
- Vai lá, também preciso me arrumar. – Alberto me dá um beijo nos cabelos e se levanta. – Ah. – Digo de repente, o que faz ele parar e se virar para mim.
- O que foi?
- Acho que consegui arrumar um canto para mim. Só falta falar direito com o síndico do apartamento.
- Fico feliz que esteja se acertando. Não que esteja r**m você aqui, mas é bom ver você começando a viver. – Ele sorri todo bonito e se vai.
Me jogo sobre a cama de novo e fico ali por uns minutos pensando sobre minha vida, em toda ela. E vejo que não tive um único momento que fui feliz, que me senti livre. Acordo dos meus pensamentos com meu celular tocando, quando vejo a tela leio o nome do síndico, logo atendo.
- Olá.
- Bom dia, senhor Arthur, não é? – Sua voz sua simpática do outro lado.
- Isso mesmo.
- Desculpa ligar tão cedo, mas achei melhor para falarmos sobre o apartamento, ele ainda está alugando e para vender também, se quiser, podemos marcar um dia para você vir ver.
- Muito obrigada por ligar, acho que podemos sim marcar um dia, eu trabalho por toda semana, no sábado terei o dia todo de folga, se der para o senhor, pode me dizer o horário.
- Ótimo, pode vir as três da tarde? Terei a manhã cheia de serviço. – Tenho um sorriso enorme em meus lábios.
- Tudo certo para sábado então. – Nos despedimos e encerro a ligação, me sentindo um pouco mais animado, tomo um banho, visto uma camisa e calça social e pego minha mochila indo para a cozinha depois de arrumar meus cabelos e passar um perfume.
- Alberto?
- Aqui. – Ele sai do corredor já arrumado. Tomamos um café rápido e seguimos cada um para seu devido trabalho depois de nos despedimos.
Passo pelas enormes portas do hospital e sigo pelo corredor até a minha sala, passo pela recepção e cumprimento Amanda.
- Bom dia. – Ela sorri.
- Bom dia senhor Arthur.
Entro em minha sala e visto meu jaleco, sento-me sobre minha cadeira e começo ver alguns prontuários dos pacientes de hoje, tomara que não tenha nenhuma emergência para que eu não saia dessa sala hoje. Escuto um toque em minha porta, penso ser Amanda com o primeiro paciente do dia. Mas quando levanto meus olhos vejo Zander em minha frente, ele tem um sorriso contido.
- Bom dia.
- Bom dia Zander.
- Então, teve um acidente mais cedo, uma colisão de um ônibus escolar num carro. Precisam de você. – Solto um suspiro.
- Pensei que meu dia seria tranquilo, você me auxilia hoje.
E saio da sala com ele atrás de mim, tem mais ou menos uns vinte feridos, houve uma morte no local. A manhã foi bem agitada, Zander se saiu muito bem, me ajudou muito, tivemos tempo de parar para comer alguma coisa era quase três da tarde. Andávamos lado a lado pelo corredor do hospital.
- Vamos comer algo? – Pergunto olhando em sua direção. Ele suspira.
- Sim, estou morrendo de fome, nunca presenciei algo assim.
- Alguns dias vão ser tão agitados que quando você perceber, já foi todo o dia e você não comeu nada, por isso tem que prestar bastante atenção para não ficar com fome, ou pode passar m*l.
- Entendo.
Chegamos à lanchonete do hospital, peço um bolo de chocolate pois sinto que preciso de um pouco de doce hoje e um café com leite, Zander pede um sanduíche e um suco de laranja. Como o dia fui corrido e todos os meus pacientes foram remarcados tenho tempo de comer devagar, nos sentamos numa mesa e começamos a comer em silencio. Até que resolvo falar.
- Está gostando daqui? – Seus olhos se levantam do prato.
- Sim, está sendo uma experiencia muito boa, tenho aprendido muito nesse pouco tempo.
- Que bom que estar se adaptando. – Levo um pedaço de bolo a boca. – Ah, falei com o síndico, vou no sábado olhar o apartamento. – Ele sorri.
- Que bom que pude te ajudar com isso.
- Realmente não sei o que faria se você não tivesse me ajudado.
- Mas o que aconteceu? Por que você estava sem ter onde morar? – Me sinto um pouco paralisado com sua pergunta, ele nota minha demora e logo me olha com olhos arregalados. – Desculpa se perguntei o que não devia. – Respiro fundo e deixo meu corpo relaxar.
- Não tem problema, eu morava com meus pais. – Abaixo meus olhos, sentindo um leve aperto no peito em lembrar. – Digamos que nos desentendemos e eu resolvi sair de casa.
- Mas por quê? – Ele pergunta rápido. Mas logo sorri sem graça. – Desculpe, não quis soar como um intrometido. – Meu sorriso sai tenso.
- Eles não me aceitam como eu sou, apenas isso. – Ele acena com a cabeça. Voltamos a comer em silencio.
Depois cada um seguiu para lados diferentes, ele tinha alguns pacientes para checar e eu para atender. Assim se passou o resto da tarde e boa parte da noite, quando fui a lanchonete para comer algo no jantar, não o vi e estranhamente me senti triste com isso.
Quase duas da manhã quando consegui finalmente deixar o hospital, estava esgotado, cansado e com fome, segui para o estacionamento e entrei em meu carro, pude finalmente respirar direito depois de um dia inteiro de trabalho. Sai com o carro e quando virei a esquina vi Zander andando em direção ao ponto de ônibus, parei o carro perto do meio-fio e buzinei, ele me notou e veio com um sorriso brilhante em minha direção, e mesmo sem querer, me peguei sorrindo de volta.
- Carona? – Pergunto quando ele está ao meu lado perto da janela.
- Eu realmente vou aproveitar hoje sem vergonha, estou morto, sinto que se for de ônibus dormirei e passarei do ponto. – Ele rir e me pego rindo junto.
- Entre. – Ele circula o carro e dou partida quando ele coloca o cinto. Deixo uma música tocando baixinho e a viajem segue em silencio, mas um silencio confortável.
Quando paro o carro em frente ao prédio dele que pode chegar a ser o meu no futuro, olho em sua direção e vejo que ele acabou dormindo, um sorriso enfeita meu rosto, ele é muito lindo, parece até mesmo um anjo dormindo. Sem que eu possa notar, minha mão segue até seus cabelos pretos lisos caindo sobre seu rosto o deixa ainda mais lindo. A textura de seus cabelos em minha mão é o mesmo que está tocando em seda, tiro os fios que caem sobre seus olhos, meus olhos se arregalam e minha mão sai rápido de seus cabelos. O que estou fazendo? Estou ficando louco? Abaixo a cabeça e puxo de leve meus cabelos. Só posso estar enlouquecendo. Tomo duas respirações profundas e volto a olhar para ele que começa a se mexer de leve.
- Zander? – Chamo baixinho e logo seus olhos começam a se abrir. Ele se desencosta do banco e me olha com a carinha sono mais linda que já vi, tenho vontade de rir nesse momento, mas me mantenho sério. Ele coça seus olhos e me olha com culpa em seus olhos.
- Desculpe, acabei dormindo.
- Não se desculpe, tivemos um dia longo. – Ele assente.
- Vou subir, não vou te prender muito, deve estar querendo dormir. – Não falo nada, mas sinto meu coração acelerar de repente. Que droga! – Dirija com cuidado e boa noite, Arthur, muito obrigado pela carona. – Ele sorri e se vai.
- Boa noite. – Digo baixinho quando vejo seu corpo sumir dentro do enorme prédio.
Dou partida no carro sentindo coisas que me deixam confuso, que me deixam com medo. Sinto minhas mãos suarem em contato com o volante, não quero sentir essas coisas, pois sei que elas não durariam para sempre, não sou merecedor de nada de bom que Zander pode trazer com ele, ele todo é muito bom para sequer eu lhe dirigir um segundo olhar, não posso destruir mais uma vida, não posso fazer ninguém mais sofrer, então tenho que parar meu coração antes que ele faça uma besteira enorme que é se apaixonar por aquele garoto. Ele não merece nem mesmo que sinta atração por ele, Zander parece ser um bom rapaz, gentil, educado e muito amoroso com todos. Não vou arrastar alguém tão puro para a minha vida, ninguém merece tal coisa, assim como eu não mereço a felicidade.