Todo o medo começa com uns berros de horror...
A família Krankenkasse não gostava de morar mais tempo num apartamento tão pequeno. Markus decidira procurar uma vivenda numa vila perto de Berlim, quando a mulher dele, Tina, engravidou por terceira vez. Os meninos deles, Frank e Brigitte, de seis e oito anos respetivamente, também gostavam da ideia da mudança. Eles preferiam viver uma vivenda, porque queriam ter um cão para brincar no jardim.
Em Julho de 2005, Markus encontrou uma vivenda muito grande, no meio dum bosque. Ficava numa vila chamada Oranienburg, com uma boa ligação ferroviária com Berlim. A vivenda tinha dois andares, um sótão e uma cave. Estava muito bem cuidada, mas somente por fora, já que o interior necessitava urgentemente de uma reforma, embora os últimos moradores a tivessem deixado apenas 6 meses atrás. Markus, que tinha dúvidas quanto aos últimos inquilinos, perguntou ao proprietário, com o qual tinha uma cita para visitar a casa.
- E porque é que os inquilinos deixaram esta magnífica vivenda, tão barata e próxima do centro de Berlim?
- Pronto - Respondeu o proprietário. - Os inquilinos tiveram de deixá-la porque se mudaram para Hamburgo.
- Percebo. Mas agora o senhor também aluga ou vende?
- Agora desejo vender, porque, como estou sozinho, não gosto de uma moradia tão grande.
- E será possível que o senhor me mostre a vivenda?
- É. Acompanhe-me, por favor.
Markus e o proprietário entraram em casa. O dono, que se chamava Bernard, explicou-lhe por que a vivenda estava em tão más condições. Ele disse a Markus que as últimas pessoas que viveram lá eram muito descuidadas. O senhor Krankenkasse não acreditou, e, aliás achava que ninguém vivera lá nunca ou nos últimos dez anos, mas ele queria comprá-la porque era muito bonita e muito barata - 12.000 euros -, se bem que ele tivesse de fazer uma grande reforma.
Seis meses mais tarde, depois de os pedreiros finalizarem a reforma, a família Von Krankenkasse começou o transporte de todo o seu mobiliário - conquanto eles não tivessem muitos móveis - para a nova casa.
A 1 de Fevereiro, o casal e os filhos tinham de estar fora do apartamento da cidade de Berlim, mas não podiam deixá-lo, pois por um problema na linha elétrica não iriam ter luz até ao 2 de fevereiro, se tudo corresse bem. Em consequência disto, deviam passar a primeira noite sem luz nenhuma, embora eles não gostassem da ideia. Antes de eles se irem para a casa, compraram um magote de velas.
Ao chegarem do restaurante berlinês, deitaram-se os quatro no mesmo quarto, pois não seria justo que Frank e Brigitte dormissem sozinhos.
A noite decorria sem problema nenhum. A família dormia, mas não por muito tempo, já que às 4 horas da manhã Markus escutou uns berros; uns berros que nunca antes escutara, uns berros que mostravam horror, uns berros de socorro, uns berros que nunca esquecerá, uns berros...
Markus acordou e procurou a origem dos queixumes. Não a encontrou, porque os berros iam de um quarto para outro da enorme moradia. Os queixumes de dor continuavam, mas também começou um bater nas portas que cada vez assustava mais o Markus - se bem que o mais estranho fosse a mulher e os meninos dele não acordarem. Seria que não escutavam o ruído? Markus não podia acreditar, pelo que voltou para a cama, querendo pensar que eram alucinações, mas não eram.
A noite decorreu e Markus não acordou. De manhã, antes de os filhos dele se levanterem, contou à mulher o que sucedera na noite, enquanto tomavam o pequeno-almoço na sala de jantar. Tina não acreditava e disse-lhe que seguramente fosse um pesadelo. Markus concordava com ela, pois pensava que eram alucinações, mas sabia que podia ser o contrário. Quando o casal acabou o pequeno-almoço, foi acordar os meninos, mas a porta do quarto estava fechada, até talvez trancada por alguma coisa. Markus tentou abri-la - não podia, mas o pior foi da porta começou a escorrer sangue. Tina berrou, berrou de medo e chamou pelos filhos, que não respondiam. Tinha cada vez mais medo e então acreditou que os berros da noite anterior tivessem sido reais. Enquanto ela pensava, Markus contuinuava a abrir a porta, até conseguir. Os meninos , adormecidos, não se aperceberam dos berros.
Markus e Tina tinham muito medo, e decidiram contactar um médium a fim de saberem o que sucedia na vivenda. Afortunadamente, o médium - que também vivia em Oranienburg - pôde vir esse mesmo meio-dia, justo depois de terem acabado de almoçar.
Quando o médium Albert chegou, perguntou-lhes:
O que é que vocês têm visto ou sentido, que lhes faz pensar que há uma presença estranha na vivenda?
- Bom - respondeu Markus ontem à noite, por volta das 4 horas, comecei a ouvir uns berros, que apenas senti eu. Depois, de manhã - quando íamos acordar os nossos filhos - a porta estava bloqueada, e ao tentar abri-la, começou a escorrer sangue.
- Poder-me-ão dizer a que ou quem se assemelham os berros? - Perguntou o médium.
- Eu julgo que será uma menina a pedir socorro, já que parecem berros de angústia, o senhor está a perceber?
- Percebo, sim. Então, vocês vão-me deixar sozinho no sótão, pois normalmente os espíritos estão na parte mais alta duma moradia.
- Bom, nós deixamo-lo sozinho, mas se necessitar de qualquer coisa, o senhor diga-me.
- Fique descansado, tudo irá correr bem, mas se sente qualquer coisa, não suba ao sótão, visto que pode ser muito perigoso.
- Ótimo. Muito obrigado pela sua ajuda.
O médium subiu para o sótão, enquanto a família se encontrava na sala de jantar, ainda levantando a mesa. Naquela tarde, eles tinham de continuar a arrumar os móveis e as outras coisas da mudança. As horas passavam, mas Albert não descia. Markus e Tina já pensavam que sucedera alguma coisa má. Queriam subir ao sótão para indagar, mas não podiam, porque estavam muito prevenidos.
A noite aproximava-se; a família Krankenkasse já jantara, mas Albert continuava sem descer. Finalmente decidiram subir ao sótão, a curiosidade matava-os. Depois de terem aberto a porta, a surpresa foi tão medonha...Albert estava pendurado pelo pescoço duma viga do teto. Eles começaram a gritar, mas para quê? Pelo menos tinham a sorte de essa noite terem luz em casa.
Os meninos já estavam no seu novo quarto, inocentes, já que os pais deles não lhes contaram nada do sucesso. A noite correu bem, mas Markus e Tina não conseguiram dormir nada, ao contrário de Brigitte e Frank, que dormiram toda a noite. Às 8 da manhã acordou toda a família. Desceram à sala de jantar e tomaram o pequeno-almoço. Não puderam acabar, pois o candeeiro começou a mover-se até que caiu. Todos berraram de medo e saíram para o jardim, onde se calmaram. Markus queria saber o que é que se estava a passar. Ele sozinho entrou no sótão e tentou escutar os berros, aqueles berros que tão medonhos eram.
Os berros ouviram-se novamente, mas tinham um volume mais baixo, pelo que Markus pensou que o espírito, ou fosse ele o que for, não se encontrava lá. E então pensou que podia estar na cave. Desceu rapidamente pelas escadas até chegar à cave, uma cave tão escura como a noite, embora tivesse um pequeno candeeiro. Procurou indícios dos berros, mas não encontrou nada - pronto, não sabia o que buscar.
Os berros continuavam, cada vez mais fortes, até que começou a cair sangue por um muro. Markus pensou que os berros vinham de lá. Começou a quebrar o muro, até que encontrou uma caveira, colheu-a sem pensar e levou-a para o jardim. Enquanto a levava correndo, na parte de cima da caveira, escreveu-se em vermelho uma frase em alemão: “ Ich will eine würdige Beerdigung”. Isto queria dizer que o morto queria um enterro digno.
A família von Krankenkasse teve de fazer um enterro no jardim. Enterraram a caveira e os ossos que estavam com ela, pensando que tudo ia a finalizar. O dia continuava sem problema nenhum, mas na hora do almoço, tudo voltou a mudar. Os berros repetiram-se, e os muros continuavam a sangrar e os candeeiros a cair. O casal queria que tudo finalizasse. Não queriam mais horror, não queriam pertencer mais a um filme de horror com um final que não conheciam.
Visto tudo isto e somado o medo que começava a medrar nas pequenas crianças, Markus e a família dele decidiram mudar de moradia outra vez. Apanharam o carro, com umas poucas pertenças, e foram em direção a um hotel, pensando não ter de voltar para aquela vivenda de horror. Indo pela estrada, o céu começou a virar cinzento. Começaram raios. Começara a chuva. Começara... a morte deles ...
Um raio tocou numa árvore, e ela caiu, em cima do carro. Toda a família morreu diretamente e sem saber que coisa ou que ser era o que lhes tinha produzido essa morte, essa morte tão penosa, naquela casa que era a moradia dos sonhos que eles sempre tiveram. Uma vivenda muito grande, com jardim, tranquilidade e fora da grandiosa cidade cosmopolita de Berlim.