Descido me dar o luxo de pegar o dinheiro que eu estava guardado para me hospedar em um dos quartos do hotel que a minha mãe trabalha.
Depois de calçar meus saltos, olhei a hora. Dez minutos para as nove e meia. Minha mãe costumava chegar cedo, e eu não gostava de fazê-la esperar, então peguei uma pequena bolsa para colocar a chave do quarto, dinheiro e celular. Desci de elevador até o térreo, onde ficavam a recepção e o restaurante. Caminhei rapidamente até o bar, ensaiando mentalmente o que diria à minha mãe para contar que, depois de todos esses anos, eu estava solteira. Como eu esperava, uma mulher vestida de vermelho estava atrás do balcão. Seu rosto era gentil e sua expressão serena. Sua pele era bronzeada e seus cabelos, lisos e loiros. Ao me aproximar, um sorriso se abriu em meus lábios. Ninguém imaginaria que éramos mãe e filha. Não nos parecíamos em nada.
Mesmo estando ao lado dela, ela não percebeu minha presença. Era sempre a mesma coisa. Ela era bastante distraída.
— Oi, mãe. Cumprimentei-a para chamar sua atenção.
Surpresa, ela se virou para mim.
— Querida, eu não te vi. Ela admitiu, como se nada tivesse acontecido.
Nos abraçamos rapidamente e eu suspirei.
— Onde ele está? Perguntei, percebendo que ela estava sozinha.
— Vou encontrá-lo às dez. Queria ficar a sós com você por alguns minutos. E o Roberto?
— Podemos nos sentar? Perguntei, mais séria.
— Claro. Ela respondeu, com o rosto agora demonstrando preocupação.
Pedimos dois daiquiris de morango e nos sentamos em uma mesa para quatro, esperando o sortudo chegar.
— Aconteceu alguma coisa com o Roberto? Ela perguntou.
Dei um gole no meu daiquiri e encarei o que precisava enfrentar.
— Roberto e eu decidimos dar um tempo.
— Meu Deus. Disse a minha mãe, cobrindo a boca com a mão, atônita.
— Na verdade, ele pediu um tempo. Confessei — E eu dei.
Um silêncio eterno se instalou entre nós. Suspirei e olhei para as pessoas ao nosso redor, esperando que a minha mãe processasse a informação.
— Então, como você está, querida? Ela perguntou, recuperando-se ao perceber que sua reação não estava ajudando.
— Me sinto traída. Suspirei novamente. A conversa estava se provando mais difícil do que eu havia previsto. Pela primeira vez, desejei poder conhecer o namorado da minha mãe para não ter que falar mais sobre o meu relacionamento fracassado.
— Quando aconteceu?
— Ontem.
— Ele te disse por quê?
Balancei a cabeça antes de responder.
— Só desculpas. Minha mãe deixou os ombros caírem e recostou-se na cadeira.
— Sinto muito, Karen... Pela sua expressão, não tive dúvidas. Ela estava falando sério. — Mas não se preocupe. Você é muito jovem. Haverá outros, e melhores.
E piores... Mas eu não diria isso a ela. Deixaria que ela me consolasse do jeito que quisesse.
— O que vai acontecer com o apartamento? Ela perguntou de repente, como se não tivesse pensado nisso antes.
— Eu disse para ele ficar com ele. Não quero morar lá.
— E para onde você vai?
— Bem... eu não sei. Vou ficar neste hotel esta noite. Eu sei que é um pouco caro, mas quis me dar esse luxo.
— De jeito nenhum. Disse ela firmemente, endireitando-se. — Você vai ficar comigo. Vamos buscar suas coisas amanhã e...
— Não, eu já peguei antes de vir para cá. Minhas coisas estão no quarto. Eu já paguei para ficar esta noite.
Minha mãe tocou o queixo, perdida em pensamentos.
— Mas eu te busco amanhã e te levo para casa.
Fiquei tocada pelo fato de ela ter dito “casa” e não “minha casa”. Afinal, eu era a filha dela. Eu jamais consideraria a casa dela como dela, mas sim como nossa. Minha garganta começou a doer por causa do nó que se formou. Eu geralmente não era muito sensível, mas hoje estava. Encarei a mesa para conter as lágrimas e tomei um gole do daiquiri para aliviar o nó.
— Tudo bem. Concordei baixinho. — E… Engoli em seco, ainda me recuperando. — Como você conheceu esse homem? Precisava mudar de assunto.
— Eu não te contei? Ela perguntou, confusa.
— Não sei. Você já me contou tantas histórias…
— Bem. Ela me interrompeu gentilmente. —Como mencionei alguns meses atrás, comecei a ter algumas tonturas. Fui ao médico, claro…
Sim, eu me lembrava. E descobrimos que a tontura era devido à pressão arterial dela, que estava um pouco acima do normal.
— Espere. Interrompi. — Você não pode estar falando do Felipe.
Felipe era o nosso médico de família do posto, e minha mãe não poderia ter começado um relacionamento romântico com ele, poderia? Seria perturbador. O homem era casado e estava prestes a se aposentar.
— Karen! Claro que não! Ela exclamou, sussurrando, com os olhos arregalados de choque. — Ele está aposentado, você sabe que a saúde dele era delicada. Explicou, mais calmamente. — Quando fui ao consultório dele, outro médico me atendeu; aquele que será o nosso médico daqui para frente.
— Mãe, o Felipe está aposentado e você não me contou até hoje? Repreendi-a.
Eu conhecia aquele médico desde pequena. Ele sempre foi meu médico, e eu tinha me afeiçoado a ele.
— Achei que já tivesse te contado. Ela se desculpou.
Me contive para não revirar os olhos. As vezes em que minha mãe me ligava eram apenas para falar de coisas triviais, mas ela nunca se lembrava das coisas mais importantes.