Algumas horas depois, a mansão já parecia diferente.
Não porque algo tivesse mudado.
Mas porque, pela primeira vez em muitos anos, aqueles homens estavam dentro de um lugar que não tinha grades, concreto frio ou cheiro de prisão.
Eles estavam espalhados pela sala.
Alguns conversavam baixo.
Outros ainda pareciam estar tentando entender tudo aquilo.
Até que ouviram passos na escada.
Todos olharam.
E então Sarah apareceu.
Ela tinha trocado a roupa elegante que usava antes.
Agora vestia um short simples e uma blusinha confortável.
Os cabelos ruivos estavam presos, deixando algumas mechas soltas em volta do rosto.
Sem maquiagem.
Sem aquela postura de mulher que precisava controlar tudo.
Apenas Sarah.
Por alguns segundos, ninguém falou nada.
Gael foi o primeiro a perceber.
Ela era bonita antes.
Mas daquele jeito parecia diferente.
Mais real.
Mais humana.
Dante desviou o olhar rapidamente, como se não quisesse demonstrar que tinha reparado.
Sarah chegou até eles sorrindo.
— E aí?
Ela olhou para os dez.
— As roupas serviram?
Marco foi o primeiro a responder.
— Serviram.
Ele sorriu.
— Ficaram ótimas.
Ela pareceu aliviada.
— Que bom.
Então apontou para a sala de jantar.
— Vem. Vamos jantar.
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Eles seguiram Sarah até a sala de jantar.
E quando entraram, todos pararam.
A mesa estava completamente cheia.
Não era apenas uma refeição.
Era um banquete.
Frango assado.
Carne assada.
Batatas.
Lasanha de carne moída.
Empadão de frango.
Arroz branco.
Macarronese.
Farofa.
Tudo preparado com cuidado.
Os dez ficaram olhando.
Até que Enzo soltou:
— Caralho...
Ele olhou para a mesa.
— Que isso?
Sarah sorriu.
— Jantar.
Marco riu.
— Isso a gente percebeu.
Ela puxou uma cadeira.
— Fiquem à vontade.
Eles não precisaram ouvir duas vezes.
Depois de anos comendo comida de prisão, aquilo parecia quase irreal.
Cada um se serviu.
E, quando provaram a comida, o silêncio tomou conta da mesa.
Não era um silêncio r**m.
Era surpresa.
Era apreciação.
Rafael foi o primeiro a falar.
— Nossa...
Ele olhou para o prato.
— Isso é um paraíso mesmo.
Gael concordou.
— Principalmente depois de sete anos comendo aquela gororoba da prisão.
Alguns riram.
Sarah sorriu.
— Imagino.
Ela continuou comendo tranquilamente.
Mas percebeu os olhares.
Eles ainda estavam tentando entender.
Então Dante perguntou:
— Ruiva...
Ela olhou.
— Por que tudo isso?
Sarah franziu a testa.
— Tudo isso o quê?
Ele apontou para a mesa.
— A casa.
— Os carros.
— As roupas.
— Tudo.
Os outros também ficaram olhando.
Sarah deu de ombros.
— Faz parte do contrato.
Alguns trocaram olhares.
Marco soltou uma risada.
— Não mete essa, ruiva.
Ela olhou para ele.
— É sério.
— Você está dizendo que uma mansão dessas, tudo isso, é só parte do contrato?
Sarah assentiu.
— Sim.
Ela colocou o copo na mesa.
— Lembrem que vocês ainda podem pedir o que quiserem em troca do contrato.
O silêncio voltou.
Ela continuou:
— Eu falei isso desde o começo.
— Vocês têm um ano para me proteger.
— Em troca, eu vou garantir que vocês tenham tudo que precisarem.
Dante observou o rosto dela.
Ela realmente parecia acreditar naquilo.
Não parecia uma negociação.
Parecia uma promessa.
Gael apoiou os braços na mesa.
— Você percebe que a maioria das pessoas pediria qualquer coisa no nosso lugar?
Sarah olhou para ele.
— Eu sei.
— E você não tem medo do que a gente poderia pedir?
Ela ficou alguns segundos em silêncio.
Então respondeu:
— Não.
A resposta simples surpreendeu todos.
— Porque eu não trouxe vocês para minha casa para controlar vocês.
Ela olhou para os dez.
— Eu trouxe porque preciso confiar em vocês.
E naquela noite, entre uma mesa cheia de comida e uma mansão silenciosa...
Por alguns minutos, ninguém falou.
Apenas o som dos talheres preenchia a sala de jantar.
Era estranho.
Muito estranho.
Dez homens que passaram anos vivendo entre violência, desconfiança e paredes frias estavam sentados em uma mesa enorme, com comida de verdade, uma casa confortável e uma mulher que não parecia querer nada além do acordo que tinha feito.
Dante observava Sarah em silêncio.
Ela comia tranquilamente.
Não tentava impressionar ninguém.
Não parecia estar esperando elogios.
Era como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
E isso incomodava.
Porque não era normal.
Não para eles.
— Você sempre faz isso? — Vittorio perguntou.
Sarah levantou os olhos.
— Isso o quê?
— Tratar pessoas assim.
Ela ficou alguns segundos pensando.
— Eu trato as pessoas como eu gostaria que tivessem me tratado.
A resposta veio simples.
Mas algo no jeito que ela falou fez todos perceberem que aquela frase carregava uma história.
Uma história que ela ainda não contava.
Dante percebeu.
Ele percebeu tudo.
O jeito que ela mudava quando alguém chegava perto demais de certos assuntos.
O jeito que o sorriso desaparecia por alguns segundos.
O jeito que ela parecia forte demais para alguém que nunca tinha sofrido.
Mas ele não pressionou.
Ainda não.
Depois do jantar, Sarah se levantou.
— Podem ficar na sala. Vou mostrar onde ficam algumas coisas da casa.
Eles acompanharam.
Não porque precisavam.
Mas porque ainda estavam tentando entender aquele lugar.
Ela mostrou a sala de segurança.
As telas.
Os sistemas.
As câmeras externas.
— Como eu falei, vocês podem verificar tudo.
Leon observou os monitores.
— Você realmente está deixando a gente ver toda a estrutura da casa?
— Sim.
Ele olhou para ela.
— Você confia demais.
Sarah sorriu de leve.
— Talvez.
Uma pausa.
— Ou talvez eu saiba escolher as pessoas que coloco ao meu lado.
A frase ficou na cabeça deles.
Depois, ela mostrou a área externa novamente.
A noite tinha caído.
As luzes da piscina deixavam a mansão ainda mais bonita.
Gael colocou as mãos nos bolsos.
— Vou admitir.
Sarah olhou.
— O quê?
Ele observou tudo.
— Eu esperava uma mulher rica arrogante.
Alguns riram.
— Mas você é diferente.
Ela arqueou a sobrancelha.
— Isso é um elogio?
— Acho que sim.
Sarah sorriu.
— Vou aceitar então.
Mais tarde, os dez voltaram para os quartos.
Cada um entrou no seu espaço.
E, pela primeira vez em anos, fecharam uma porta sem medo.
Sem ouvir gritos.
Sem sentir o cheiro da prisão.
Sem precisar dormir preparados para uma ameaça.
Marco sentou na cama.
Olhou para o notebook.
Depois para a cesta de chocolates.
— Isso ainda parece mentira.
No quarto ao lado, Enzo respondeu:
— Parece.
Vittorio abriu uma mensagem no celular.
O grupo dos dez ainda estava ativo.
Ele digitou:
Vittorio:
"Alguém mais está achando isso tudo estranho?"
A resposta veio rápido.
Gael:
"Completamente."
Marco:
"Ela é maluca."
Enzo:
"Ou a gente deu sorte."
Dante ficou olhando a conversa.
Até escrever:
Dante:
"Não se enganem."
Todos viram.
Dante:
"Ela tem um motivo."
Alguns segundos depois:
Gael:
"Você acha que ela está mentindo?"
Dante demorou para responder.
Porque não era isso.
Ele não achava que ela estava mentindo.
Ele achava que ela estava escondendo uma dor.
Finalmente escreveu:
Dante:
"Acho que ela passou por algo que ainda não conseguiu superar."
O grupo ficou em silêncio.
Porque todos tinham percebido.
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No quarto dela, Sarah estava sentada na cama.
O silêncio da mansão era diferente naquela noite.
Pela primeira vez, ela não estava sozinha.
Mas isso também trazia medo.
Ela olhou para o celular.
O contato dos dez estava salvo.
Ela tinha colocado dez homens perigosos dentro da própria casa.
Homens que o mundo inteiro temia.
Mas, estranhamente...
Ela sentia que eles eram menos assustadores do que as pessoas que ela já tinha conhecido.
Sarah fechou os olhos.
— Eu fiz a escolha certa.
Ela tentou acreditar nisso.
Precisava acreditar.
Porque agora não havia mais volta.
A partir daquele momento, os dez mafiosos faziam parte da vida dela.
E o passado que ela tanto tentou esconder...
Estava cada vez mais perto de encontrá-la