Fernanda Narrando
_ Uma garota da minha idade não deveria passar pelo que eu passo e pelo que já passei. Minha mãe diz que eu sou forte, que eu suporto tudo e que um dia isso vai passar, mas, às vezes, eu me pergunto quando isso vai acontecer. Ela não está na minha pele, não imagina como eu me sinto. Uma hora eu vou me cansar e abrir a boca. Vou acabar com essa imagem de família normal, que, na verdade, de normal não tem nada.
Já pensei em tirar a própria vida milhares de vezes. São anos vivendo nesse sofrimento.
Roberto: Tá pesando em quê? Limpa minha perna direito, já que foi você mesma que cortou. Você sabe que depois vai me pagar por isso. _ fala com raiva e me dá um tapa no rosto. As lágrimas escorrem antes mesmo que eu consiga perceber.
Fernanda: Não me bate, pai. Eu não fiz nada para o senhor. _ falo com medo. Mesmo depois de tudo que ele faz comigo, eu ainda sou obrigada a chamá-lo de pai. Se não, eu apanho mais e mais.
Roberto: Foi você que cortou a minha perna, sua projeto de p*****a. _ fala, puxando meus cabelos. Sinto minha cabeça latejar na mesma hora.
Fernanda: Eu só tentei me defender, pai. O senhor abusou de mim mais uma vez. Eu não tive infância e nem estou tendo adolescência. O senhor está tirando meu prazer de viver. Eu já senti vontade de tirar a minha própria vida. _ falo com as lágrimas escorrendo pelo rosto. Dói tanto falar sobre isso. O homem que poderia me proteger do mundo foi o primeiro a me destruir.
Roberto: Cala a boca! Prove que eu fiz isso. Se você falar isso para alguém, eu mato você e a sua mãe. _ fala com raiva.
_ Eu não sei se ele está blefando ou falando a verdade, só que nunca tentei desafiá-lo.
Fernanda: O senhor é meu pai e não tem nem amor por mim. Parece que eu não sou nada sua. A parte que mais me dói nisso tudo é que o senhor é meu PAI. _ falo a palavra pai em voz alta, como se quisesse fazê-lo entender.
Roberto: Ninguém manda você me provocar, ficar usando essas roupas minúsculas e com essa cara de p**a. _ fala, mesmo me vendo com um short normal e uma camiseta larga.
Fernanda: Roupas não são justificativa para chamar homens. Fora que as minhas roupas são normais. Eu não sou de usar roupas curtas nem nada do tipo. O senhor que é um louco, um maníaco. Além de tudo, fica desejando a própria filha. _ Assim que fecho a boca, sinto vários tapas no meu rosto.
Roberto: Já mandei você calar a boca. Você tem que aprender a me respeitar. _ fala, continuando a me bater.
_ Eu já estava caída no chão, pedindo mentalmente que minha mãe chegasse antes que ele me matasse. Roberto sempre me bate, mas, dessa vez, parece que exagerou ainda mais. Já estou sentindo minhas forças indo embora. Minha mãe foi comprar remédio para cuidar da perna de Roberto, mas parece que vai ter que voltar e comprar mais remédios para os meus machucados e para as minhas dores.
_ Na verdade, eu queria que ele acabasse com isso e me matasse de uma vez. Só assim acabaria com essa vida miserável que eu levo. Vejo minha mãe empurrando ele, mas estou toda dolorida que não consigo me levantar sozinha.
Lívia: Roberto, o que é isso? _ pergunta, empurrando
Roberto: Tô educando a sua filha, coisa que você não está sabendo fazer. Aliás, nunca soube, já que a Viviane se tornou mulher de bandido. _ fala com raiva, e minha mãe fica vermelha.
Lívia: Você é tão bom que abusa da sua filha, me bate e ainda ameaça nós duas. Isso chega a ser hipocrisia da sua parte. _ fala com lágrimas nos olhos.
Fernanda: Mãe, me ajuda. Meu corpo está todo doendo. _ falo, tentando me levantar. Se ela não tivesse chegado, tenho certeza de que ele teria me matado.
Lívia: Não encosta em nós, Roberto. Dessa vez você passou dos limites. _ fala, me ajudando a levantar.
_ Roberto até dá um passo à frente, mas ela impede.
_ Ela me leva até o banheiro e me ajuda a tomar banho. Logo em seguida, me veste com uma roupa larga e me ajuda a deitar na cama. Minha mãe começa a limpar meus machucados, e as lágrimas escorrem pelo rosto dela. Nós não aguentamos mais tanto sofrimento, mas ela também tem uma parcela de culpa. Ela poderia me defender, poderia falar para o marido da Viviane o que acontece dentro dessa casa, mas não. Ela prefere acobertar o erro do marido dela. Então, para mim, ela também é culpada.
Fernanda: Mãe, eu não estou aguentando mais. Uma hora eu vou acabar colocando a boca no mundo. Se eu não fizer isso, uma hora ele vai me matar. _ falo com raiva. Nem falo de filho, porque, desde quando ele começou a abusar de mim, minha mãe me dá anticoncepcional
Lívia: Ele vai querer matar nós duas se você fizer isso. _ fala com medo.
Fernanda: Se não matarem ele antes. _ falo o óbvio. Não me importo se matarem ele. Só quero que todos descubram e que esse sofrimento acabe.
Lívia: Não fala isso, Fernanda. Ele é seu pai. _ fala, negando.
Fernanda: Não tenho pai. Nunca tive. Roberto não é pai, é genitor. Pai cria, dá amor e protege do mundo. Ele não faz nada disso. _ falo, fria.
_ Minha mãe não fala mais nada, apenas chora. Ela sabe que estou falando a verdade. Eu não estou aguentando mais isso. O que falta para ele é querer me matar fisicamente, porque, mentalmente, não existe mais nada. Eu estou oca por dentro. Meu psicológico está completamente abalado.
_ Nunca abri a boca para a Viviane. No dia em que eu abrir, sei que ela vai agir, mas, na maioria das vezes, quando penso em falar, minha mãe me impede. Ela diz que ele pode conseguir fugir e nos matar depois. Então, eu desisto.