Capítulo 2

1337 Words
DIAS ATUAIS    - Filho? - Meu pai chama. Aperto os dentes, ouvir isso me causa náuseas. Imaginar que talvez nunca mais eu diga isso, é um tormento. Eu viro o rosto pra ele, vendo-o sentado no sofá com o tornozelo apoiado no joelho.   Enrico sempre teve uma postura de homem poderoso, é o que herdei dele. Bom, não nesse momento. Meus ombros estão baixos, meu rosto contorcido, meu corpo dói, meus ossos, minha alma.  - Converse comigo, filho. Faz três horas que enterrou a sua esposa e filho. Está em um silêncio ensurdecedor.  - Enterrei? - Solto um riso irônico inasalado – Eu enterrei dois caixões vazios. - O corrijo grosseiramente. - Enterrei madeira, porque ainda não achamos o corpo deles. - Levanto sentindo o meu corpo tremer, estou à beira de uma crise de nervos. - O corpo deles! Sumiram com o corpo da minha família! - Grito, sentido a minha garganta arranhar. Coloco as mãos tremendo na cabeça, pensando em uma maneira de fazer essa dor parar.  Quero que o mundo pare de girar. Quero conseguir respirar, estou sufocando, como se meu rosto estivesse dentro de um saco plástico.   Ele levanta e caminha na minha direção.   - Não posso viver sem eles. Não posso continuar respirando sem a presença deles, eu não tenho forças, pai.” Desabafo.  - Filho. - Nós nos separamos do abraço e ele coloca as mãos no meu rosto. - Eu sei que está difícil. Eu sei. Mas preciso que me conte exatamente o que aconteceu ontem. Por mais que seja difícil, eu preciso saber o que aconteceu com o meu neto e a mãe dele. Porque eu moverei céu e terra para encontra-los.  - Depois que provoquei a Cassandra, sem que eu soubesse, ela e o pai começaram a investigar sobre a Rafaela, do porque ela sumiu. Mas só entre os dois, já que eles sabem o que eu fiz com os outros ratos. Provavelmente ela descobriu, e fazia tempo, pai. Fazia muito tempo! A Rafaela me avisou, mas eu não dei ouvidos. Se eu apenas tivesse parado um segundo para ouvi-la.    UM ANO ATRÁS    A porta abre com força, batendo contra a parede eu salto da cama assustado. Rafaela entra enfurecida com a arma em punho e apontando pra mim. Minha respiração trava, levanto lentamente e continuo na sua mira. Uma mira precisa, nesse instante me arrependo de ter a ensinado tão bem.    -Seja lá o que houve, garanto que você não quer me machucar... Abaixe essa arma - Peço, cautelosamente com as mãos em rendição.  - Fui ao parque com o Enrico, estão me seguindo, Felipe! - Fala entredentes. -Estão seguindo o meu filho.  - Calma! - Peço calmamente me aproximando com as mãos levantadas. - Essa arma está carregada, abaixe antes que você cometa uma desgraça, aí sim, podemos conversar.  - Felipe, estão seguindo meu filho. Meu filho! - Vejo suas mãos tremendo, não duvido dela quando se trata do bem estar do Enrico.  - Você está assim há meses, por favor, abaixe essa arma. Vamos conversar, tá bom? Cadê ele? - Aproximo mais.  - Com a Kim lá embaixo. - Responde se distraindo por alguns segundos. Aproveito e tiro a arma da sua mão rápido o suficiente para não ser disparada. - Você vai sair disso, nós vamos nos mudar, vamos embora daqui!  - Por que você acha que estão te seguindo? - Verifico a arma, vendo que o pente está cheio. Um suor frio se forma na minha testa. Desmonto a arma.  - Eu sei que estão! - Garante, irritada - Eu não acho nada, eu tenho certeza!  - Amor. - Guardo o cartucho no bolso da minha calça de moletom, jogando a arma na cama. - Você está com essas paranoias faz tempo. Eu vou verificar! - Avisei antes dela falar. - E se realmente estiver acontecendo isso, eu vou dar um jeito. Ok? Eu juro. - Eu quero dar uma vida normal ao Enrico, você não quer? - Meu pai cresceu assim, eu cresci assim e ele também vai, é o legado da nossa família, ele irá se acostumar. - Acostumar com o que? A segurar uma arma? Matar? Ser um filha da p**a sangue frio? - É isso que eu sou? - Retruquei confuso e ela dá uma risada cínica. As vezes eu a odeio. - Não. Você é um homem calmo, que trabalha em um escritório, volta cansado pra casa e janta com a sua família. - Você quer uma vida que eu não posso te dar. - Eu quero a segurança do meu filho, estou pouco me fodendo para a vida que você não pode dar.    DIAS ATUAIS    - E ela nunca descreveu? Carro, pessoa, lugar, não sei, alguma informação que possa ser útil? - Enrico coça a nuca e eu n**o com a cabeça.  - Eu nunca dei a oportunidade pra ela falar, pai. Preferi achar que ela estava louca do que enxergar o quanto ela estava infeliz e assustada. Eu fui péssimo. - E depois? - Pergunta e indica o sofá, para que eu me sentasse. - Ontem o Kaue chegou na mansão, e perguntou o que eu queria com tanta emergência, porém não o chamei, ele é o segurança da Rafaela, jamais a deixaria sem ninguém. Percebi que algo errado estava acontecendo e fui pra casa, quando cheguei lá, tinha sangue pra todo lado.- Revivo o momento e sinto meus olhos arderem. Tremo em nervoso. - Os móveis quebrados, tudo no chão e sinais de luta, tiros na parede, rastro de sangue como se tivessem arrastado o corpo como um animal. - Você tem certeza de que eles estão mortos, filho? - Kim ligou para o Kaue, fugiu quando viu a Rafaela sendo morta. Não quer dizer onde está, mas achou que eu deveria saber, aposto que ela não consegue nem dizer isso pra mim de tanta raiva que sente. - Vamos achar essa Kim. Ela é a única maneira de descobrir o que aconteceu naquela casa. E a Cassandra, porque desconfia deles? - Eles sumiram. No escritório do pai dela achei diversas fotos da Rafaela, no dia do parque, na porta de casa, em todos os lugares possíveis. Era verdade, pai. Estavam seguindo ela e eu não fazia ideia, todas as provas estavam embaixo do meu nariz. - Quando se dá uma faísca de esperança aos mais fracos, eles conseguem fazer isso virar uma fogueira, filho. Desde quando quase conseguiram te matar, todos ganharam essa faísca, é só questão de tempo para começar a queimar. - O que eu faço? - Dou os ombros, perdido. - Saia de lá. - A voz feminina entra na conversa e vejo minha mãe caminhando elegante pela sala, os olhos vermelhos, rosto caído e completamente desanimada. - Não é óbvio pra você? Na verdade, pra vocês? Acabou! Esse lugar está caindo aos pedaços. - Victoria. - Meu pai chama a atenção e ela coloca as mãos na cintura nervosa.  - O que foi, Enrico? Estou mentindo? Acabamos de perder o nosso único neto e a garota que cuidamos como filha nesses últimos três anos, o que você quer? Perder o seu único filho também? - Eu não vou sair de lá. - Aviso encostando as costas no sofá, estou exausto. - Eu não sai quando ela pediu, quando realmente precisou, não vai ser agora. Eu não tenho nada há perder.  - Mas eu tenho! - Seu tom de voz aumentou, ele nunca aumenta.. É até uma surpresa ouvir como sua voz engrossa. - Esqueça isso! Fechem as portas, mude de País, temos dinheiro o suficiente para....- seus olhos marejam novamente.  - Para as próximas gerações serem ricos. - Completo a frase e ela limpa delicadamente a lágrima que escorre pela bochecha. Nunca a vi tão quebrada - Adivinha, mãe... Os Campelos não vão ter outra geração. - Você achar a pessoa que fez isso, não vai trazê-los de volta. Agora se você sair disso, pode ser que você honre a memória deles. - Finaliza, saindo da sala enquanto chora baixinho.   
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