Capítulo 1 — A Ruiva que Fugiu
O relógio da cozinha marcava 3h47 quando Melissa abriu os olhos. O colchão fino rangeu sob seu corpo magro, e ela conteve a respiração, ouvindo os passos pesados do andar de cima. A casa dormia. A família dormia. Era a única hora em que a casa inteira — e a sua dor — parecia pausar.
Ela se levantou devagar, os pés descalços no piso frio, e foi até a janela. Lá fora, a madrugada era um véu escuro sobre a cidade pequena. Dezessete anos. Dezessete anos de uma vida que nunca foi dela. Melissa passou a mão nos próprios cabelos ruivos, soltos e ondulados, um fogo que contrastava com a palidez do rosto. Os olhos cor de mel brilharam úmidos no escuro.
A família adotiva a pegou quando ela era só uma criança, quando ainda acreditava que ali encontraria um lar. Depois veio a menina — a filha de verdade — e Melissa virou sombra. Empregada da casa. A que apanhava. A que não tinha direito a nada, nem ao próprio nome dito com carinho.
No bolso do casaco surrado, o celular antigo vibrou. Uma mensagem. Ela leu com o coração disparado: "Tô aqui. Vem, Mel. A gente te espera."
Era Duda. A única pessoa no mundo que sabia de tudo.
Melissa pegou a mochila que havia escondido sob a cama — três mudas de roupa, uma foto amarelada da mãe biológica, e um caderno onde escrevia os sonhos que ninguém deixava ela ter. Desceu as escadas sem fazer barulho, passou pela porta dos fundos e sentiu o ar frio da noite no rosto.
Não olhou para trás. Não havia nada para olhar.
No portão, hesitou por um segundo. O medo apertou seu peito — o medo de ser encontrada, de ser devolvida, de nunca ser livre. Mas o medo de ficar era maior. Muito maior.
Ela empurrou o portão e correu para a estrada, onde um caminhoneiro amigo de Duda a esperava com o motor ligado. O primeiro passo de uma fuga que mudaria tudo.