Gean:
— Bom dia, mãe — chego na cozinha e beijo seu rosto.
— Bom dia, meu amor. Tudo bem?
— Não, mas vamos sobreviver. E a senhora?
— O que houve?
— Cansado… só isso — arrumo meu café e como devagar.
— Mas você dormiu cedo ontem — diz pensativa.
— Estou cansado dessa vida, mãe, não consigo ter mais do que o mínimo. Meu tio me chamou para ajudar na casa da madame, mas o cachorro se soltou, pulou nela e depois na piscina, então meu tio preferiu que eu não fosse mais, não quer perder o emprego. As coisas só dão errado.
— Você vai conseguir, meu filho, tem a vida toda para isso, só não arrumar filho cedo, que o resto você conquista.
— Estou com 25 anos, mãe, já era para eu ter evoluído pelo menos um pouco. Trabalho desde novo e não mudei nada em casa, na nossa vida… vivemos sempre com pouco ou com nada.
— Não podemos ser ingratos, recebemos muita ajuda.
— A senhora não se cansa disso?
— O quê? — Questiona confusa.
— De sempre receber ajuda, de sempre precisar dos outros, de sempre ter pouco?
— É chato, mas é melhor que não ter nada.
Bufo…
Lavo meu copo e prato, deixo tudo em cima da pia, depois vou para o banheiro, escovo os dentes e saio dali sem rumo. Queria pensar e achar a solução dos meus problemas.
Ando por aí sem destino, quando percebo, estou na parte rica da cidade, fico olhando as casas e penso: “Minha mãe merece uma dessas e por que eu não poderia dar a ela?”.
Perco minutos admirando as casas e mansões, até que a chuva cai e eu resolvo voltar pelo mesmo lugar de onde vim, mas vejo uma mulher correndo na chuva, então corro para ajudá-la.
Ajudo e descubro quem é. Conversamos sobre algumas coisas, até eu decidir que não devia estar ali. Maria Helena era uma mulher rica, eu não devia fazê-la perder seu tempo comigo, um mero mortal.
Dias passaram e eu continuei colocando currículo, até que vi um anúncio suspeito sobre um trabalho. Era suspeito, pois não tinha muitas informações, mas eu iria arriscar, precisava de uma saída e mesmo se fosse para vender órgãos, seria essa.
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Helena:
Hoje já era quinta e tudo que a Zoe fazia me mostrava o esboço ou o projeto já pronto.
Agora estávamos no galpão, a equipe contratada estava terminando de organizar o que pedi.
Entro no local, estava todo dividido, pintado, parecia uma empresa e um hospital no mesmo lugar, estava muito bonito.
— Está lindo — falo, tocando as maçanetas.
— Que bom que gostou, senhora. Dei algumas dicas, mas eles superaram meus conselhos.
— Obrigada por escolher uma boa equipe.
— Nada, senhora — ela sorri feliz.
— Quando começam às entrevistas?
— Amanhã bem cedo.
— Ótimo. E sobre a pequena recepção que iremos fazer, está programando?
— Sim, só que pelo excesso de trabalho, vou demorar um pouquinho para terminar.
— Tudo bem. Continue me avisando sobre as escolhas, comentários e tudo mais que for necessário.
— Sim, senhora.
Vou para a empresa e trabalho mais um pouco, até que dá o horário e vou para casa.
Abro a porta e olho a sala vazia, sentia o clima pesado e o local gelado.
Fecho a porta, tranco, vou tirando a roupa e espalhando pelo chão da casa, vou até o quarto e pego uma coberta, retorno para a sala e ponho a coberta em cima do sofá. Logo após, vou até a cozinha, pego uma taça e uma garrafa de vinho, vou para o sofá, me sento no mesmo, despejo o líquido da garrafa na taça, bebo devagar e me cubro.
No fim, era sempre assim, eu sozinha, tendo tudo e ainda não tendo nada.
__________ Dia seguinte __________
Manhã seguinte, acordo com meu celular tocando sem pausa, abro os olhos só para desligar o alarme, mas era uma ligação da Zoe, então tinha que atender.
Ligação:
— Bom dia.
— Bom dia, senhora. Esqueceu das entrevistas de hoje?
— Já está na hora?
— Está passando da hora, alguns rapazes estão impacientes.
— Comece sem mim. Faz a primeira seleção, as perguntas são sobre drogas lícitas e ilícitas. Se eu não chegar a tempo, a segunda seleção será sobre remédios, anabolizantes e vícios de qualquer tipo.
— Quem for desclassificado, o que faremos?
— Tem mais alguém aí com você?
— Sim, chamei os médicos que me solicitou.
— Ok. Os desclassificados, você paga o que foi combinado e manda para casa. Tem seguranças aí?
— Sim.
— Certo. Vou me arrumar e logo chego.
Ligação:
Levanto do sofá correndo, mas logo uma vertigem e a dor de cabeça vêm em cheio, paro e respiro, logo ando mais devagar.
Vou direto tomar um banho gelado para acordar, depois escovo os dentes, ao terminar me seco e procuro uma roupa social em meu guarda-roupa.
Não acho nada na pressa, então pego um vestido justo e decotado de cor azul-escuro que achei de primeira, coloquei uma lingerie, pus o vestido, calcei um Scarpin preto. Passei uma base no rosto, um rímel nos cílios e um batom vermelho, só para tirar a cara de acabada que eu estava e não demonstrar minha ressaca.
Ao terminar tudo, saio de casa quase correndo, não queria nem passar na cozinha para perder mais alguns minutos, mesmo que o cheiro que vinha de lá me chamasse sem demora.
Entro no carro e dirijo até o local, em minutos chego, saio do carro, tranco o mesmo e adentro o recinto, dando de cara com uma fila de homens sendo avaliados, estavam medindo a altura, peso e tipo sanguíneo.
— Bom dia! — falo para todos.
— Bom dia — respondem em uníssono.
— Meninos, essa aqui é a Maria Helena Farzar, ela é uma grande empresária e está dando essa grande oportunidade para um de vocês.
Um deles levanta a mão.
— Diga — falo, encarando bem seu rosto.
— E qual é essa grande oportunidade? Nos fizeram inúmeras perguntas, mas até agora não disseram para qual vaga estamos concorrendo e nem o que faremos.
— Bom, já peço desculpas por não dar muita informação, mas é um assunto confidencial. Saibam que não iremos pegar essas informações para uso impróprio e muito menos dispensaremos vocês de mãos vazias. Direi tudo que querem saber, quando a seleção ficar em menos de 5 pessoas.
Eles concordam relutantemente e continuam as perguntas, análises, testes.
Até que sobram 3 homens e um deles eu conhecia e lembrava muito bem do dia chuvoso, ainda mais do dia em que o cachorro pulou na minha piscina, após ter pulado em mim.