antes do preço
Leandra acordou com uma gota de água caindo em sua testa.
Por alguns segundos, permaneceu imóvel, olhando para a mancha escura no teto. Lá fora, a chuva ainda batia nas telhas, embora já fosse quase seis da manhã.
Outra gota caiu.
Ela se sentou no colchão e afastou os cachos compridos do rosto. Ao seu lado, Elisa dormia encolhida, abraçada a uma boneca sem um dos braços. Leandra puxou o cobertor até os ombros da irmã e procurou, no escuro, a bacia que havia deixado debaixo da cama.
Era a terceira goteira naquela semana.
Colocou a bacia no chão, mudou o travesseiro de lugar e se levantou com cuidado para não pisar na mão de Miguel, que dormia em um colchão estendido entre as duas camas. Do outro lado do quarto, Nina estava deitada junto de Cecília.
Cinco pessoas dividindo um cômodo que m*l comportava os móveis.
Leandra já havia se acostumado a passar de lado entre a cama e a parede. O que ainda a incomodava era nunca poder fechar uma porta e ficar sozinha.
Na cozinha, encontrou a mãe diante do fogão.
Lúcia usava o mesmo vestido do dia anterior e mexia uma panela pequena. Havia uma toalha dobrada no chão, junto à porta dos fundos, para impedir que a água da chuva entrasse.
— Já acordou? — perguntou, olhando para a filha.
— Está pingando na cama.
— Seu pai vai olhar isso quando parar de chover.
Leandra não respondeu. O pai prometia consertar o telhado desde o último verão. Sempre aparecia alguma coisa mais urgente: comida, remédio, conta de luz.
Na mesa, havia quatro pães e uma faca. Ela olhou para os pães. Depois, para a mãe.
— Vou cortar — disse.
Pegou a faca e dividiu cada um ao meio. Eram nove pessoas naquela casa.
— Seu pai já tomou café — explicou Lúcia, como se tivesse entendido a conta que a filha fazia. — Saiu cedo para procurar serviço.
— Com essa chuva?
— O dono da obra disse que talvez precisasse de alguém para descarregar material.
Leandra cortou uma das metades novamente.
— E a senhora?
— Eu como depois.
A filha conhecia aquela resposta. Colocou um pedaço no prato da mãe.
— Come agora.
Lúcia olhou para ela, mas não discutiu. Estava cansada demais.
Leandra serviu café em duas canecas. O cheiro era fraco; a mãe reaproveitara o pó do dia anterior.
— Dona Rosa pediu para você ir hoje? — perguntou Lúcia.
— Pediu. Tem encomenda na padaria.
— Veja se ela consegue adiantar alguma coisa.
Leandra segurou a caneca com as duas mãos.
— Ela adiantou semana passada.
— Eu sei, filha. Mas o gás está acabando.
Antes que pudesse responder, ouviram uma batida forte na porta.
Não era o pai. Ele tinha chave.
Lúcia ficou imóvel.
A segunda batida veio acompanhada de uma voz:
— Gael! Eu sei que você está aí!
Leandra deixou a caneca sobre a mesa. No quarto dos rapazes, alguma coisa caiu no chão.
Gael apareceu pouco depois, vestindo uma camiseta amarrotada. Aos vinte e quatro anos, era o mais velho dos sete filhos. Tinha o lábio cortado e uma mancha roxa perto do olho.
— Não abre — disse à mãe.
— Quem é? — perguntou Lúcia.
— Ninguém.
O homem bateu de novo.
— Você disse que pagava ontem!
Leandra olhou para o irmão.
— Gael...
— Fica quieta.
Ele passou por ela e abriu a porta apenas o suficiente para sair. Ainda assim, Leandra conseguiu ver o homem do outro lado: um sujeito de jaqueta molhada, com o rosto fechado.
A conversa começou baixa e rapidamente se tornou uma discussão.
No corredor, Tomás apareceu esfregando os olhos. Aos vinte e um anos, trabalhava quando conseguia uma diária no mercado. Cecília, de vinte, costurava para uma mulher que pagava pouco e demorava a entregar o dinheiro. Depois deles vinha leandra, de dezoito. Nina tinha treze, Miguel nove e Elisa apenas cinco.
Gael voltou alguns minutos depois. Bateu a porta e ficou parado perto do fogão.
— Preciso de dinheiro.
Lúcia soltou uma risada curta, sem humor.
— Você está vendo dinheiro aqui?
— Não começa, mãe.
— O que você fez dessa vez?
— Eu disse para não começar.
Leandra viu Elisa surgir no corredor, abraçada à boneca. A menina parou ao ouvir a voz do irmão.
— Volta para o quarto, Lisinha — pediu leandra.
— Eu tô com fome.
— Já vou levar seu pão.
Gael acompanhou a conversa com impaciência.
— Tem algum dinheiro guardado?
— Não — respondeu Lúcia.
Mas os olhos dele foram até a lata sobre a geladeira. Leandra se moveu antes que ele a alcançasse.
— Esse é para a conta de luz.
— Eu devolvo.
— Você falou isso da outra vez.
Gael virou o rosto para ela.
— Vai querer mandar em mim agora?
Leandra sentiu o coração acelerar. Mesmo assim, permaneceu diante da geladeira.
— Se cortarem a luz, o que a gente faz?
— Sai da frente.
— Gael — Tomás interveio. — Deixa isso aí.
Por um momento, os três ficaram em silêncio.
Então Gael empurrou a cadeira com o pé, fazendo Elisa se assustar.
— Nessa casa ninguém ajuda ninguém.
Pegou a jaqueta pendurada atrás da porta e saiu.
Leandra esperou até ouvir o portão bater. Só então percebeu que apertava tanto a borda da mesa que seus dedos doíam.
Lúcia sentou-se.
O pedaço de pão continuava intocado em seu prato.
Naquela mesma manhã, Maximiliano foi acordado por três batidas discretas na porta de sua suíte.
— Senhor Maximiliano? Seu café está servido.
Ele abriu os olhos e olhou para o relógio.
Sete e meia.
— Já estou indo.
A chuva escorria pelas grandes janelas, sem alcançar o piso de madeira. O quarto estava na temperatura que ele escolhera na noite anterior. Sobre uma poltrona, alguém havia deixado o terno azul-escuro que usaria naquele dia.
Maximiliano se levantou e caminhou até o banheiro.
Aos vinte e sete anos, sua rotina dependia de horários definidos, reuniões breves e pessoas que soubessem cumprir suas funções. Detestava esperar e tinha ainda menos paciência quando precisava repetir uma ordem.
Na sala de jantar, encontrou frutas cortadas, ovos, pães ainda quentes e café recém-passado.
Sentou-se enquanto verificava as mensagens no celular.
Havia uma do diretor financeiro, duas de seu assistente e uma ligação perdida de tia Amélia.
Esta ele abriu primeiro. A mensagem havia sido enviada às seis e quarenta.
“Não se preocupe comigo. Só queria ouvir sua voz. Quando puder, ligue."
Maximiliano deixou o celular sobre a mesa.
— O café não está bom, senhor? — perguntou a funcionária, ao perceber que ele não tocara na xícara.
— Está. Pode me deixar sozinho.
Ele esperou que ela saísse e ligou para a tia.
Amélia atendeu depois de algumas chamadas.
— Meu menino.
A voz estava mais fraca.
— A senhora ligou cedo.
— Acordei e perdi o sono.
— Está sentindo alguma coisa?
— Só um pouco de cansaço.
— A enfermeira está aí?
— Está na cozinha. Não precisa interrogá-la.
Ele teria insistido com qualquer outra pessoa. Com a tia, permaneceu quieto.
Amélia cuidara dele durante a infância e boa parte da adolescência. Era ela quem o buscava no colégio quando os pais estavam em reuniões, quem percebia quando ele estava doente e quem esperava acordada quando ele demorava a voltar.
Nos últimos meses, porém, as visitas haviam se transformado em telefonemas rápidos. Sempre havia uma viagem, um contrato, uma decisão que não podia ser adiada.
— Vou visitá-la — disse.
Do outro lado, ouviu uma pequena pausa.
— Quando?
Maximiliano olhou para a agenda aberta no tablet.
— Amanhã.
— Você tem certeza de que pode?
— Tenho.
— Vou gostar muito.
Quando a ligação terminou, ele telefonou para o assistente.
— Cancele meus compromissos de amanhã e organize o carro. Vou para a casa da minha tia.
— A reunião com os investidores também?
— Também.
Desligou e finalmente pegou a xícara. O café havia esfriado. Chamou a funcionária e pediu outro.
Na padaria, Leandra passou a manhã entre o balcão e a pia dos fundos.
Dona Rosa havia recebido uma encomenda de salgados para um aniversário. Enquanto a dona cuidava dos recheios, Leandra lavava assadeiras, atendia clientes e limpava as mesas.
Às onze, suas costas já doíam.
O tênis estava úmido desde a caminhada até ali, e a costura lateral começara a abrir. Quando conseguia alguns segundos de descanso, mudava o peso de um pé para o outro.
— Leandra, entrega isso para a mulher da mesa três.
Ela pegou o prato com dois pedaços de bolo.
A cliente conversava ao telefone, reclamando porque a manicure desmarcara seu horário.
Leandra colocou o prato na mesa.
— Quer mais alguma coisa?
A mulher fez um gesto negativo sem olhar para ela.
Ao voltar para os fundos, encontrou dona Rosa separando alguns pães.
— Pode levar esses para casa. São de ontem, mas ainda estão bons.
O rosto de Leandra se iluminou.
— Obrigada.
A mulher amarrou a sacola e a deixou perto da porta.
Leandra hesitou antes de voltar à pia.
— Dona Rosa...
— Diga.
— Será que a senhora consegue adiantar um pouco do pagamento?
A dona da padaria suspirou.
Leandra baixou os olhos.
— Eu sei que já pedi. É que...
— Quanto?
Ela disse o valor necessário para completar a conta de luz.
Dona Rosa ficou em silêncio por alguns instantes.
— Posso adiantar metade. O restante preciso para pagar o fornecedor.
— Já ajuda.
Quando recebeu o dinheiro, Leandra guardou as notas no bolso da calça e fechou o zíper. Conferiu duas vezes se estava bem fechado.
Maximiliano passou a tarde em seu escritório, no último andar do prédio da empresa.
Durante uma reunião, um dos gerentes tentou explicar o atraso de uma entrega.
— Tivemos um problema com a transportadora...
— Há quanto tempo você sabe disso?
— Desde segunda-feira.
— Hoje é quinta.
O homem ajeitou os papéis diante de si.
— Estávamos tentando resolver antes de...
— Antes de me avisar.
Maximiliano fechou a pasta. Não levantou a voz. Não precisava.
— Quero uma solução até o fim do dia.
A reunião terminou pouco depois. Assim que ficou sozinho, ele chamou o assistente.
— Fale com a enfermeira da minha tia. Quero saber como ela passou a semana e se precisa de alguma coisa na casa.
— Sim, senhor.
— Sem incomodá-la. Minha tia não gosta de sentir que estão vigiando cada passo dela.
O assistente assentiu e saiu.
Maximiliano voltou ao computador, mas demorou a ler a primeira linha do relatório.
Lembrou-se de Amélia sentada na varanda, esperando por ele nas férias. Sempre havia bolo na mesa e perguntas que seus pais raramente tinham tempo de fazer.
Dessa vez, não levaria o notebook para jantar com ela. Pegou o celular e enviou uma mensagem:
"Chego amanhã à tarde."
A resposta veio alguns minutos depois.
“Vou esperar você."
Quando Leandra voltou para casa, encontrou o pai sentado na cozinha.
A camisa estava molhada nas costas. As mãos, sujas de cimento.
— Conseguiu trabalhar? — perguntou, deixando a sacola de pães na mesa.
— Até a chuva apertar. Disseram para eu voltar amanhã.
Roberto abriu a mão e mostrou algumas notas. Leandra retirou o dinheiro do bolso.
— Dona Rosa adiantou uma parte.
Lúcia juntou as duas quantias e começou a contar. O dinheiro da luz estava quase completo.
Naquela noite, o jantar foi arroz, feijão e ovos divididos entre todos. Gael não apareceu.
Miguel contou que precisava levar cartolina para a escola. Nina disse que seu sapato estava apertando. Cecília prometeu tentar terminar mais duas costuras até o sábado.
Leandra ouviu em silêncio, ajudando Elisa a separar o feijão no prato.
Depois do jantar, lavou a louça e foi ao quarto buscar sua caixinha.
Dentro dela havia quarenta e dois reais, guardados aos poucos para comprar um tênis.
Abriu o zíper do calçado e olhou a lateral descolada. Talvez desse para prender com linha por mais algum tempo.
Levou o dinheiro à mãe.
— Agora dá para pagar.
Lúcia reconheceu as notas dobradas.
— Leandra, esse é o seu...
— Eu sei.
Mais tarde, deitou-se ao lado de Elisa. A chuva havia parado, mas a bacia continuava no chão, recebendo as últimas gotas acumuladas no telhado.
— Leandra? — a menina chamou, sonolenta.
— Oi.
— Quando você comprar uma casa, eu posso morar com você?
Ela olhou para a irmã.
— Pode.
— Uma que não chove dentro?
Leandra acariciou os cabelos de Elisa.
— Uma que não chove dentro.
A menina fechou os olhos, satisfeita com a promessa. Leandra permaneceu acordada.
Na manhã seguinte, precisaria levantar cedo, passar no local de pagamento da conta e chegar à padaria antes de dona Rosa. Também teria de lembrar da cartolina de Miguel.
Em outra cidade, Maximiliano acabava de fechar uma mala que alguém havia preparado para ele.
Conferiu o horário da viagem e apagou a luz.
Leandra, antes de dormir, estendeu a mão para fora da cama e mudou a bacia alguns centímetros de lugar.
A água estava caindo no chão outra vez.