a visita

2245 Words
naquele dia. O celular de Maximiliano vibrou quando ele atravessava o saguão do aeroporto. Ele olhou para a tela sem diminuir o passo. “Você sumiu. Vamos jantar quando voltar?" Antes que bloqueasse o aparelho, outra mensagem apareceu, enviada por uma mulher diferente. “Ainda estou esperando você me dizer quando vai ter tempo para mim." Maximiliano guardou o celular no bolso. — Duas mensagens e essa cara de quem recebeu cobrança de imposto — comentou Eric, caminhando ao seu lado. — Não é nada importante. — Para você. Maximiliano lançou um olhar ao amigo. Eric sorriu e ajeitou a alça da pequena bolsa de viagem no ombro. Os dois se conheciam desde a faculdade. Eric era uma das poucas pessoas que conseguiam provocar Maximiliano sem serem afastadas de sua companhia. Talvez porque soubesse reconhecer o momento de parar. Ou porque, apesar das brincadeiras, aparecia sempre que o amigo precisava. Naquela manhã, havia se apresentado no aeroporto com uma passagem comprada e um café na mão. — Eu ainda não entendi por que você veio — disse Maximiliano. — Sua tia gosta de mim. — Ela gosta de todo mundo. — De mim um pouco mais. É uma mulher de bom gosto. Chegaram à área de embarque, e Eric se sentou enquanto Maximiliano conferia uma mensagem do assistente. O carro estaria esperando por eles no aeroporto de destino. Dali, seguiriam por pouco mais de uma hora até Santa Cecília. O celular vibrou novamente. Dessa vez, uma ligação. Maximiliano recusou. — Você avisou a alguma delas que ia viajar? — Não tenho por que avisar. — Considerando que nenhuma é sua namorada, tudo bem. Mas você poderia responder. — Quando eu tiver vontade. — É esse seu charme que me preocupa. Maximiliano guardou o aparelho e olhou para o painel de voos. Eric acompanhou seu olhar. O sorriso diminuiu. — Falou com sua tia hoje? — não. só Com a enfermeira. — E? Maximiliano demorou um instante antes de responder. — Ela passou a noite com dor. Dormiu pouco. — Vai ser bom ela ver você. Maximiliano assentiu, mas continuou olhando para o painel. Havia adiado aquela viagem duas vezes no último mês. Na primeira, um problema na empresa. Na segunda, uma negociação que exigira sua presença. Agora, a lembrança dessas justificativas lhe causava um incômodo que não conseguia afastar. Quando anunciaram o embarque, foi o primeiro dos dois a se levantar. enquanto isso, Uma das alças da sacola estava cortando os dedos de Leandra. Ela parou diante de um muro, apoiou as compras por alguns segundos e trocou as sacolas de mão. Dona Amélia havia pedido frutas, leite, pão, alguns legumes e biscoitos simples. Na mercearia, Leandra conferira os preços de tudo antes de chegar ao caixa. Embora o dinheiro não fosse seu, não gostava de gastar sem necessidade. Seguiu pela rua que levava à parte mais antiga de Santa Cecília. O sol já havia secado boa parte da chuva da véspera, mas ainda existiam poças perto das calçadas. Leandra desviou de uma delas para não molhar o tênis costurado às pressas naquela manhã. A casa de dona Amélia ficava atrás de um portão branco, cercada por roseiras e duas árvores que faziam sombra sobre a varanda. Leandra sempre gostara daquele lugar. Quando era menor, passava diante do portão com os irmãos e diminuía o passo para olhar as flores. Amélia, quando estava na varanda, chamava as crianças e distribuía frutas do quintal. Com o tempo, os encontros se tornaram conversas. Mais tarde, Leandra começou a ajudá-la com pequenas compras e tarefas que haviam ficado difíceis depois que a doença avançara. Apertou a campainha com o cotovelo. Vera, a enfermeira, abriu o portão. — Trouxe tudo isso sozinha? — Não estava tão pesado — respondeu Leandra, embora seus dedos estivessem vermelhos. Vera pegou duas sacolas. — Ela está esperando você. Na sala, Amélia estava sentada em uma poltrona perto da janela, com uma manta leve cobrindo as pernas. Havia emagrecido desde a última visita. O rosto parecia menor, e a mão apoiada sobre o braço da poltrona deixava os ossos mais aparentes. Mesmo assim, sorriu ao ver Leandra. — Minha menina. Leandra se aproximou e beijou sua testa. — Bom dia, dona Amélia. Como a senhora está? — Melhor agora. — A senhora diz isso para me agradar. — E você acha que eu desperdiçaria minhas forças inventando gentileza? Leandra riu baixinho. Deixou a bolsa sobre uma cadeira e foi até a cozinha ajudar Vera a guardar as compras. Separou as frutas, colocou o leite na geladeira e deixou o pão em uma cesta, coberto por um pano limpo. Quando voltou à sala, Amélia indicou o sofá. — Sente um pouco. — Preciso ir para a padaria daqui a pouco. — Só alguns minutos. Rosa não vai brigar por causa de uma velha. — A senhora não é uma velha qualquer. — Isso significa que sou uma velha importante? — Muito importante. Amélia sorriu, satisfeita. Leandra se sentou, e a mulher estendeu a mão para ela. Ao segurá-la, percebeu como estava fria. — E sua mãe? — perguntou Amélia. — Está bem. Mandou um beijo. — Seu pai conseguiu serviço? — Trabalhou um pouco ontem. Hoje foi de novo. Amélia observou o rosto da jovem. — E você? Está dormindo? Está comendo direito? — Estou, sim. Amélia acariciou seus dedos, sem insistir. — Gosto muito de você, Leandra. A jovem voltou a encará-la. — Eu também gosto muito da senhora. — Não estou dizendo só porque você faz minhas compras. Gosto da sua companhia. Você entra aqui e me conta alguma coisa da rua, dos seus irmãos, da padaria... Por alguns minutos, eu esqueço que passei a manhã esperando a hora do próximo remédio. — A senhora vai melhorar. Amélia olhou para as mãos unidas. — Hoje eu só quero ter forças para receber uma visita. — Quem vem? O sorriso reapareceu, mais delicado. — Meu sobrinho. — Aquele que a senhora criou? — Maximiliano. Ele chega hoje. Leandra se lembrou das fotografias sobre o aparador. Em uma delas, um menino sério estava sentado ao lado de Amélia, segurando um troféu de escola. Em outra, já adolescente, aparecia com o braço em torno dos ombros dela. — A senhora deve estar feliz. — Estou. Faz tempo que não o abraço. Amélia acomodou melhor a manta sobre as pernas. — A vida dele é muito ocupada. Às vezes, acho que continua esperando que eu telefone para lembrá-lo de parar um pouco. — Então hoje a senhora faz ele descansar. — Vou tentar. Ele sempre foi teimoso. Vera surgiu no corredor com um copo de água e os medicamentos. Leandra se levantou. — Vou deixar a senhora descansar antes de ele chegar. Amélia apertou sua mão antes de soltá-la. — Você volta outro dia? — Volto. — Promete? Leandra inclinou-se para beijá-la novamente. — Prometo. Na cozinha, Vera lhe entregou um pequeno envelope. — Ela separou para você. Leandra olhou o dinheiro dentro. — Mas ela já me deu o das compras. O troco está ali. — Isso é pelo seu trabalho. — Eu só trouxe umas sacolas... — Leandra — chamou Amélia da sala. A jovem voltou até a porta. — Sim? — Leve. E não gaste tudo com os outros. Leandra tentou sorrir, mas os olhos ficaram úmidos. — Obrigada, dona Amélia. Amélia assentiu, como se o assunto estivesse encerrado. Leandra guardou o envelope e saiu. No portão, olhou uma última vez para a varanda. Gostaria de ter visto a mulher ali, regando as plantas como antes. O carro entrou em Santa Cecília pouco depois do meio-dia. Eric abaixou um pouco o vidro e observou a praça, a igreja e os estabelecimentos dos dois lados da rua principal. — Então é aqui que você passava as férias. — Algumas. — Sua tia tinha coragem de cuidar de você por meses? — Eu era uma criança tranquila. — Vou perguntar a ela. O motorista reduziu a velocidade ao se aproximar de um cruzamento. Na porta de uma oficina, dois homens interromperam a conversa para acompanhar o carro com os olhos. Mais adiante, uma mulher que saía da farmácia parou junto à calçada. O veículo preto, grande e de vidros escuros destoava dos carros estacionados na rua. Eric percebeu primeiro. — Estamos chamando atenção. — Você está com o vidro aberto, olhando para todo mundo. — Estou sendo simpático. Um menino sentado diante de uma loja levantou a mão. Eric retribuiu o cumprimento. Maximiliano balançou a cabeça. — Daqui a pouco você desce para tirar fotografia. — Se pedirem com educação... Pararam diante de uma pequena padaria para que o motorista confirmasse a rua da casa de Amélia. Eric aproveitou para descer e comprar uma garrafa de água. Assim que fechou a porta, duas mulheres que conversavam perto da entrada ficaram em silêncio. Um senhor no balcão olhou para o carro e depois para ele. — Boa tarde — cumprimentou Eric. — Boa tarde — respondeu dona Rosa. Enquanto ela pegava a água, o senhor perguntou: — Vocês estão de passagem? — Vamos visitar dona Amélia. — Ah... — A expressão de dona Rosa mudou. Ela olhou através da vitrine. — O sobrinho dela está aí? — Está no carro. A mulher se aproximou um pouco da porta. Maximiliano, percebendo os olhares, fez um breve cumprimento com a cabeça. — Ela estava esperando por ele — disse dona Rosa. — Vai ficar feliz. Eric pagou a água. — É o que esperamos. Quando voltou ao carro, sorriu para o amigo. — Você é famoso. — Eric. — A dona da padaria conhece sua tia. O homem do balcão também. Acho que até a água conhece sua tia. — Vamos. Naquela hora, Leandra estava na cozinha da padaria, com as mãos cobertas de farinha, ajudando a separar uma nova encomenda. Ouviu vozes no balcão e o comentário de uma funcionária sobre um carro bonito. Continuou trabalhando. Quando o portão branco apareceu, Damião se inclinou ligeiramente para a frente. A casa parecia menor do que em suas lembranças. As árvores haviam crescido. Uma das roseiras estava presa a uma estaca, e o banco onde costumava se sentar com a tia tinha sido pintado de novo. Ele desceu antes que o motorista viesse abrir a porta. Vera o recebeu na varanda. — Senhor Maximiliano? — Como ela está? A enfermeira olhou brevemente para Eric, que havia parado ao lado dele. — Acordada. Ficou esperando. — Ela consegue se levantar? — Com ajuda, por pouco tempo. Hoje está mais cansada. Maximiliano assentiu. Atravessou a porta, e o cheiro familiar da casa o alcançou antes de ver a tia. Sabão, madeira antiga e alguma coisa assando na cozinha. — Tia? Amélia virou o rosto. O sorriso que abriu fez com que ele esquecesse, por um instante, tudo o que Vera acabara de dizer. — Máxi. Ele se aproximou e se ajoelhou junto à poltrona. Amélia levou as mãos ao rosto dele. — Deixa eu olhar você. Maximiliano tentou sorrir. Mas, perto dela, não conseguia ignorar a diferença entre a mulher que guardava na memória e aquela que estava diante dele. A tia que subia escadas com sacolas nos braços agora parecia cansada apenas por erguer as mãos. — Eu devia ter vindo antes — disse. Amélia passou os dedos pela bochecha dele. — Você veio. Ele a abraçou com cuidado. Sentiu os ombros estreitos sob o tecido da blusa. Amélia apoiou o rosto nele, e Maximiliano permaneceu assim por alguns segundos além do habitual. Quando se afastou, ela tinha os olhos molhados. — Trouxe companhia — disse ele. Eric se aproximou com um sorriso gentil. — Vim conferir se a senhora ainda gosta mais de mim. Amélia soltou uma pequena risada. — Continua convencido. — É bom saber que a memória está excelente. Ele se inclinou para beijar seu rosto. — Como a senhora está? — Cercada de homens bonitos. Não posso reclamar. — Finalmente alguém reconhece — respondeu Eric. Maximiliano puxou uma cadeira e se sentou ao lado dela. Amélia quis saber da viagem, se haviam almoçado, onde estavam as malas. Falava devagar, interrompendo algumas frases para recuperar o fôlego. Maximiliano respondeu a tudo, mas observava cada pausa. Quando Vera trouxe água, ele pegou o copo e o entregou à tia. Amélia bebeu um pouco, com as duas mãos. — Pode descansar — disse ele. — Temos tempo para conversar depois. — Acabou de chegar. — E vou continuar aqui quando a senhora acordar. — Não vai sair correndo para uma reunião? — Hoje, não. Amélia pareceu satisfeita. Pouco depois, aceitou a ajuda de Vera para ir ao quarto. Maximiliano acompanhou as duas. Esperou que a tia se deitasse, ajeitou a manta e colocou o copo de água ao alcance dela. Antes que se afastasse, Amélia segurou seu pulso. — Estou feliz que esteja aqui. — Eu também, tia. Na sala, Eric esperava junto à janela. Maximiliano ficou alguns segundos parado perto do corredor. — Ela está muito pior — disse, em voz baixa. Eric assentiu, sem procurar uma resposta fácil. O celular de Maximiliano vibrou no bolso. Ele o retirou. Havia mais uma mensagem de uma das mulheres e duas notificações da empresa. Dessa vez, desligou o aparelho. — Vou ficar alguns dias — disse. — Então ficamos alguns dias. Maximiliano olhou para o amigo, e Eric ergueu levemente os ombros. Era a primeira vez naquela manhã que não esperava resolver o assunto com uma ligação. Queria ficar por perto.
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