naquele dia. O celular de Maximiliano vibrou quando ele atravessava o saguão do aeroporto.
Ele olhou para a tela sem diminuir o passo.
“Você sumiu. Vamos jantar quando voltar?"
Antes que bloqueasse o aparelho, outra mensagem apareceu, enviada por uma mulher diferente.
“Ainda estou esperando você me dizer quando vai ter tempo para mim."
Maximiliano guardou o celular no bolso.
— Duas mensagens e essa cara de quem recebeu cobrança de imposto — comentou Eric, caminhando ao seu lado.
— Não é nada importante.
— Para você.
Maximiliano lançou um olhar ao amigo.
Eric sorriu e ajeitou a alça da pequena bolsa de viagem no ombro.
Os dois se conheciam desde a faculdade. Eric era uma das poucas pessoas que conseguiam provocar Maximiliano sem serem afastadas de sua companhia. Talvez porque soubesse reconhecer o momento de parar. Ou porque, apesar das brincadeiras, aparecia sempre que o amigo precisava.
Naquela manhã, havia se apresentado no aeroporto com uma passagem comprada e um café na mão.
— Eu ainda não entendi por que você veio — disse Maximiliano.
— Sua tia gosta de mim.
— Ela gosta de todo mundo.
— De mim um pouco mais. É uma mulher de bom gosto.
Chegaram à área de embarque, e Eric se sentou enquanto Maximiliano conferia uma mensagem do assistente. O carro estaria esperando por eles no aeroporto de destino. Dali, seguiriam por pouco mais de uma hora até Santa Cecília.
O celular vibrou novamente.
Dessa vez, uma ligação. Maximiliano recusou.
— Você avisou a alguma delas que ia viajar?
— Não tenho por que avisar.
— Considerando que nenhuma é sua namorada, tudo bem. Mas você poderia responder.
— Quando eu tiver vontade.
— É esse seu charme que me preocupa.
Maximiliano guardou o aparelho e olhou para o painel de voos.
Eric acompanhou seu olhar. O sorriso diminuiu.
— Falou com sua tia hoje?
— não. só Com a enfermeira.
— E?
Maximiliano demorou um instante antes de responder.
— Ela passou a noite com dor. Dormiu pouco.
— Vai ser bom ela ver você.
Maximiliano assentiu, mas continuou olhando para o painel.
Havia adiado aquela viagem duas vezes no último mês. Na primeira, um problema na empresa. Na segunda, uma negociação que exigira sua presença.
Agora, a lembrança dessas justificativas lhe causava um incômodo que não conseguia afastar.
Quando anunciaram o embarque, foi o primeiro dos dois a se levantar.
enquanto isso, Uma das alças da sacola estava cortando os dedos de Leandra.
Ela parou diante de um muro, apoiou as compras por alguns segundos e trocou as sacolas de mão. Dona Amélia havia pedido frutas, leite, pão, alguns legumes e biscoitos simples.
Na mercearia, Leandra conferira os preços de tudo antes de chegar ao caixa. Embora o dinheiro não fosse seu, não gostava de gastar sem necessidade.
Seguiu pela rua que levava à parte mais antiga de Santa Cecília.
O sol já havia secado boa parte da chuva da véspera, mas ainda existiam poças perto das calçadas. Leandra desviou de uma delas para não molhar o tênis costurado às pressas naquela manhã.
A casa de dona Amélia ficava atrás de um portão branco, cercada por roseiras e duas árvores que faziam sombra sobre a varanda.
Leandra sempre gostara daquele lugar.
Quando era menor, passava diante do portão com os irmãos e diminuía o passo para olhar as flores. Amélia, quando estava na varanda, chamava as crianças e distribuía frutas do quintal.
Com o tempo, os encontros se tornaram conversas. Mais tarde, Leandra começou a ajudá-la com pequenas compras e tarefas que haviam ficado difíceis depois que a doença avançara.
Apertou a campainha com o cotovelo. Vera, a enfermeira, abriu o portão.
— Trouxe tudo isso sozinha?
— Não estava tão pesado — respondeu Leandra, embora seus dedos estivessem vermelhos.
Vera pegou duas sacolas.
— Ela está esperando você.
Na sala, Amélia estava sentada em uma poltrona perto da janela, com uma manta leve cobrindo as pernas. Havia emagrecido desde a última visita. O rosto parecia menor, e a mão apoiada sobre o braço da poltrona deixava os ossos mais aparentes.
Mesmo assim, sorriu ao ver Leandra.
— Minha menina.
Leandra se aproximou e beijou sua testa.
— Bom dia, dona Amélia. Como a senhora está?
— Melhor agora.
— A senhora diz isso para me agradar.
— E você acha que eu desperdiçaria minhas forças inventando gentileza?
Leandra riu baixinho.
Deixou a bolsa sobre uma cadeira e foi até a cozinha ajudar Vera a guardar as compras. Separou as frutas, colocou o leite na geladeira e deixou o pão em uma cesta, coberto por um pano limpo.
Quando voltou à sala, Amélia indicou o sofá.
— Sente um pouco.
— Preciso ir para a padaria daqui a pouco.
— Só alguns minutos. Rosa não vai brigar por causa de uma velha.
— A senhora não é uma velha qualquer.
— Isso significa que sou uma velha importante?
— Muito importante.
Amélia sorriu, satisfeita.
Leandra se sentou, e a mulher estendeu a mão para ela. Ao segurá-la, percebeu como estava fria.
— E sua mãe? — perguntou Amélia.
— Está bem. Mandou um beijo.
— Seu pai conseguiu serviço?
— Trabalhou um pouco ontem. Hoje foi de novo.
Amélia observou o rosto da jovem.
— E você? Está dormindo? Está comendo direito?
— Estou, sim.
Amélia acariciou seus dedos, sem insistir.
— Gosto muito de você, Leandra.
A jovem voltou a encará-la.
— Eu também gosto muito da senhora.
— Não estou dizendo só porque você faz minhas compras. Gosto da sua companhia. Você entra aqui e me conta alguma coisa da rua, dos seus irmãos, da padaria... Por alguns minutos, eu esqueço que passei a manhã esperando a hora do próximo remédio.
— A senhora vai melhorar.
Amélia olhou para as mãos unidas.
— Hoje eu só quero ter forças para receber uma visita.
— Quem vem?
O sorriso reapareceu, mais delicado.
— Meu sobrinho.
— Aquele que a senhora criou?
— Maximiliano. Ele chega hoje.
Leandra se lembrou das fotografias sobre o aparador. Em uma delas, um menino sério estava sentado ao lado de Amélia, segurando um troféu de escola. Em outra, já adolescente, aparecia com o braço em torno dos ombros dela.
— A senhora deve estar feliz.
— Estou. Faz tempo que não o abraço.
Amélia acomodou melhor a manta sobre as pernas.
— A vida dele é muito ocupada. Às vezes, acho que continua esperando que eu telefone para lembrá-lo de parar um pouco.
— Então hoje a senhora faz ele descansar.
— Vou tentar. Ele sempre foi teimoso.
Vera surgiu no corredor com um copo de água e os medicamentos.
Leandra se levantou.
— Vou deixar a senhora descansar antes de ele chegar.
Amélia apertou sua mão antes de soltá-la.
— Você volta outro dia?
— Volto.
— Promete?
Leandra inclinou-se para beijá-la novamente.
— Prometo.
Na cozinha, Vera lhe entregou um pequeno envelope.
— Ela separou para você.
Leandra olhou o dinheiro dentro.
— Mas ela já me deu o das compras. O troco está ali.
— Isso é pelo seu trabalho.
— Eu só trouxe umas sacolas...
— Leandra — chamou Amélia da sala.
A jovem voltou até a porta.
— Sim?
— Leve. E não gaste tudo com os outros.
Leandra tentou sorrir, mas os olhos ficaram úmidos.
— Obrigada, dona Amélia.
Amélia assentiu, como se o assunto estivesse encerrado.
Leandra guardou o envelope e saiu. No portão, olhou uma última vez para a varanda.
Gostaria de ter visto a mulher ali, regando as plantas como antes.
O carro entrou em Santa Cecília pouco depois do meio-dia.
Eric abaixou um pouco o vidro e observou a praça, a igreja e os estabelecimentos dos dois lados da rua principal.
— Então é aqui que você passava as férias.
— Algumas.
— Sua tia tinha coragem de cuidar de você por meses?
— Eu era uma criança tranquila.
— Vou perguntar a ela.
O motorista reduziu a velocidade ao se aproximar de um cruzamento.
Na porta de uma oficina, dois homens interromperam a conversa para acompanhar o carro com os olhos. Mais adiante, uma mulher que saía da farmácia parou junto à calçada.
O veículo preto, grande e de vidros escuros destoava dos carros estacionados na rua.
Eric percebeu primeiro.
— Estamos chamando atenção.
— Você está com o vidro aberto, olhando para todo mundo.
— Estou sendo simpático.
Um menino sentado diante de uma loja levantou a mão. Eric retribuiu o cumprimento.
Maximiliano balançou a cabeça.
— Daqui a pouco você desce para tirar fotografia.
— Se pedirem com educação...
Pararam diante de uma pequena padaria para que o motorista confirmasse a rua da casa de Amélia.
Eric aproveitou para descer e comprar uma garrafa de água.
Assim que fechou a porta, duas mulheres que conversavam perto da entrada ficaram em silêncio. Um senhor no balcão olhou para o carro e depois para ele.
— Boa tarde — cumprimentou Eric.
— Boa tarde — respondeu dona Rosa.
Enquanto ela pegava a água, o senhor perguntou:
— Vocês estão de passagem?
— Vamos visitar dona Amélia.
— Ah... — A expressão de dona Rosa mudou. Ela olhou através da vitrine. — O sobrinho dela está aí?
— Está no carro.
A mulher se aproximou um pouco da porta.
Maximiliano, percebendo os olhares, fez um breve cumprimento com a cabeça.
— Ela estava esperando por ele — disse dona Rosa. — Vai ficar feliz.
Eric pagou a água.
— É o que esperamos.
Quando voltou ao carro, sorriu para o amigo.
— Você é famoso.
— Eric.
— A dona da padaria conhece sua tia. O homem do balcão também. Acho que até a água conhece sua tia.
— Vamos.
Naquela hora, Leandra estava na cozinha da padaria, com as mãos cobertas de farinha, ajudando a separar uma nova encomenda.
Ouviu vozes no balcão e o comentário de uma funcionária sobre um carro bonito.
Continuou trabalhando.
Quando o portão branco apareceu, Damião se inclinou ligeiramente para a frente.
A casa parecia menor do que em suas lembranças.
As árvores haviam crescido. Uma das roseiras estava presa a uma estaca, e o banco onde costumava se sentar com a tia tinha sido pintado de novo.
Ele desceu antes que o motorista viesse abrir a porta.
Vera o recebeu na varanda.
— Senhor Maximiliano?
— Como ela está?
A enfermeira olhou brevemente para Eric, que havia parado ao lado dele.
— Acordada. Ficou esperando.
— Ela consegue se levantar?
— Com ajuda, por pouco tempo. Hoje está mais cansada.
Maximiliano assentiu.
Atravessou a porta, e o cheiro familiar da casa o alcançou antes de ver a tia. Sabão, madeira antiga e alguma coisa assando na cozinha.
— Tia?
Amélia virou o rosto.
O sorriso que abriu fez com que ele esquecesse, por um instante, tudo o que Vera acabara de dizer.
— Máxi.
Ele se aproximou e se ajoelhou junto à poltrona. Amélia levou as mãos ao rosto dele.
— Deixa eu olhar você.
Maximiliano tentou sorrir.
Mas, perto dela, não conseguia ignorar a diferença entre a mulher que guardava na memória e aquela que estava diante dele.
A tia que subia escadas com sacolas nos braços agora parecia cansada apenas por erguer as mãos.
— Eu devia ter vindo antes — disse.
Amélia passou os dedos pela bochecha dele.
— Você veio.
Ele a abraçou com cuidado.
Sentiu os ombros estreitos sob o tecido da blusa. Amélia apoiou o rosto nele, e Maximiliano permaneceu assim por alguns segundos além do habitual.
Quando se afastou, ela tinha os olhos molhados.
— Trouxe companhia — disse ele.
Eric se aproximou com um sorriso gentil.
— Vim conferir se a senhora ainda gosta mais de mim.
Amélia soltou uma pequena risada.
— Continua convencido.
— É bom saber que a memória está excelente.
Ele se inclinou para beijar seu rosto.
— Como a senhora está?
— Cercada de homens bonitos. Não posso reclamar.
— Finalmente alguém reconhece — respondeu Eric.
Maximiliano puxou uma cadeira e se sentou ao lado dela.
Amélia quis saber da viagem, se haviam almoçado, onde estavam as malas. Falava devagar, interrompendo algumas frases para recuperar o fôlego.
Maximiliano respondeu a tudo, mas observava cada pausa.
Quando Vera trouxe água, ele pegou o copo e o entregou à tia. Amélia bebeu um pouco, com as duas mãos.
— Pode descansar — disse ele. — Temos tempo para conversar depois.
— Acabou de chegar.
— E vou continuar aqui quando a senhora acordar.
— Não vai sair correndo para uma reunião?
— Hoje, não.
Amélia pareceu satisfeita.
Pouco depois, aceitou a ajuda de Vera para ir ao quarto.
Maximiliano acompanhou as duas. Esperou que a tia se deitasse, ajeitou a manta e colocou o copo de água ao alcance dela.
Antes que se afastasse, Amélia segurou seu pulso.
— Estou feliz que esteja aqui.
— Eu também, tia.
Na sala, Eric esperava junto à janela. Maximiliano ficou alguns segundos parado perto do corredor.
— Ela está muito pior — disse, em voz baixa.
Eric assentiu, sem procurar uma resposta fácil.
O celular de Maximiliano vibrou no bolso.
Ele o retirou. Havia mais uma mensagem de uma das mulheres e duas notificações da empresa.
Dessa vez, desligou o aparelho.
— Vou ficar alguns dias — disse.
— Então ficamos alguns dias.
Maximiliano olhou para o amigo, e Eric ergueu levemente os ombros.
Era a primeira vez naquela manhã que não esperava resolver o assunto com uma ligação.
Queria ficar por perto.