HUNTER RETTH NARRANDO
Respirei de forma profunda, vi a fumaça causada pela diferença de temperatura do ambiente com meu corpo sair pela minha boca. Esfreguei as duas mãos por conta do frio. Eu estava sem luvas, observando minha propriedade enquanto o sol se punha.
Entrei em casa, um pouco ansioso, afinal, havia uma mulher desconhecida na minha cama, usando minhas roupas e aparentemente doente ali. Eu não sou o melhor homem pra lidar com uma coisa dessa, mas esse anjo acabou na minha porta, o que eu posso fazer?
Sentei-me no piano que tenho na sala. Não sou um cara da TV, aqui m*l pega, tenho que me divertir com outras coisas. Comecei a dedilhar as teclas enquanto pensava em quem eu sou, no que fiz, no que sinto. Eu estava em paz sozinho – ou ao menos acostumado com a dor e solidão a qual me submeti como castigo.
As minhas mãos tocavam a composição chamada “Silence”. Muitos dizem que é uma obra de Beethoven, mas outras pessoas afirmam que é uma obra de Ernesto Cortázar II. Eu não me importo com quem foi o autor, só sei que é uma melodia fantástica.
Tive que aprender a lidar com o fato dos meus dedos serem quase tão largos quanto as teclas. Sou um cara bruto, assassino, já fiz coisas que acredito que o próprio d***o abomina... Mas sei tocar piano. É a coisa mais doce e bonita que consigo fazer.
Fecho meus olhos, deixando a música invadir minha alma. Às vezes eu acho que quando toco, até mesmo a dor na minha perna melhora. Como se a música pudesse curar minha dor, eu não sei explicar. Mas então, ouvi alguns passos em minha cabana. Era possível que a moça estivesse em pé e andando?
Olhei para trás, e ela estava parada na porta do meu quarto, com os olhos arregalados. As minhas roupas em seu corpo eram como roupas de adulto em uma criança de oito anos. Ela me olhava com medo, e eu entendo o motivo.
Tirei as mãos do piano, e permaneci sentado, apenas olhando para ela.
- Quer que eu chame a polícia? – Eu disse, assim que percebi sua presença. Ela arregalou ainda mais os olhos e veio em minha direção.
- Não, não, por favor! – Pediu, balançando as mãos. – Quem é você?
Eu me levantei, e ela paralisou. Se considerarmos peso e altura, eu sou o dobro dela e mais um pouco. Ela deu um passo para trás, devido ao medo simplesmente por me ver ali.
- Não vou te machucar, Serena. – Eu disse. Ela deu um passo para trás, e eu vi suas mãos tremendo.
- Como sabe meu nome? – Questionou, assustada.
Ela estava vestindo minhas meias e com os pés direto no assoalho de madeira da minha casa. Fiz menção de dar um passo para frente, e isso fez um barulho no chão, comum para minha casa, mas aparentemente assustador para uma pessoa que não está acostumada com isso.
Ela se virou rapidamente para correr para o quarto onde estava, e meteu a cabeça no umbral da porta do meu quarto. Ela cairia no chão se eu não tivesse sido rápido. A segurei, impedindo que ela caísse no chão.
- Você me disse. – Falei, enquanto vagarosamente a colocava em pé. Dei um passo para trás, para dar espaço para ela. Ela gemeu de dor, colocando a mão no rosto, onde bateu.
Eu não gosto de tocá-la. Me faz pensar coisas que eu não devia.
- Eu disse? – Ela falou, com a mão no rosto. – Meu Deus, que dor. – Reclamou.
- Deixa eu ver isso. – Pedi. Ela não deixou, se encolheu e eu girei os olhos, um pouco impaciente. Quando vi algumas gotas de sangue escorrendo pelo chão, peguei o punho dela e puxei sua mão de frente do rosto. – Você não tá podendo sangrar. Eu preciso fazer um curativo nisso. – Afirmei.
Ela ficou assustada com a minha atitude, e assim que soltei sua mão, ela voltou a coloca-la no machucado que estava gotejando sangue.
Fui até o banheiro e trouxe uma caixa com curativos. Ela se encolheu sentando-se no chão, e vi sua mão tremendo mais uma vez. Neguei com a cabeça, mas não disse nada. Apenas me abaixei com os curativos e a olhei nos olhos.
- Tire a mão. – Pedi.
Dessa vez, ela tirou a mão imediatamente e eu vi o machucado. Comecei a limpar, e ela prendia a respiração tentando se controlar para não chorar.
- Aiii... – Disse, baixinho, mordendo o próprio lábio inferior para se controlar.
- Já estou acabando. – Avisei.
Coloquei o curativo e então me levantei, oferecendo a mão para que ela pudesse se levantar. Ela me olhou com desconfiança, mas após fazer uma análise mental e, acredito eu, entender que eu não queria machucá-la, ela decidiu estender a mão e permitir que eu a ajudasse.
Segurei sua mão com cuidado, a ajudando a se erguer. Ela tem os dedos finos e delicados. Olhei para suas mãos por um momento, depois, a soltei.
- Você sabe meu nome... Mas eu não sei o seu. – Ela disse, parecendo insegura nas palavras.
- Hunter. – Falei, sem demora.
Me dirigi até a cozinha e comecei a procurar algumas coisas para fazer o jantar. Ela me olhava de longe, paralisada, sem mover um dedo do lugar onde estava.
- O-o que você quer de mim, Hunter? – Perguntou, com a voz trêmula, enquanto eu mexia nas coisas na cozinha. Eu olhei para ela, bastante sério, como se a pergunta tivesse sido um absurdo...
- Eu? Eu quero que você tome seu rumo e vá embora. Porém, a tempestade de neve acabou com as estradas e com a fraqueza que você está, se botar o nariz pra fora, vai morrer. – Avisei, de forma bastante sucinta.
- E-eu não sei como vim parar aqui. – Disse, como se tentasse lembrar do dia de ontem. Ela dormiu mais de dezesseis horas seguidas depois de se aquecer e comer.
- Você veio correndo. Completamente nua. – Disse, e ela ficou vermelha na hora. – Não sei como não morreu nesse frio. O que você estava fazendo, hein? – Questionei, a olhando, enquanto tirava uma faca da bancada para começar a cortar a carne. Ela arregalou os olhos.
- Eu não posso contar. – Falou. Vi sua respiração ficar alterada, como se estivesse em estado de alerta. – Você chamou a polícia?
- Mesmo que tivesse chamado, eles não viriam. Estamos na montanha, anjo. Não sei de onde você veio, mas você definitivamente não devia estar aqui. – Falei, enquanto fatiava a carne em pedaços finos. – Quando a tempestade acabar, irei chamar e você vai pra sua casa.
- Não, por favor! Não chama a polícia. Só... – Ela veio correndo até mim, parando na minha frente. – Quando a tempestade de neve acabar, me leva até a cidade, e eu tomo meu rumo. Eu prometo não incomodar enquanto essa tempestade estiver, eu... Eu posso até te ajudar, só por favor, por favor, não avise a polícia que eu estou aqui. – Ela disse, e eu vi seus olhos lacrimejarem.
- Você é fugitiva ou coisa do tipo? – Questionei, e ela respirou fundo.
- Coisa do tipo. – Disse, engolindo seco. – V-você quer ajuda? Eu posso ajudar, eu... – Eu a interrompi.
- Gosto de fazer as coisas sozinho. – Avisei.
Ela deu um passo para trás e abraçou o próprio corpo, concordando com a cabeça. Ela não tinha escolha, a não ser confiar em mim.
Eu não queria me envolver em nada daquilo, mas ela parecia tão assustada que... Me lembrou das mulheres que meu pai sequestrava. Me lembrou de quando eu e Elisa invadimos um cativeiro e soltamos seis delas. As outras não sobreviveram, e foi nesse dia que perdi Elisa, minha querida irmã.
- Vai me contar o que houve com você? – Perguntei, e ela levantou o rosto, me olhando.
- Estou com medo. É melhor não. – Falou.
- Tudo bem. – Respondi, sem insistir.
O silêncio ali se tornou constrangedor... Pra ela. Porque eu não ligo de ficar quieto em nenhum tipo de ambiente. Mas ela, pelo visto, estava querendo conversar.
- Meu nome é Serena Santos... Caso você tenha interesse em saber. – Ela disse e eu dei os ombros. – Eu sou brasileira e meu pai tem uma transportadora de coisas. – Disse.
- Transportadora de coisas? – Ergui uma das sobrancelhas, a olhando por um instante, e depois voltando minha atenção para a comida.
- É... Tipo um FedEx. – Comentou. – E eu sou... Escritora.
- Tem algum livro publicado? – Questionei, e ela negou com a cabeça.
- Não ainda. Mas um dia, eu vou. – Disse, com um olhar de esperança. – Tem papel e caneta aí?
Eu peguei um pedaço da carne e coloquei na frigideira, vi o vapor subindo e aquilo me deixou distraído.
- Na estante tem um bloco de papel e algumas canetas. – Falei.
- E-eu não quero mexer. – Disse, e eu voltei meus olhos para ela.
Ela é uma mulher linda. Gostaria de tê-la visto antes de, seja lá o que aconteceu com ela, acontecer.
Esperei o bife ficar pronto e o tirei do fogo. Lavei e sequei as mãos, e caminhei até a sala. Abri a gaveta da estante e apontei para ela.
- Pegue. – Disse. Ela se abaixou e pegou o papel e a caneta, e então, se levantou mais uma vez.
- Quem é você, Hunter? – Perguntou, me olhando como se quisesse me desvendar.
- É melhor você não saber, ou vai ficar mais apavorada do que já está.
Ela engoliu seco e abraçou o bloco de papel, abaixando a cabeça. Não é a melhor coisa para se dizer nesse momento, mas foi o que saiu.