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1425 Words
HUNTER NARRANDO Coloquei meu casaco mais pesado, e depois me sentei para colocar as botas. Serena estava sentada em uma poltrona que arrastei e coloquei em frente a porta. Eu percebi que a respiração dela estava pesada, e assim que terminei de amarrar as botas, fui até ela e me abaixei, ajoelhando na frente dela. - Vai ficar bem? - Questionei. Ela parecia assustada. Seus olhos encheram de lágrimas e ela engoliu seco. - E se eles me acharem? - Disse, assustada. - Não vão achar, anjo. - Falei mais uma vez. Ela se inclinou da cadeira, passou os braços ao redor do meu pescoço e me abraçou com força. Eu não sabia exatamente o que fazer... Fazia tanto tempo que não recebia um abraço. Apoiei a mão com cuidado nas costas dela, e a deixei abraçada em mim pelo tempo que quisesse. - Volta logo, Hunter. Por favor. - Pediu, e depois, afastou o corpo do meu. Eu apenas concordei com a cabeça. Ajeitei a arma na mão dela e então, saí, deixando a porta bem trancada. A neve estava implacável. Seria uma caminhada difícil, mas não há outro meio de ir. Duas horas depois, eu podia ver o gelo em meu bigode e barba. Aposto que a sobrancelha grossa e escura está coberta de neve também. Quando cheguei à cidade, dei um suspiro de alívio. Consegui sinal, finalmente, e liguei para meu amigo. - Hunter? - Ele disse, meio que em choque. - Faz tempo que não liga... Você está legal? - Estou ótimo, mas preciso dos seus serviços. - Falei. - É pra você? - Questionou. - Não. Preciso falar com você pessoalmente. - Avisei. - Me encontre no posto da entrada da cidade, na loja de conveniência, e traga remédios pra infecção e febre. E... Se você puder... Uma ou duas mudas de roupa da sua mulher. Ele ficou em silêncio. - O que você fez, Hunter? - Questionou, desconfiado. - Eu não fiz coisa alguma. Pelo menos não dessa vez. - Falei, meio que me defendendo. Digamos que esse cara sabe quem eu sou. Ele sabe... O que eu já fiz. Uma boa parte, pelo menos. - Pode me ajudar ou não? Eu vou te pagar, como sempre. - Posso. Estarei aí em breve. O nome do meu "amigo" é Gregory, mas ele não é exatamente um amigo. Ele é um contato que poucas pessoas tem. Atende sem julgamentos e fica de bico fechado, contanto que seja bem pago. Eu entrei na loja de conveniência do posto e vi algumas canetas coloridas. Serena gosta de escrever... Por algum motivo, peguei algumas e segurei para pagar depois. Também vi um bloco de folhas bem maior do que o que eu tinha em casa e decidi pagar de uma vez. - Quer que embrulhe, senhor Retth? - A mocinha do caixa, já bastante conhecida, me perguntou - Não. - Respondi e ela colocou na sacola. - Se são pra presente, faria sentido embrulhar. Não acho que você esteja comprando canetas de unicórnio pra você mesmo. - Ela riu e eu apenas a olhei. - É pra mim. Não tenho cara de quem gosta de unicórnio? - Falei, de forma irônica. Ela riu mais ainda. - Você tem cara de que pegaria um unicórnio e faria um churrasco com ele como prato principal, isso sim. - Disse, limpando os olhos de tanto rir. Vi Luisa crescer. Ela é filha dos donos da loja. Por isso sabe que pode brincar comigo, mesmo eu tendo essa cara de que faria "churrasco de unicórnio". - Não vou falar nada, porque gosto da fama de "louco da montanha". Assim ninguém vai lá me torrar a paciência. - Falei. Gregory chegou, e eu peguei a sacola e o acompanhei para o local de tomar café dentro da loja de conveniência. - O que está acontecendo, Hunter? - Ele sussurrou, preocupado. - Você não disse que tinha se aposentado? - Ela não é uma refém. Eu saí do mundo do crime desde o dia da morte da minha irmã, você sabe muito bem disso. - Afirmei, e ele concordou com a cabeça. - O que está acontecendo com ela? - Questionou. - Está com o calcanhar bem machucado. Ela andou na neve descalça... Tem tido febre. - Ele ia anotando tudo que eu estava falando. - Deve pesar uns cinquenta quilos, no máximo. - Ela tem desmaiado? - Questionou. - Duas vezes. - Respondi. - Ainda sabe pegar veia? - Ele perguntou, e eu concordei com a cabeça. - Olha, você vai tratar isso com um medicamento na veia e outro de uso tópico. Todos os dias, de doze em doze horas. Entendeu? Quando a nevasca passar, eu vou vê-la pessoalmente. - Eu concordei com a cabeça. - Tudo bem, mas ela não quer. - Respondi. - Ela não quer o que? - Questionou, me olhando confuso. - Ela não quer receber visita. Ou socorro. Ela só quer a mim. E eu não sei o motivo disso. - Falei. - Talvez ela esteja com síndrome de Estocolmo. - Ele disse, e eu bati na mesa, nervoso, logo depois apontando o dedo para ele. - Eu não sequestrei ela. E não a toquei com malícia. - Sussurrei. - Tem algo errado com ela, mas a culpa não é minha. Não diga a ninguém que tem alguém na minha casa, por favor. Não sei se ela é lunática ou realmente está sendo perseguida... Por via das dúvidas, vou acreditar nela. - Falei e ele concordou. - Vamos, vamos até o meu carro pegar o material e as roupas. - Ele disse, e foi o que fizemos. - Está com bastante Vicodin? - Estou. Depois de preencher a mochila que eu trouxe com as coisas, era hora de voltar. Mais um caminho difícil. Duas horas de volta. Uma neve que rasga meu rosto, mas enfrentei, pois foi o único jeito que encontrei de ajudar Serena. Bati na porta suavemente. - Anjo? - Falei, entrando de forma vagarosa. Ela adormeceu, segurando firme na arma, e eu neguei com a cabeça. Joguei a mochila no chão e fui em direção a ela, tirando vagarosamente a arma de seu colo. Ela despertou e arregalou os olhos, se encolhendo na poltrona. - Não me machuca! - Pediu, e então, só depois, percebeu que era eu. Eu me levantei e me afastei um pouco. - Hunter... Hunter! - Ela disse, se levantou e se jogou em meus braços, me abraçando com toda força que tinha. Ela chorava como uma criança perdida, e eu tive pena. - Shhh... Estou aqui. - Falei, encostando a cabeça dela em meu peitoral e a envolvendo em um abraço carinhoso. - Você tem medo de agulhas? Ela desencontrou a cabeça de meu peito e ergueu os olhos para me olhar. - Depende. - Falou. - Vou precisar botar um remédio na sua veia. - T-tudo bem... Eu... Eu confio em você. Por que diabos ela confia em mim? O que eu fiz que merece a confiança dela? - Você não pode ficar muito tempo em pé. - Eu a alertei, e ela concordou com a cabeça. Soltei-a do abraço e fui caminhando até a sala. Eu precisava desesperadamente sentar. Quando sentei, passei a mão em minha coxa, e respirei fundo. - Você está mancando mais que o normal. - Ela disse, vindo até mim e se sentando ao meu lado. - Não é fácil andar por quatro horas com uma bala alojada no osso. - Falei. - Consegue pegar meu Vicodin pra mim? Devagar, por favor, sem encostar seu pé no chão. Está no armário da cozinha, em cima do fogão. - Disse. Ela concordou e foi, bem devagar. Voltou com os comprimidos e um copo de água. Uma pessoa como eu não precisa mais de água para engolir uns comprimidos. - O que mais posso fazer pra te ajudar? - Ela perguntou, e eu neguei com a cabeça. - Nada. Tem roupas pra você na mochila... E os remédios. Preciso te aplicar os remédios. - Não, descanse um pouco! Eu posso esperar! - Ela disse, colocando as mãos em meus braços. - Não quero que perca o pé. Minha perna vai ficar bem. - Falei. Me levantei, mancando mais que o normal, e peguei minha mochila. Tirei as roupas e entreguei a ela. Vão ficar bem melhores que as minhas nela. Depois, peguei as medicações... Eu cuidei de Serena, mesmo com dor. O que é que ela desperta em mim que eu nunca vi? Que sensação é essa, que nunca senti?
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