HUNTER RETTH NARRANDO
Depois que percebi que a temperatura de Serena caiu o suficiente, me levantei com ela no colo e saí do chuveiro com ela. A consciência dela voltou, e ela estava acordada. Passou os braços ao redor do meu pescoço para se segurar enquanto eu caminhava com ela até o quarto.
- Preciso tirar suas roupas. Estão molhadas. – Avisei.
Ela respirava ofegante, cansada, mas concordou.
- Eu acho que consigo... Você também precisa tirar as suas. – Ela sussurrou.
Agora, ela batia os dentes. Tudo bem, minha casa é fria, mas não é pra tanto. Tudo isso está acontecendo por causa dessa maldita infecção.
- Serena, eu preciso chamar um médico. Não vou conseguir tratar essa infecção sozinho. Você pode perder o pé. – Falei, enquanto a colocava sentada em uma cadeira.
Ela começou a tentar tirar as roupas, mas estava fraca, não conseguia. Me abaixei na frente dela, e comecei a tirar suas meias.
- Por favor, não chame ninguém. – Ela disse.
Eu apenas ignorei o que ela disse e continuei a ajudando com as roupas. Como tudo que ela estava usando era meu, estava bem largo e fácil de sair.
Evitei olhá-la quando ela ficou totalmente descoberta. Peguei uma toalha e ela se enrolou ali.
Abri meu armário, peguei mais uma muda de roupas e entreguei a ela.
Devagar, ela foi conseguindo se vestir. Estava se esforçando. Então, comecei a tirar as minhas roupas molhadas.
Virei de costas, para que ela não visse nada... Bom, minhas partes baixas, e assim que coloquei a peça de baixo, me virei para olhá-la. Ela estava com os olhos vidrados em minhas costas.
- O-o que aconteceu? - Ela disse, apontando para lá.
- Nada. - Eu falei. Já que ela não me fala nada, eu também não pretendo falar.
- Você se machucou feio... - Ela falou, com a voz ainda bem fraca.
- Por que você não me deixa chamar ajuda, Serena? - Falei.
Falar em ajuda, para ela, era como falar no demônio. Ela ficou em estado de alerta total, acredito que por um estado de adrenalina puro.
- Não! Por favor! - Pediu, se levantou e quando colocou o pé por completo no chão, deu um grito. - Aii!
Larguei a calça que estava prestes a vestir, indo até ela e a ajudando a se equilibrar.
- Vá pra cama. Eu vou chamar um médico, você não tem escolha. - E então, quando ouviu o que eu disse, começou a chorar.
- Por favor, não faça isso! Eles vão me levar de volta, por favor! Falou, se agarrando em meus braços e se segurando em mim, enquanto lágrimas escorriam por seus olhos azuis. - Por favor!
- Eles quem, Serena? Estou completamente no escuro! Como posso te ajudar, se você não diz de quem está fugindo? - Falei de forma bastante ríspida. - Está fugindo da máfia? Da CIA? Do Papa? Por favor, me explique!
- Eu... Eu estou fugindo da polícia! - Falou. Eu a olhei e neguei com a cabeça.
- Não, não está. - Afirmei. - Você está muito machucada pra ser uma fugitiva da polícia. Quem pegou você e por quê? - Questionei, e ela arregalou os olhos.
- Como você sabe que alguém me pegou? - Ela disse, me soltando e se afastando de mim.
Ela se encolheu na cama, abraçando as próprias pernas.
- Eu acho que o fato de eu ter uma tonelada de cicatrizes e ser manco de uma perna porque tomei um tiro, revela bastante o meu caráter e o tipo de coisa que eu era metido. - Falei e os olhos dela encheram de lágrimas.
- Se você contar pra alguém que estou com você, o Moloch vai descobrir. Se ele souber que estou por perto, ou que alguém está me ajudando, ele mata... Mata você, e me mata junto. - Ela disse, limpando os olhos. - Eu não sei quem ele é, mas ele tem um rádio da polícia. E se ele for da polícia? O chamam de 036 pelo rádio. Eu ouvia todo santo dia, todo santo dia, Hunter! - Falou, e então, soltou as próprias pernas. - Por favor, não avise ninguém que eu estou aqui. - Ela engatinhou na cama, vindo até mim. - Só... Me ajude, por favor.
Serena desceu da cama e ajoelhou aos meus pés, se agarrando em minhas pernas. Ela chorava feito uma maluca.
Eu não podia dizer que sabia de quem era o distintivo 036, mas eu sabia: Era do delegado da cidade. Sempre achei aquele cara estranho.
Me abaixei o suficiente para erguê-la, a segurando pelas laterais dos braços. A coloquei sentada na cama, e peguei minha calça. Fui finalmente vesti-la, mas permaneci sem camisa.
- O que ele fez com você? - Questionei, me sentando ao lado dela.
- Todo tipo de coisa. - Ela disse, voltando a chorar. As lágrimas caiam uma atrás da outra. - Ele me usava como se eu fosse um brinquedo. E ele matou minha amiga na minha frente.
Nesse momento, o choro de descontrolou. Eu não sabia o que fazer. Estávamos sentados ali, e então, ela pendeu o corpo e encostou a cabeça no meu braço. Eu deveria dar carinho a ela?
Isso seria meio perigoso, não seria? Ela não sabe que está deitando nas grades de uma jaula, e que tem um monstro dentro de mim querendo sair. Esse monstro quer devorá-la, mas eu não posso, não posso!
- Não vou chamar a polícia. Mas vou entrar em contato com um amigo meu, que é médico. Ele não é da cidade e pode ajudar mandando medicações. Serena, a polícia não trabalha nem em dias normais por aqui, imagina em dias de nevasca... - Eu falei.
- Por favor, eu prefiro perder o pé do que voltar pra ele... - Eu concordei com a cabeça.
- Já entendi. Não se preocupe. - Falei e ela respirou fundo.
Saí do quarto e fiz uma ligação rápida para um amigo, que sempre me ajudava quando me metia em confusão no passado. O sinal estava péssimo, então, eu tive que tomar uma medida drástica.
- Anjo? - Chamei, e ela rapidamente levantou e se sentou na cama. - Eu vou até a cidade falar com meu amigo.
- Vai me deixar sozinha? - Disse, apavorada.
- Como vou andar com você nessa neve? Eu vou ter que ir a pé, e vou demorar algumas horas pra conseguir ir e voltar. O sinal não está funcionando...
Ela olhava para os lados assustada.
- E se me acharem aqui? Não, não vai. Por favor, Hunter! - Ela se levantou, e veio correndo até mim, se jogando em meus braços. - Fica comigo! Por favor!
Percebi que seu corpo frágil tremia. Eu a abracei com cautela, encostando meu queixo no topo de sua cabeça.
- Shhh... Você precisa se acalmar. De verdade. - Pedi.
- Me leva com você. Não tem um jeito? - Eu neguei com a cabeça.
- Não, anjo, não tem. Mas vou te dar uma coisa que vai fazer com que você se sinta segura, ok? - Eu disse.
- O que? - Ela falou, curiosa, mas não se soltou do abraço. Na verdade, ela se aninhou a mim, encostando o rosto em meu peito.
- Uma arma. Qualquer um que cruzar aquela porta, sem ser eu, você pode atirar. O que você acha, hm?
- Tá. Quanto tempo você vai demorar? - Ela levantou o rosto, fitando meus olhos.
- Duas horas, se tudo der certo. - Falei.
Ela parecia mais calma, então, fiz o que tinha que fazer. Arrastei a poltrona para frente da porta, a peguei no colo para que evitasse andar com o pé ferido e a coloquei sentada. Dei-lhe a arma na mão e algumas instruções.
- Como vou saber se é você que está na porta?
- Me diga uma palavra de segurança. - Pedi.
Ela pensou por alguns instantes.
- Anjo. - Disse.
Eu quase que esbocei um sorriso, quase mesmo.