Capítulo 01

1964 Words
>> Alina Travers >> Eu não me orgulho da pessoa que eu era e, por esse motivo, eu luto todos os dias para me reconstruir. Durante seis anos da minha vida tudo o que eu sempre desejei foi uma vida normal. Acordar todos os dias e tomar um banho sem ter que brigar com diversas outras meninas para ver quem chegava ao banheiro primeiro. Sem ter que usar roupas extremamente curtas por obrigação e não por gostar, de fato, delas. E, principalmente, sem ter que lidar com vários homens — a maioria velho e chato — apenas para pagar uma dívida que sequer foi feita por mim. Se eu não fizesse o que eles mandavam por "bem", seria por mal... eu simplesmente não tinha para onde correr. Eu sei que isso pode parecer um pouco clichê, mas o que sempre me manteve de pé foi uma promessa que eu fiz para minha mãe pouco antes dela morrer. Eu prometi que seria forte e que permaneceria sorrindo mesmo quando tudo em minha volta me desse um milhão de motivos para chorar e desistir. É por causa dessa promessa que eu coloco um sorriso no rosto todos os dias. Quando eu finalmente conseguir pagar a dívida e juntar um pouco de dinheiro, me mudei para a cidade vizinha na primeira oportunidade que tive. Aluguei uma pequena, mas confortável, kitnet no centro da cidade — Podia não ser grande coisa, mas para mim era muito melhor do que continuar naquele lugar onde eu facilmente poderia acordar careca, ou coisa pior — e comecei a procurar emprego nas empresas que não ficavam muito longe do meu novo lar, do meu primeiro lar desde muito tempo. Uma pequena parte de mim queria acreditar que eu nunca iria conquistar uma vida consideravelmente comum, que as marcas do meu passado e a sensação de ser uma pessoa “suja” jamais sairiam de mim. Contudo, uma luz se acendeu para mim no fim do túnel assim que a última empresa que eu esperava me ligar disse que a vaga era minha. Contratar uma funcionária que, m*l sabe eles, ter como única experiência profissional saciar um homem em dois minutos não deve ser do feitio deles. Considerei isso como um milagre. O meu milagre. Eu me olhei no espelho mais uma vez para garantir que tudo estivesse no seu devido lugar. As regras da empresa eram claras e bem rígidas quando se tratava da aparência e higiene dos seus funcionários. Sem maquiagem forte, unhas sempre limpas e pintadas em cores claras, nada de decote, roupas sempre abaixo dos joelhos e nunca coladas demais ao corpo. O seu cabelo deve estar sempre preso para trás, nada de perfume muito forte e todas as mulheres devem usar salto preto ou similar. Para a minha sorte, ou não, já estou tão acostumada a usar salto que me sentiria um pouco nua sem eles. O trânsito da cidade estava horrível e por esse motivo eu agradeci ao fato de ter saído de casa uma hora e meia mais cedo do que deveria. Quando eu, finalmente, cheguei na empresa, a movimentação de pessoas muito bem vestidas e com um ar de profissionalismo que eu sentiria a quilômetros de distância foi a primeira coisa que eu notei, e a segunda coisa foi o quanto esse lugar parecia chique. Eu espero me encaixar nesse lugar algum dia. — Bom dia! — Cumprimentei a recepcionista com um sorriso, o mais doce que eu tinha, e fui retribuída da mesma forma. Abrir a bolsa para procurar a minha carteira com todos os meus documentos. — Bom dia, em que posso ajudar? — Ela indagou com um tom agradável e tirei a minha carteira de dentro da bolsa. Estendi para ela o meu registro geral. — O meu nome é Alina Travers. Estou começando hoje como assistente de Apollo Bollene… — Eu disse enquanto assistia a mesma pegar o documento da minha mão. Ela assentiu com a cabeça em concordância e colocou a carteira ao lado do seu mouse, enquanto começava a mexer com os dedos no teclado do seu computador. — Tudo certo, Senhorita Travers! — Ela me entregou a identidade enquanto mantinha o seu olhar fixo na tela do aparelho a sua frente — O escritório do Senhor Bollene fica no último andar, na cobertura. Esse é o seu cartão de acesso. Por favor não o amasse, perca ou risque. — Muito obrigada! — Agradeci com um sorriso enquanto pegava o cartão da sua mão e guardava o meu documento dentro da bolsa. — Tenha um ótimo dia. Desejo-lhe sorte! — Disse com o mesmo sorriso simpático nos lábios, mas teve algo em sua voz que me fez sentir um calafrio na espinha. Vamos, Lina! Você já enfrentou situações muito mais assustadoras do que um primeiro dia de trabalho em uma empresa de verdade. Ser a assistente pessoal de um CEO não deve ser mais difícil do que aturar aqueles velhos bêbados em cima de você. Me despedi da gentil moça com um aceno de cabeça, fui até às catracas que davam acesso a parte interna da empresa e coloquei o meu cartão de acesso no identificador, passando pelas barras de metal que giravam assim que o acesso era liberado. Caminhei direto para o elevador. — Eu estou te dizendo, amiga. Aquele homem é um verdadeiro monstro. Ele demitiu a sua assistente por que ela derramou uma gota de café no chão de sua sala… — Uma morena de cabelo curto e, aparentemente, cacheado preso em uma trança embutida disse ao telefone enquanto adentrava no elevador. Ela fez um cumprimento com a cabeça para mim, que retribui da mesma forma, e apertou no botão do seu andar. Ficando de costas para mim. — O que Apollo Bollene tem de gostoso, ele tem de babaca. Deus me livre trabalhar diretamente para esse homem… Então, como em um passe de mágica, toda a minha autoconfiança começou a evaporar como água fervente. A minha garganta se fechou um pouco enquanto eu tentava engolir em seco e um suor frio começou a sair dos meus poros quando eu percebi que faltava apenas dois andares para que eu chegasse na cobertura, onde fica o escritório do tão temido Apollo Bollene. A conversa da moça ao meu lado continuava e quanto mais eu escutava, mas as minhas pernas tremiam. — Se essa empresa não pagasse tão bem, eu teria dado um jeito de ser dispensada a muito tempo. Apenas para não correr o risco de cruzar o meu caminho com o dele — Foi a última coisa que eu ouvi ela falar, porque as portas do elevador se abriram e ela começou a caminhar para o lado de fora. Me deixando sozinha com o meu nervosismo. Calma, Lina! Vai dar tudo certo. Você vai se sair bem… e se não sair, você dá um jeito. Você sempre dá! Assim que as portas do elevador abriram novamente e a gravação do alto falante comunicou que tínhamos chegado ao último andar, eu descobri que toda a minha tentativa de me manter calma foi em vão. Meus pés pareciam ter se fundido com o chão e por esse motivo foi com muita dificuldade que eu consegui movê-los para o lado de fora do elevador. Abrir um sorriso assim que avistei a Camille — a moça que fez a minha entrevista — me esperando perto da mesa que ficava do lado de fora do enorme e lindo escritório com paredes de vidro fosco que tinha no andar. Tudo nesse prédio era surpreendentemente chique. — Seja bem-vinda, Alina! Eu pedi para que você chegasse mais cedo porque eu quero te passar tudo direitinho sobre o cotidiano do senhor Bollene. Espero não ter atrapalhado nada — Ela disse com um sorriso e eu neguei com a cabeça quase de imediato. — Imagina, Camille! Não faço mais que a minha obrigação — Eu disse em um tom simpático, fazendo com que ela abrisse um sorriso e afirmasse com a cabeça em concordância. Ela começou a me explicar as coisas mais banais, como o horário em que o Senhor Bollene chega à empresa, seu horário de almoço, o que ele gosta de comer e a maneira que ele gosta que preparem seu café, embora quase não tomasse. Camille tinha uma voz suave e uma expressão calma, mas dizia tudo com tanta pressa que eu só tinha tempo para assentir com a cabeça enquanto tentava prestar atenção em tudo que ela falava. — Ele ainda não chegou. Então, você tem tempo o suficiente para arrumar a sua mesa da forma que deseja, mas deixo claro que o seu atual chefe odeia bagunça. — De todas as coisas que eu ouvi sobre ele desde que cheguei aqui essa é sem dúvidas a menos assustadora. — A vaga que você está preenchendo é de assistente pessoal. O que significa que você vai cuidar de cada detalhe do seu cotidiano, mas durantes as duas primeiras semanas trabalhará somente aqui na empresa para que o senhor Bollene possa avaliá-la melhor. Não me decepcione… Ela praticamente ordenou a última parte enquanto caminhava em direção a mesa e eu, obviamente, a acompanhei. — Está tudo registrado na agenda eletrônica. Reunião, eventos, viagem e até receita da vitamina que ele toma todos os dias pela manhã. Alguma dúvida? — Não… mas você não teria alguma sugestão para me dar… teria? — Perguntei com as sobrancelhas um pouco unidas, demonstrando o meu receio em fazer tal pergunta e ela soltou uma risada suave. — Não fale nada além do necessário. Não espere que ele ordene para fazer as suas tarefas… ele odeia empregados que não cumprem com suas obrigações. — Ela disse como se fosse o óbvio e eu assenti com a cabeça para cada uma das coisas que ela falou. Não me parece tão difícil… — E não se apaixone. Além de ser inapropriado, Apollo Bollene não é do tipo de homem que se apaixona por uma assistente. Odiaria ter que despedir mais uma por causa disso… — Isso não vai ser um problema para mim… Não precisa se preocupar. — Abrir um sorriso para demonstrar a minha tranquilidade sobre o assunto ao mesmo tempo que estendia a minha mão para pegar o tablet que ela me oferecia. — Te desejo sorte! — Ela abriu um sorriso em retribuição e respirou fundo enquanto olhava para o elevador, começando a caminhar em direção a ele — Você vai precisar. Eu não tenho dúvidas quanto a isso… {...} Para alguém que passou seis anos da sua vida sentando em objetos não muito confortáveis, sentar em uma cadeira não deveria me deixar tão nervosa. Já havia cerca de uma hora e meia que eu estava sentada nessa cadeira, aproveitei o fato de estar sozinha para me adaptar com a ideia de que a minha nova jornada depende da forma que eu manuseio o tablet em minhas mãos. Repetindo para mim mesma, diversas vezes, todas as regras e orientações que a Camille me passou. Eu estava arrumada de forma apropriada e a minha mesa estava organizada. O tablet e o computador já estavam ligados, apenas esperando a ordem… mas nada disso adiantou quando a porta do elevador novamente se abriu e o nervosismo voltou com todo vapor. Eu me levantei de imediato e fiquei assistindo pela porta a imagem de um belo homem vestido em seu terno cinza sair elegantemente lá de dentro. Apollo Bollene é um homem exageradamente bonito, com seu cabelo loiro escuro, olhos claros, rosto afável e uma boca pecaminosamente convidativa. Óbvio que não dava para ver, mas a sensação que dava quando se olhava para seu terno é que seus músculos eram bem definidos e estavam longe de serem imperceptíveis. Se ele realmente for tão babaca quanto é bonito, eu estou frita.
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