>> Graziele Pacharra >>
Odeio Festas. Não todas, mas festas como essa tem um talento extraordinário de me deixar entediada. Meu pai e outros empresários sempre usavam ocasiões como essa para conversarem sobre seus projetos, para formarem possíveis alianças e se vangloriar pelas suas novas conquistas. Enquanto suas esposas exibem seus filhos falsamente perfeitos e suas filhas ficam sorrindo o tempo todo para manter a posse de futuras esposas perfeitas para qualquer jovem investidor. Na minha mão, a quinta taça de uma bebida com mais gosto de fruta do que álcool repousava e os meus olhos vagavam pelo salão à procura da única pessoa que seria capaz de me tirar desse tédio. Alina tinha desaparecido a alguns minutos e eu já perdi as contas de quantas vezes a xinguei em minha cabeça por isso.
Meus pais tem uma visão antiquada da vida. Para eles, só porque eu sou mulher, eu sou incapacitada de correr atrás dos meus próprios sonhos, de conquistá-los e de arcar com o nosso pequeno império. Se depender deles, eu passarei o resto da minha vida vivendo às custas do meu marido e o meu único trabalho será ser uma perfeita esposa troféu. Perfeita, recatada e do lar. Contudo, eu não tenho o direito de falar m*l deles, são pais perfeitos e sempre estiveram ao meu lado em cada passo que eu dava na minha vida, eles sempre estavam presente quando eu precisava deles e sempre fizeram de tudo para que eu pudesse estar feliz.
E o fato de ser tão grata a eles pela mulher que eu me tornei hoje e por me apoiarem mesmo discordando completamente com a minha decisão de focar no meu crescimento pessoal antes de me casar, faz com que eu conheça todos os pretendentes que eles arrumam para mim. Nem que seja para deixar claro que eu não tenho a menor vocação para estar em uma estante.
— Seu pai me contou que você se formou em contabilidade. O que planeja fazer no futuro? — O jovem senhor Bennet perguntou para mim enquanto circulava o seu olhar pelo salão, claramente à procura da sua próxima vítima. Os tempos podem ter mudado, mas a ideia de que um casamento é o laço de união mais forte que dois empresários podem ter continua a mesma.
— Trabalhar! — Respondi quando de imediato, fazendo com que o moreno, com um ridículo smoking verde escuro - mais não tanto - olhasse para mim — e quem sabe um dia ter a minha própria assessoria.
Eu respondi a sua pergunta com o queixo erguido e uma postura reta. Demonstrando para o mesmo que eu estava certa da minha resposta. Meu tom exalava o orgulho que eu sentia. Fazendo com que o homem mantivesse sobre mim o seu olhar um tanto surpreso.
— Não pensa em se casar? Poderia trabalhar vez ou outra na empresa do seu futuro marido…. você ainda teria tempo para fazer compras, as unhas e todas essas coisas que vocês mulheres costumam fazer — Ele comentou fazendo com que eu olhasse para ele com uma expressão de incredulidade.. A minha indignação com o seu comentário era nítida, mas Bennet não parecia se importar com isso.
— Não seja antiquado, Bennet. Foi-se o tempo em que as mulheres precisavam de homem para alguma coisa, hoje em dia, elas podem ser sim suas próprias chefes e, surpreendentemente, andar impecável… — Um outro homem entrou na conversa, fazendo com que nós dois nos viramos para ele na mesma hora. O homem de cabelo loiro escuro, olhos azuis claros e um sorriso largo se aproximou ainda mais de nós. Ele olhou para mim como se me conhecesse a anos — Onde você estava? Te procurei por horas!
— Eu te conheço? — Perguntei para ele com a sobrancelha franzida, enquanto tentava me lembrar de onde o conhecia e o mesmo deu risada enquanto afirmava com a cabeça.
— É a cara dela fazer esse tipo de brincadeira… vamos docinho, não pegue tão pesado comigo — Ele falou em um tom brincalhão enquanto se virava para o moreno em nossa frente… docinho?
— Ah, eu não sabia que vocês se conheciam — Bennett falou com uma expressão mais fechava, olhando para mim e para o loiro. Eu franzi a testa, encarando o homem alto ao meu lado - cujo eu sequer sabia o nome - assim que ele passou os braços pelo meu ombro, em um abraço ladino.
— É coisa das antigas… — Ele respondeu e eu arregalei um pouco os olhos. Como alguém pode mentir com tanta facilidade? É como se a sua cabeça tivesse sido projetada para isso — mas devo admitir que me surpreendo com a sua beleza todas as vezes que te vejo.
Ele olhou para mim com um sorriso conspiratório, como se esperasse que eu entrasse no jogo. Mas tudo o que eu conseguia fazer era olhar para a cara de p*u dele.
— Você não se importa se eu tomar ela por alguns segundos, não é? — O loiro virou a sua atenção novamente para Bennet que parecia estar prestando atenção na nossa conversa. Tão perdido com tudo isso quanto eu.
— Imagina, eu já estava de saída — Bennet sorriu para nós dois e tomou um gole da sua bebida pouco antes de se afastar da gente. Fazendo com que eu olhasse para o homem ao meu lado com alguém que exigia uma explicação.
— Pode me agradecer com um jantar qualquer dia desses — Ele se inclinou um pouco para mim, sussurrando bem pertinho do meu ouvido e eu revirei os olhos, me afastando do seu abraço e ficando frente a frente com ele.
— E você é? — Perguntei curiosa e ele colocou no rosto um sorriso cheio de malícia. Há uma certa expectativa em seu olhar e eu confesso que ela combina perfeitamente com o tom de azul dos seus olhos.
— Pode me chamar de David ou de seu herói — Ele colocou a sua taça um pouco pra frente, como se fizesse um brinde, convencido de que eu o agradeceria e logo depois bebericou um pouco da sua bebida vermelha.
— Houve um engano… eu não precisava ser salva — Falei o óbvio, olhando para o mesmo com o queixo erguido e ele deu risada, olhando um pouco para o ambiente a nossa volta
— Sim, claro! A sua conversa estava mesmo mega interessante. — Ele argumentou enquanto se virava para mim e eu ergui uma das minhas sobrancelhas.
— Estava ouvindo a minha conversa? — Perguntei com um sorriso divertido nos lábios e o mesmo engoliu em seco, bebericando o seu coquetel logo em seguida.
— Eu estava passando por perto e tive a impressão de que você precisava de ajuda, só isso — Ele justificou, parecendo nervoso com a minha pergunta e eu estreitei os olhos enquanto o encarava.
Quando uma música um pouco mais animada começou a tocar, David aproveitou a oportunidade para começar a mexer os ombros discretamente, ignorando a minha expressão desconfiada e eu dei risada quando ele começou a cantarolar baixinho uma das músicas mais famosas entre as mulheres da minha idade
— Herói em tempo integral, fã do Noah Sinclair nas horas vagas… — Meu tom foi de sarcasmo, levei a minha taça a boca com uma expressão de tédio, mas custei a segurar o riso quando o homem ao meu lado começou a dar risada.
— Não mesmo, mas tenho uma irmã de onze anos que é fanática por ele. Tive que ouvir ela resmungar e chorar por duas semana quando ele largou a vida artística para assumir a empresa do pai — Ele fez uma careta - como alguém que se lembrava de uma cena horroroso - e agora foi a minha vez de dar risada — Você ainda não me disse o seu nome… docinho.
Ele levantou a sobrancelha e olhou fixamente para mim, fazendo com que eu desse um sorriso enquanto me dava conta de que se não fosse por ele, eu ainda estaria tendo que aturar aquele homem.
— Eu sou a Graziele… Graziele Pacharra! — Estendi a mão para ele em um aperto e o mesmo abriu um sorriso sem mostrar os dentes, olhou por um nanosegundo para o meu rosto e depois para a minha mão antes de pegá-la e virá-la com a palma para baixo.
— Encantado de conocerte, señorita! — Ele pegou a minha mão e beijou a mesma de forma delicada. Fazendo com que eu escondesse um sorriso atrás dos meus lábios e puxasse a minha mão do seu aperto devagar.
— O prazer é meu…