(9 Meses Antes)
Os corredores do Palazzo Rossi finalmente repousavam sob a madrugada. O vai e vem dos funcionários de limpeza e os passos constantes da segurança externa haviam cessado na Ala Leste. Apenas a iluminação baixa das arandelas presas às paredes mantinha a propriedade visível.
Eu aguardava na minha suíte.
No centro do tapete persa, mandei preparar uma mesa pequena coberta com uma toalha de linho escuro. Pratos de porcelana, talheres polidos e taças de cristal. Duas cadeiras de encosto alto.
A refeição já estava disposta sob tampas térmicas redondas.
Aquele convite tinha sido feito meses antes, na primeira noite em que ela cruzou a porta deste quarto para se derreter em meus braços. Naquela ocasião, eu disse que ela deveria jantar comigo se um vestido coubesse perfeitamente nela.
Claro que a brincadeira acabou quando nos agarramos e, bem depois disso, a noite de São Silvestre atropelou a refeição e pulamos direto para a diversão carnal, mas eu não esquecia as minhas promessas. O jantar aconteceria do mesmo jeito.
Mais cedo, antes do fim do turno de limpeza, deixei uma caixa de papelão rígido sobre a cama estreita dela, na área de serviço reservada aos empregados.
Dentro, havia um novo vestido. Seda preta. Sem bilhetes anexados, sem instruções detalhadas. Ela sabia exatamente o que fazer quando o turno acabasse.
O relógio na parede marcou duas da manhã. O sigilo absoluto era fundamental para a manutenção da nossa rotina.
Carmelo Quattrocchi e os guardas noturnos da ronda não podiam ter a menor suspeita de que uma criada circulava livremente pelos corredores superiores àquela hora.
Três batidas leves e compassadas soaram na madeira da porta de carvalho.
— Entre — falei.
A maçaneta girou devagar. Carmem passou pela fresta fina e fechou a porta nas próprias costas com cuidado, garantindo que a tranca de metal não fizesse barulho.
Ela parou a poucos metros da entrada.
Eu estava encostado na beirada da mesa, com os braços cruzados sobre o peito. Observei cada centímetro da garota parada na minha frente.
O vestido vermelho da virada do ano tinha sido uma amostra, mas o preto era uma afirmação de propriedade. A seda escura abraçava a cintura dela, moldando-se pelos quadris curvos com perfeição.
O decote não era exagerado, contudo, expunha a pele pálida do pescoço e dos ombros. A cor escura do tecido realçava a claridade da carne dela, criando uma divisão nítida entre o luxo caro da roupa e a sua pele macia.
Ela estava descalça, evitando causar qualquer ruído de sola no assoalho. Os cabelos escuros caíam soltos pelas costas.
A postura acanhada que ela adotava não conseguia esconder a beleza real que possuía. O meu peito encheu-se de um orgulho puramente materialista.
Eu olhava para Carmem e via o meu próprio dinheiro e o meu gosto refinado aplicados no corpo dela. Ela era uma garota do interior, nascida para usar uniformes de algodão ralo e aventais manchados, mas ali, no meu quarto, ela vestia a alta costura que eu decidi bancar.
Eu estava elevando o patamar daquela criada. Tirando-a da base da casa para sentar-se à mesa de um líder.
Ela juntou as mãos na frente do corpo, sustentando o meu olhar.
— O tecido machuca? — Perguntei.
Carmem abaixou os olhos para as próprias pernas por um instante e depois voltou a me encarar.
— Caiu como se tivesse sido costurado no meu corpo, Signor Romeo.
— Então eu tenho um excelente olho para as suas medidas, afinal — respondi. Desencostei da mesa e caminhei na direção dela.
Parei a um passo de distância. O cheiro de sabonete simples misturado ao aroma de tecido novo atingiu o meu rosto.
— O senhor cumpre a sua palavra — ela murmurou, desviando a atenção para a mesa farta no centro do quarto.
— Sempre — afirmei. Ergui a mão e toquei a linha do ombro dela, sentindo a fluidez da seda e o calor do seu corpo. — Eu disse que teríamos um jantar. Sente-se, Carmem. Vamos comer.