Capítulo 14: Romeo

587 Words
(10 Meses Antes) Virei-a de frente para mim novamente. Os olhos dela me avaliaram por baixo dos cílios longos. — Então preciso me sentir lisonjeada por ter sua atenção e ser forçada a fazer o que o senhor mandar? — Carmem perguntou, a voz mansa. — Por um instante pareceu que você não gosta desse arranjo, mas sim, é exatamente isso. — Mas o senhor pode ter qualquer outra mulher, qualquer criada. Ou alguém melhor. Pelo pouco que entendo do mundo da sua família, o senhor se casará com uma mulher importante um dia. — Isso é um fato, querida Carmem — concordei, deslizando os dedos pelos ombros nus dela. — Mas nada disso nos impede de fazermos o que bem entendermos enquanto não tem ninguém olhando. Veja você, teme o Don e ainda assim está aqui. Ela suspirou, desviando o olhar para a minha camisa social. — Talvez eu devesse ter escutado mais minha mãe quando ela falava para eu tomar juízo e não cair nos encantos dos homens bonitos. Sorri. A confissão direta amaciou o meu ego. — Bonitos, charmosos e bem vestidos, sua mãe deveria ter complementado. Sabe, agora você me fez me perguntar, como você estaria passando a virada de ano em Trapani uma hora dessas? — Com certeza, eu não estaria bebendo, meu pai me mataria. — O que mais estaria fazendo nesse Capodanno? — Perguntei, buscando as duas taças na mesa de centro e entregando uma para ela. — Estaríamos todos espremidos na cozinha apertada de casa — ela respondeu, segurando a haste fina. — Minha avó fazendo lentilhas e o meu pai reclamando do barulho dos fogos de artifício no porto. — Comendo lentilhas até se cansar, imagino. — Sim, traz dinheiro no ano novo. E depois jogaríamos cartas na mesa da sala até a madrugada. Uma gritaria sem fim. — Interessante — murmurei, aproximando meu rosto do dela. — Mas você não está em casa agora, está comigo. La Notte di San Silvestro no meu quarto vai ser bem mais... íntima. Carmem umedeceu os lábios. — E agora os jogos começam? — Sim. Vamos fazer uma brincadeira divertida, bem simples. Eu direi uma coisa e você dirá "eu já" ou "eu não". Quando disser já, você bebe. Quando disser "eu não", vou tirar uma peça da sua roupa. Ela soltou uma risada curta e anasalada. — Por que não estou surpresa? Parece que você ama se aproveitar dessas situações para me deixar pelada. — Eu seria t**o se não o fizesse. Carmem ergueu o queixo. A timidez deu espaço para uma audácia contida. — Se é uma brincadeira, ela vale para os dois. Então eu começo. Fiz um aceno de concordância. — Vá em frente. Ela sustentou o meu olhar, a expressão ficando séria. — Eu já me apaixonei por alguém. Fiquei em silêncio. Observei atentamente enquanto Carmem erguia a taça e tomava um gole do espumante. O líquido descendo pela garganta dela era a confirmação física de que a criada do interior já tinha entregado o coração para algum i****a de Trapani no passado. Uma informação inútil, mas que despertou um incômodo rápido na base do meu estômago. Por minha vez, mantive a minha própria taça perfeitamente imóvel na altura do peito. Nunca tinha me apaixonado. Dei um passo na direção dela, diminuindo o espaço que nos separava, deixando que ela sentisse o calor do meu corpo. A regra era clara. Eu não bebi, então o preço era meu. — Venha tirar minha primeira peça de roupa.
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