(10 Meses Antes)
Virei-a de frente para mim novamente. Os olhos dela me avaliaram por baixo dos cílios longos.
— Então preciso me sentir lisonjeada por ter sua atenção e ser forçada a fazer o que o senhor mandar? — Carmem perguntou, a voz mansa.
— Por um instante pareceu que você não gosta desse arranjo, mas sim, é exatamente isso.
— Mas o senhor pode ter qualquer outra mulher, qualquer criada. Ou alguém melhor. Pelo pouco que entendo do mundo da sua família, o senhor se casará com uma mulher importante um dia.
— Isso é um fato, querida Carmem — concordei, deslizando os dedos pelos ombros nus dela. — Mas nada disso nos impede de fazermos o que bem entendermos enquanto não tem ninguém olhando. Veja você, teme o Don e ainda assim está aqui.
Ela suspirou, desviando o olhar para a minha camisa social.
— Talvez eu devesse ter escutado mais minha mãe quando ela falava para eu tomar juízo e não cair nos encantos dos homens bonitos.
Sorri. A confissão direta amaciou o meu ego.
— Bonitos, charmosos e bem vestidos, sua mãe deveria ter complementado. Sabe, agora você me fez me perguntar, como você estaria passando a virada de ano em Trapani uma hora dessas?
— Com certeza, eu não estaria bebendo, meu pai me mataria.
— O que mais estaria fazendo nesse Capodanno? — Perguntei, buscando as duas taças na mesa de centro e entregando uma para ela.
— Estaríamos todos espremidos na cozinha apertada de casa — ela respondeu, segurando a haste fina. — Minha avó fazendo lentilhas e o meu pai reclamando do barulho dos fogos de artifício no porto.
— Comendo lentilhas até se cansar, imagino.
— Sim, traz dinheiro no ano novo. E depois jogaríamos cartas na mesa da sala até a madrugada. Uma gritaria sem fim.
— Interessante — murmurei, aproximando meu rosto do dela. — Mas você não está em casa agora, está comigo. La Notte di San Silvestro no meu quarto vai ser bem mais... íntima.
Carmem umedeceu os lábios.
— E agora os jogos começam?
— Sim. Vamos fazer uma brincadeira divertida, bem simples. Eu direi uma coisa e você dirá "eu já" ou "eu não". Quando disser já, você bebe. Quando disser "eu não", vou tirar uma peça da sua roupa.
Ela soltou uma risada curta e anasalada.
— Por que não estou surpresa? Parece que você ama se aproveitar dessas situações para me deixar pelada.
— Eu seria t**o se não o fizesse.
Carmem ergueu o queixo. A timidez deu espaço para uma audácia contida.
— Se é uma brincadeira, ela vale para os dois. Então eu começo.
Fiz um aceno de concordância.
— Vá em frente.
Ela sustentou o meu olhar, a expressão ficando séria.
— Eu já me apaixonei por alguém.
Fiquei em silêncio. Observei atentamente enquanto Carmem erguia a taça e tomava um gole do espumante. O líquido descendo pela garganta dela era a confirmação física de que a criada do interior já tinha entregado o coração para algum i****a de Trapani no passado.
Uma informação inútil, mas que despertou um incômodo rápido na base do meu estômago.
Por minha vez, mantive a minha própria taça perfeitamente imóvel na altura do peito. Nunca tinha me apaixonado.
Dei um passo na direção dela, diminuindo o espaço que nos separava, deixando que ela sentisse o calor do meu corpo.
A regra era clara. Eu não bebi, então o preço era meu.
— Venha tirar minha primeira peça de roupa.