Capítulo 22: Romeo

714 Words
(9 Meses Antes) O ar de Palermo em janeiro era cortante, mas dentro do Palazzo Rossi, o calor vinha da agitação constante. Don Vittorio continuava instalado na cidade, ocupando o escritório principal e mantendo as rédeas curtas sobre cada uma das minhas decisões. Ele tinha me tirado a maior parte das obrigações diretas sobre a província, me tratando como um herdeiro que ainda precisava de supervisão constante. Era um insulto silencioso que eu engolia todas as manhãs. Rocco Martinus circulava pelos salões com a confiança de quem sabia que estava cumprindo bem o seu papel. Ele era um Sottocapo eficiente, organizado e rápido na execução das cobranças. No entanto, sempre que o via despachando as ordens que deveriam ser minhas, a falta de Dante se tornava um peso. Rocco era um funcionário exemplar, mas Dante era sangue. Havia uma lealdade que não precisava ser comprada ou provada entre irmãos, algo que Martinus nunca conseguiria replicar. A presença prolongada do meu pai no palácio trazia uma dualidade irritante. Por um lado, eu me sentia um prisioneiro na minha própria casa, aguardando que ele decidisse voltar para a Tenuta Rossi em Trapani para que eu pudesse finalmente retomar o comando absoluto. Por outro, a permanência dele significava que a estrutura de serviço não seria alterada. Carmem continuava ali. E isso, por si só, acalmava a fúria que o meu pai me provocava. Eu estava atravessando o corredor que ligava a ala de jantar às escadarias laterais quando a vi. Ela carregava um cesto de vime com roupas de cama, movendo-se com aquela postura que tentava, sem sucesso, passar despercebida. Dois guardas da segurança interna, homens que respondiam diretamente ao Sottocapo, pararam junto a uma das colunas de mármore. Eles interromperam a conversa no momento em que ela passou. — Bom dia, menina Carmem — disse um deles, inclinando levemente a cabeça. O tom era educado, mas o olhar dele percorreu o corpo dela de uma forma que me fez trincar o maxilar. O outro guarda deu um passo à frente, bloqueando sutilmente o caminho dela apenas para forçá-la a contorná-lo. — Precisa de ajuda com esse peso? — Perguntou o segundo, com um meio sorriso que eu tive vontade de apagar com um soco. Carmem m*l ergueu os olhos. Murmurou um agradecimento seco e apressou o passo, contornando o homem e seguindo em direção ao corredor menos movimentado da Ala Leste. Esperei que os guardas retomassem o seu posto antes de segui-la. Alcancei-a em um trecho estreito, onde as sombras das tapeçarias antigas escureciam o ambiente. Segurei-a pelo cotovelo e puxei-a para o nicho entre duas portas de madeira maciça. O cesto de vime bateu contra a parede com um som abafado. — Não converse com aqueles homens — ordenei, a minha voz saindo em um sussurro carregado de autoridade. — E não dê liberdade para que a cumprimentem dessa maneira. Carmem encostou as costas na parede, a respiração acelerando. Ela olhou para os meus dedos que apertavam o seu braço e depois subiu o olhar para o meu rosto. Uma faísca de desafio, aquela que ela tentava esconder sob a máscara de criada, brilhou nos seus olhos escuros. — Por quê? — Ela perguntou, em um tom que beirava a insolência. — Tem medo de que eles me chamem para brincar no quarto deles também? A minha reação foi instintiva. Soltei o seu braço e levei a mão ao pescoço dela, envolvendo-o com firmeza. Não apertei para sufocar, mas para marcar a minha posição. Senti o pulso dela bater forte contra a minha palma, rápido e errático. — Seja esperta como eu sei que você é, Carmem — falei, aproximando o meu rosto do dela até que as nossas testas quase se tocassem. O calor da sua pele subia para o meu rosto. — Nenhum homem neste palácio vai te tocar. Nem para uma brincadeira, nem para um serviço. Entendido? A sua arrogância vacilou diante da seriedade no meu tom. Ela engoliu em seco, sentindo a pressão da minha mão sobre a sua garganta. — Sì, signore — respondeu ela, quase sem voz. Soltei-a devagar, deslizando o polegar pela linha do seu maxilar antes de me afastar. Deixei-a sozinha no corredor, com o seu cesto de roupas e o aviso gravado na pele.
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