Capítulo 35: Romeo

596 Words
(8 Meses Antes) Amerigo Costa retornou a Palermo no fim da tarde do dia seguinte. O cansaço da viagem transparecia nas dobras do seu paletó quando ele entrou no escritório principal. Meu pai estava no seu lugar habitual atrás da mesa de madeira maciça. Eu me encostei na estante de livros, aguardando o relatório. Amerigo abriu a pasta de couro e retirou as folhas recém-assinadas, deslizando o papel sobre o tampo. — O contrato está assinado — Amerigo relatou, ajeitando a armação dos óculos. — Separação total de bens. Lorenzo Moretti tentou lutar pela administração das terras improdutivas ao norte, mas nós o encurralamos. O dinheiro do gasoduto Trans-Mediterrâneo ficará sob o controle exclusivo da herdeira Trovato. Vittorio assentiu devagar, satisfeito com o resultado da papelada. — E quanto ao meu irmão? — Perguntei. — Eleonora causou algum problema durante a reunião? — A garota foi firme. Mas houve um contratempo antes da minha chegada — Amerigo fez uma pausa, medindo as palavras. — Bastiano Greco enviou um caminhão. Franzi a testa na mesma hora. — O que o Capo de Catania mandou para Enna? — Cabras. Uma dúzia delas. Todas mortas e apodrecendo na caçamba — Amerigo explicou. — O motorista disse que era um presente de Bastiano para celebrar a paz que o Don conseguiu com a Calábria. A raiva subiu pela minha garganta instantaneamente. Bastiano Greco, "O Touro", controlava a costa leste da ilha e sempre foi uma pedra no sapato da nossa família. Enviar carcaças apodrecidas não era um simples deboche de mau gosto. Era um teste. Ele estava chamando a casa Trovato de fraca, zombando do tratado de paz do meu pai e testando o pavio de Dante de propósito. — Eu vou até Catania amarrar Bastiano pelo pescoço na traseira de um dos nossos caminhões — falei, a voz dura. — Fique onde está, Romeo — Vittorio cortou, levantando a mão. O rosto do velho não demonstrava fúria. Apenas a paciência de quem lidava com subordinados difíceis há décadas. — Bastiano tem uma boca grande e gosta de provocar. Ele testa os limites para sentir o terreno, mas no fim do dia, ele é fiel à nossa Famiglia. Não perca o sono por causa de carcaças. O que importa é como Dante reagiu. Vittorio virou o rosto para Amerigo. — Meu filho perdeu a cabeça? — Não, Don Vittorio. Dante manteve a postura. Ele dispensou o caminhão e lidou com a reunião do noivado logo depois sem transparecer o menor abalo — Amerigo pontuou com a sua eficiência de sempre. O advogado parou por um instante, parecendo analisar a melhor forma de descrever a dinâmica que presenciou na casa. — A propósito, as suas preocupações com o casal podem ser descartadas. — O que quer dizer? — Meu pai questionou. — A brasileira e Dante estão sólidos. Não é apenas um acordo de convivência no exílio. A mulher tem influência, e o seu filho a escuta de verdade. Eles agem como verdadeiros parceiros de guerra. Enna está sob controle absoluto. As palavras de Amerigo trouxeram um alívio enorme. A provocação de Catania ainda me irritava profundamente, mas saber que Dante tinha as rédeas firmes da própria casa e o apoio incondicional de Emanuele era exatamente o que eu precisava ouvir. A retaguarda da Cosa Nostra na Sicília estava protegida nas montanhas. Dante estava cumprindo a obrigação dele e garantindo a manutenção do nosso poder no interior. A certeza de que ele estava seguro me dava a margem necessária para focar os meus próprios esforços na dominação completa de Palermo.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD