Capítulo 4

1019 Words
Marcela ajustou o tailleur cinza enquanto observava a estrada estreita e sinuosa à sua frente. Apesar do nervosismo que a inquietava, tentava manter a postura e de certa forma, se sentia corajosa por estar fazendo algo sem a aprovação do marido, sentia-se mais livre. Quando Marcela disse seu nome um homem armado pediu que ela o seguisse. Ele para em frente uma porta e abre para que ela entre. — Ora, pra, quase pensei que não te veria por aqui, doutora. Marcela virou-se rapidamente e viu-se diante de Gabriel. Dessa vez ele estava vestido de forma casual, com jeans e uma camiseta escura, mas sua presença era igualmente intensa. — Gabriel — ela disse, disfarçando o susto e tentando recuperar o controle. — Eu… estou aqui para ouvir o que você quer dizer. Ele cruzou os braços e ela viu um sorriso discreto surgindo em seus lábios. — Entra. Pode ficar à vontade. — Ele indicou um sofá no qual ela se sentiu desconfortável. — Vamos direto ao assunto. Sobre essa sua associação. Ela é só isso? Oferecer um pouco de esporte e educação para tirar a molecada das ruas? Ela deliberadamente levantou o queixo, decidida a não deixar que ele a menosprezasse ou fizesse pouco caso de um projeto de vida pelo qual ela se dava de corpo e alma. — É mais do que apenas tirar jovens das ruas. É criar um caminho para que eles possam escolher algo além da violência e do crime. Para dar a eles uma chance de um futuro. — Futuro? — Ele soltou uma risada curta. — Você acredita mesmo que o sistema que representa vai garantir isso? Acha que vai ser fácil? Os meninos daqui, por exemplo, conhecem a realidade deles mais do que você imagina, doutora. Ela sentiu uma provocação, mas também uma pontada de verdade. Gabriel conhecia aquele mundo de uma forma que ela jamais conheceria. Mas, ao invés de recuar, ela o encarou. — Eu posso não conhecer esse mundo como você conhece, mas isso não significa que eu vou desistir ou que minha luta seja menos importante — respondeu, mantendo o tom firme. — Acha que os jovens daqui não merecem uma chance igual os outros? Gabriel a estudou com intensidade, ele parecia medir cada palavra dela, como se buscasse algo em seu rosto, em sua postura, que pudesse provar que ela realmente acreditava no que dizia. — Tu não me decepcionou, Marcela. Eu percebi isso naquela noite — ele falou, a voz mais baixa, quase como se dissesse algo confidencial. — Você disse exatamente o que eu esperava ouvir. Marcela sentiu uma onda de indignação crescer, mas ela respirou fundo e controlou o impulso de rebater. — Vai me dizer o que quer de mim ou vai continuar insinuando que sou previsível. Gabriel sorriu, como se se divertisse com a impaciência de Marcela, mas não perdeu o tom provocativo. — Eu não disse que você é previsível, doutora. Na verdade, tenho o palpite que você é capaz de coisas que nem imagina. — Ele se inclinou levemente para frente, apoiando os braços nas pernas enquanto a observava com atenção. — Mas quero te fazer uma proposta. Algo que pode ajudar esse projeto que você tanto preza. Marcela sentiu um arrepio de desconfiança percorrendo sua espinha. Qualquer acordo com ele era uma linha que, uma vez cruzada, não poderia ter volta. Mesmo assim, ela se obrigou a manter a calma e escutar. — Uma proposta? — Disse, controlando o tom de voz. — E o que, exatamente, você teria a ofertar que eu não conseguiria de outra forma? Gabriel soltou uma risada leve, como se a pergunta fosse ingênua. — Minha influência, por exemplo. Você vai conseguir apoio, eu sou o cara que conhece os "contatos certos". Posso ajudar a abrir portas que, pelo contrário, você nunca conseguiria abrir sozinha. Ela cruzou os braços, mas não percebeu quando os olhos dele foram diretamente para os seiøs que se empinaram. — E em troca disso… o que você espera de mim? — Ela perguntou com uma firmeza que beirava o desafio, não se deixando abalar pelo charme perigoso que ele exalava. —Já disse que não vou pedir que faça nada ilegal, confie em mim. Quero te ajudar e quero que você ajude as crianças daqui. Quero provar que o mundo não é só isso ou aquilo como o seu marido e outros acreditam que seja. Ela ponderou por um momento. O risco era enorme, e tudo em sua mente gritava para que recusasse, mas a oportunidade de realmente fazer uma diferença significativa parecia próxima demais para ignorar. — Então, mostre o seu mundo para mim, Gabriel. Me mostre que o que vou oferecer é realmente para o bem desses jovens, e não apenas para fortalecer seu poder sobre esse lugar. — Ela sustentou o olhar, percebendo que ele a escutava com seriedade. Gabriel concordou. — Muito bem, doutora. Vou te mostrar. E quando vir que eu não sou o vilão da história que seu marido pintou, talvez seja tarde demais para fugir. — Ele declarou, estendendo a mão para ela. — Aceita? Marcela olhou para a mão levantada, Bem no fundo, ela sabia que aquele aperto de mãos selaria uma aliança complicada e perigosa. Hesitou por um segundo, mas, reunindo coragem, estendeu a mão e apertou a dele. — Estou aceitando o projeto, Gabriel. Nada mais. — Claro, doutora, nada mais — ele repetiu com um sorriso enigmático. Marcela ainda não sabia, mas naquele dia na festa, ele a viu chegar de braços dados com o delegado. Gabriel manteve os olhos nela o tempo todo, e quando ela se afastou do marido ele se aproximou ainda sem saber sua própria intenção. Quando ele a olhou nos olhos como estava fazendo nesse exato instante, ele a desejou e tinha certeza que ela havia sentido alguma coisa. Gabriel quase se ajoelhou para agradecer aos céus quando ela respondeu que o marido deveria cuidar do próprio trabalho. Ele a queria para si. E todos sabiam que o que o Alemão queria, ele conseguia. De um jeito ou de outro...
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