Capítulo 5

1076 Words
A mulher se destacava facilmente entre as pessoas daquele lugar, dentro de si sentia o coração acelerar enquanto Gabriel a guiava pelas passagens estreitas e escuras, que revelavam uma realidade ainda mais crua do que imaginava. Ela obviamente não estava acostumada com aquele ambiente, mas a mistura de adrenalina e a presença de Gabriel ao seu lado a mantinham firme. Ao seu redor, haviam olhares desconfiados e outros curiosos se voltaram para ela. Apesar da insegurança, Marcela manteve a postura e tentou demonstrar confiança, mesmo que soubesse que estava pisando em um território desconhecido. Depois de alguns minutos de caminhada em silêncio, Gabriel parou diante de um prédio modesto. Eles entraram, e Marcela foi recebida pela alegre visão de paredes coloridas com desenhos feitos pelas crianças e jovens do morro. — Esse lugar funciona como um centro comunitário improvisado. Mas a maioria está mais interessada em continuar na rua, essa é a realidade — ele disse, com um leve toque de ironia na voz. Marcela olhou ao redor, observando tudo. Viu jovens jogando futebol em um espaço limitado, crianças fazendo tarefas escolares em cadeiras improvisadas e algumas mães costurando roupas para vender. — Nós temos o dinheiro para melhorar tudo aqui doutora, mas meu pessoal não é muito inteligente para controlar esse lugar. E as pessoas inteligentes de fora, não são corajosas para entrar aqui. — De qualquer forma é incrível o que você conseguiu fazer com tão poucos ajudantes, Gabriel — disse ela, genuinamente impressionada. Ele deu de ombros, embora Marcela perceba havia orgulho estampado em seus olhos. — A gente faz o que pode, mas é difícil lutar contra o que acontece lá fora. Muitos desses meninos acabam cedendo, entrando no crime para sustentar a família. Sem oportunidades de verdade, nós acaba perdendo para as promessas rápidas de dinheiro. Aconteceu o mesmo comigo, mas não quero a mesma vida difícil e perigosa para essas crianças. Ela assentiu, refletindo sobre aquelas palavras. Naquele momento, Gabriel tocou seu coração, ela podia ver mais do que o líder do morro, ele era alguém que conhecia o perigo daquela vida e que estava tentando, de alguma forma, oferecer uma saída, por mais frágil que fosse. — Eu vou levar suas demandas para a associação — prometeu. — Podemos buscar recursos, apoio de empresas, qualquer coisa que ajude a transformar esse lugar. Vou falar com o conselho e com os patrocinadores. Gabriel a encarou por um momento, o olhar mais suave. — Serei seu patrocinador Marcela. Você só precisa convencer a sua gente. Marcela hesitou, mas logo confirmou com um aceno firme. – Você fazer tudo que eu puder. Sobre a estrutura podemos contratar pessoas que moram aqui mesmo e que sejam capazes de fazer uma reforma. Sobre os educadores não vou ter dificuldade, conheço muitas pessoas inteligentes e corajosas. Ele a observou, um sorriso pequeno e quase desarmado surgiu em seu rosto. — Como você? — Ela o encarou. — Sabe, cê teve coragem de vim até aqui. Se continuar assim, doutora, vai acabar conquistando o respeito do morro. É só uma questão de tempo. Enquanto eles continuavam a caminhar pelo centro comunitário, algumas crianças corriam para cumprimentar Gabriel, chamando-o de Alemão com carinho. Ele se abaixa para conversar com eles, e Marcela vê um lado dele que nunca teria imaginado. Ele não era apenas o dono do morro que seu marido mencionava com nojø. Havia uma humanidade ali, que ninguém além daquelas crianças parecia conhecer. Quando Gabriel voltou para o lado dela, ela não pôde deixar de sorrir. — Eles adoram você. — Ele riu, para ela foi um som inesperado mas que reverberou por todo seu corpo. — Só me veem como alguém que cuida deles, nada mais. — E talvez seja isso mesmo que elas precisam — disse ela, com sinceridade. O olhar que Gabriel lançou foi profundo, ele queria acreditar no que ela dizia, mas carregava consigo uma dose amarga do realismo da vida. Ela viu como se ele baixava um pouco a guarda, perto daquelas crianças. Enquanto eles se dirigiam para a saída, Marcela percebeu uma onda se espalhar por ela, sentiu empatia e admiração por aquele homem. Eles pararam ao lado de uma das janelas que davam vista para a cidade ao longe, e o silêncio se instalou entre eles. — E você, Marcela? — ele perguntou, quebrando o silêncio. — Já vai voltar para sua vida perfeita depois daqui? A pergunta a pegou de surpresa. Ela hesitou, diante do sorriso de provocação que ele tinha nos lábios. — Talvez minha vida não seja tão perfeita assim. Eu... não sei. Às vezes, acho que estou presa em um papel que não escolhi atuar. — Ela nem sabia porque estava falando sobre isso com ele, só sentiu em si vontade de despejar tudo que tinha na alma para aquele homem que a olhava como se a compreendesse melhor que ela mesma. Gabriel assentiu lentamente. — Todos estamos presos em algum papel, doutora. A diferença é que alguns de nós não temos escolha. E, mesmo quando temos, é difícil mudar. — Ela olhou para ele, tentando decifrar o que aquelas palavras queriam dizer. — Você é livre para mudar o papel que está interpretando tanto quanto quiser. — Mas você escolheu estar aqui, Gabriel. Poderia ter seguido outro caminho. — Ele riu, mas dessa vez havia uma amargura presente. — Talvez. Mas uma vez que se cresce aqui, as opções não são tão amplas quanto parecem para quem vê de fora. — Uma das coisas que me confundem em você é que você fala com todo mundo aqui em gírias e expressões chulas. Mas quando fala comigo seu vocabulário parece se ampliar. — Ele sorri com o fato de ela estar tão atenta a ele. — Terminei o ensino médio, Marcela. Tenho uma boa educação, mas ela não vale de muita coisa no meu trabalho. — Marcela se sentiu uma faísca de empatia. — Então mudo minha forma de falar frequentemente ao nível de entendimento dos outros. — Compreendo. — É tudo o que ela consegue dizer e o assunto é encerrado. Antes de se despedir, Gabriel pegou um papel do bolso e anotou algo. — Meu número de telefone pessoal. Caso precise de alguma coisa. Ela pegou o papel, a sensação de contato entre os dedos deles foi tão breve quanto intensa. — Obrigada, Gabriel. Vou lembrar disso. Ela colocou o papel dobrado na bolsa e seguiu sozinha em direção a sua casa.
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