Capítulo 6

1424 Words
Marcela passou o dia imersa em documentos e ligações, organizando as pendências para viabilizar o novo projeto da Associação. Na mesa de trabalho, estavam os relatórios que eram empilhados ao lado das propostas. O projeto era ambicioso, planejava reformar o centro comunitário e ampliar as atividades para oferecer cursos e eventos culturais. Depois de enviar a última mensagem, Marcela olhou o relógio e percebeu que já estava quase na hora do seu compromisso com o marido. Ela e Ricardo tinham uma reserva para jantar em um restaurante conhecido da cidade, um encontro que ele insistiu em marcar. Ao se arrumar, Marcela escolheu um vestido sóbrio, e elegante o suficiente para estar à altura da ocasião. Desceu as escadas e o viu sentado no sofá. — Você está linda, Marcela — elogiou, guardando o celular no bolso e se levantando para cumprimentá-la com um beijo breve. — Mas infelizmente vou ter que desmarcar nosso jantar. — Ela o olhou confusa. — Lilian me ligou, ela está se sentindo m*l e pediu que eu a levasse ao médico. — Marcela estava frustrada, a mulher não podia tê-lo chamado mais cedo para que ela não tivesse perdido tanto tempo? — Claro, eu entendo. — Na verdade seu estômago estava embrulhado. — Obrigada querida. — Ele lhe deu um selinho e foi embora apressadamente. Lilian era a namorada de seu marido. Cerca de 4 anos depois de casados Ricardo lhe perguntou se eles podiam abrir o relacionamento. Desde então essas mulheres ficam indo e vindo na vida dele, mas Lilian tem durado mais que todas as outras. Ela também podia sair com quem quisesse, e houve vezes em que ela realmente tentou, mas não se senti a vontade em manter essas relações como o marido fazia tão bem. Marcela já tinha preocupações demais para se preocupar com mais homens além do marido. Além disso, o marido a tratava bem, e ela realmente não se incomodava nem que ele tivesse milhares de mulheres. Desde que ela não precisasse vê-las ou falar com elas porque seria muito desconfortável para si. Ele poderia dormir onde quisesse. Claro que houve vezes em que pensou em pedir o divórcio, mas seria muita burocracia só para a divisão dos bens e a papelada. Ricardo não a tocava se ela não quisesse, na maior parte do tempo ela não queria. Já fazia algum tempo que o relacionamento se baseava em dividir a casa e aparecer em eventos sociais. Mas era bem mais conveniente ser esposa de um policial do que divorciada, quem sabe se ela se apaixonasse... Talvez um novo amor fizesse o divórcio ser mais vantajoso que um casamento. Naquela noite, Marcela se deitou com a mente fervilhando. No fundo ela sentia que sua vida estava em um ponto de mudança, e essa mudança estava cada vez mais próxima. Quando acordou o marido não estava em casa, talvez já tenha ido trabalhar ou passou a noite fora, o fato é que não importava. Marcela escovou os dentes, tomou banho, vestiu-se com uma camisa social branca e uma saia bege um pouco abaixo do joelho. Tomou café da manhã e foi direto para seu escritório de advocacia. — Senhora, recebi seu email a respeito da associação CRESCER. — Quem a abordou assim que entrou pela porta do escritório foi sua assistente pessoal, Vitória. — Ah, claro, é o novo projeto que vou começar, preciso que você faça o anúncio de vaga para educadores da associação que estejam dispostos a ensinar crianças no morro do alemão. — A moça olhou para ela como se não estivesse falando a mesma língua que sua chefe. — Educadores para ensinar no morro do alemão? — Vitória repetiu olhando-a ainda sem entender se estava ouvindo direito. — Exatamente o que você escutou. Divulgue a vaga e diga para a Luz que ela não tem opção, estou requisitando a presença obrigatória dela nesse projeto. — Marcela falou claramente e sua assistente finalmente compreendeu que o assunto era sério. — Sim, senhora. — Vitória saiu da sala deixando Marcela sozinha. Ela ligou o computador para verificar o que a assistente separou para os compromissos de hoje, e claro ela precisava encaixar as horas que passaria no morro para não atrapalhar seus outros serviços. Teria que visitar um cliente na prisão, ele fora preso pelo roubo de uma joalheria, mesmo com a cara dele aparecendo claramente nas câmeras, o homem se n**a a alegar culpa para diminuir sua sentença, não havia muito o que ela pudesse fazer. Como diz o ditado: uma imagem vale mais do que mil palavras. Levantou-se da cadeira pegando sua bolsa novamente e se encaminhou para o carro. No caminho passou em uma cafeteria pois sentia que precisava de mais café para suportar o dia. Chegou no presídio em meia hora e logo liberaram sua passagem para visitar o indivíduo. — Bom dia, Mateus. — O homem a olhou de cima a baixo avaliando a aparência da mulher e a fez se sentir desconfortável. — Fala ai, dondoca. — Marcela odiava ser chamada de coisas assim mais ignorou, indo direto ao ponto. — Mateus você sabe que não tem muita coisa que eu possa alegar sobre o seu caso, sei que você quer se declara inocente. Mas se quiser sair daqui mais cedo sugiro que admita seu crime e pague por ele como manda a lei. — O homem continuou olhando para ela sem demonstrar qualquer reação. — Pense bem sobre isso Mateus, você não levou nada, pegaria no máximo quatro anos e provavelmente sairá em dois se tiver bom comportamento, e fizer serviço. — Não se preocupa dondoca, vou dizer que sou culpado. — Jura? — Marcela estava um pouco chocada já que estava fazendo o mesmo discurso a cada semana antes do julgamento e nunca surtira efeito algum. O homem deve ter notado que não havia possibilidade de ser inocentado desse crime e desistiu. — Perdoa aí dona, não sabia que a madame tinha amizade com o chefe. Fala pra ele que vou facilitar tua vida como ele quer. — O que o homem queria dizer com "amizade com o chefe"? — Do que você está falando Mateus? — Ele lhe deu um sorriso debochado. — O Alemão, meu chefe, mandou facilitar seu trabalho pra madame ter mais tempo livre. — Ele a olhou de forma avaliativa outra vez. — Não imaginei que debaixo de tanta roupa tinha uma coisa tão boa que fez até o chefe querer ter por mais tempo. Talvez a madame possa me mostrar seus dotes quando for descartada. — Marcela olhou para o homem com indignação. — Está me ofendendo senhor Mateus. Não tenho esse tipo de envolvimento com o Gabriel. — Afirmou seriamente mas o sorriso do homem só se alargou. — Gabriel? Então ele deixa que a madame chame ele pelo nome é? Tá com mais poder do que eu pensava. — Marcela bufou e sentia a raiva subir. — Se quer um conselho... — Não quero obrigado. — O interrompeu grosseiramente mas o homem não se importou com a resposta. — Eu tomaria cuidado se fosse tu, não com o chefe, mas sim com os muitos inimigos que ele tem. — E porque eu deveria ter medo dos inimigos do Gabriel? — O homem a encarou como se a mulher fosse burra, afinal ele não sabia que Marcela realmente não tinha envolvimento amoroso com Gabriel. — Quanto mais tu parecer importante para ele mas perigo tu vai correr. Então mesmo que o negócio de vocês dois seja sério, o que eu duvido muito porque o chefe não tem casos sérios. Mas mesmo que seja, não deixa ninguém saber. Para sua própria segurança, a madame é um alvo mais fácil do que ele. — Eu já disse que não tenho nada com o Gabriel. Sou uma mulher casada. — O homem deu risada de seu argumento. — Ser casado não impede ninguém de trepår não madame. — Ela não podia contra argumentar sobre isso, afinal mesmo no próprio casamento ele lhe dava direitos de sair com outros. — De qualquer forma, obrigada por colaborar. — Por nada dondoca, avisa pro seu Gabriel que vou facilitar pra você e pede para ele abrir portas para mim aqui também. — Ela se levantou o encarando confusa. — Ele pode abrir portas para você dentro da prisão? — Sua sobrancelha se curvou e homem apenas manteve um meio sorriso. — Ficaria surpresa sobre tudo o que o alemão pode fazer madame. Até a próxima. — O homem se despediu saindo com o policial.
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