CAPÍTULO 7

807 Words
​– Será que o senhor poderia ir um pouco mais depressa? A garota no carro da frente é minha namorada e eu tô querendo fazer uma surpresa para ela – informei ao taxista após pedir para que ele seguisse o carro à nossa frente. Talvez explicando a corrida desta forma, ele não ficasse com uma má impressão de mim, sei lá, do tipo me considerando algum psicopata. Durante quase todo o trajeto, fiquei apreensivo e cogitando desistir daquela ideia maluca. Porém, era simplesmente perder o carro de Bella de vista, que eu já me motivava a continuar novamente. – Namoram há muito tempo? – Quem? – Você e essa menina que estamos seguindo – completou o motorista. – Ah sim, sim. Há alguns meses, sim – mentia. – Está nervoso, não é? Sua perna não para de balançar. – Um pouco, mas é claro, né – meu riso amarelo talvez não transmitisse tanta verdade. – Coisas que só um coração apaixonado é capaz de nos motivar a fazer... Seguir a namorada e fazer uma surpresa. Ah, meus tempos de juventude... O carro estacionou em uma loja de conveniências. Bella colocou o pé pra fora do carro e vi sua bota branca de salto pequeno se apoiar no asfalto. Num instante, posava, esguia, batendo a porta do carro e vestindo um par de óculos escuros. Charme não lhe faltava. Paguei a corrida e desci rapidamente do carro após pararmos a uma distância suficiente para que não fossemos facilmente percebidos. – Boa sorte, garoto! Espero que sua namorada goste da surpresa! – Ah, obrigado, senhor. Bom trabalho. Sei lá, aquela Bella que eu via de longe tinha um ar diferente, uma imponência que nada lembrava a minha garota frágil e insegura. A atmosfera toda era muito suspeita. Eu podia pressentir que algo de estranho aconteceria ali. Mas o quê? O calor do meio dia, com um sol a pino, fazia brotar gotas de suor que escorriam pela testa. Não sabia se a sede era decorrente da alta temperatura ou se pela ansiedade que me dominava. Bella ajeitou sua mochila no ombro e empurrou a porta da loja de conveniências, retirando os óculos escuros. Aproveitei para me aproximar um pouco mais, ficando à espreita no imenso estacionamento, camuflado por detrás dos veículos estacionados. Pela janela de vidraça encardida, avistava Bella sorrindo enquanto caminhava em direção a uma das mesas. Tão logo sentou-se, a garçonete trouxe lanches e milk shakes numa bandeja. Havia duas outras pessoas esperando por ela, contudo a imensa pilastra impedia que eu identificasse quem eram. Quem eram? Enquanto distribuía os pedidos pela mesa equilibrando a bandeja com a outra mão, a garçonete se desequilibrou e dois copos de milk shake se espatifaram no chão. Visivelmente desconcertada, a moça agachou-se rapidamente na tentativa, inútil, de reparar seu erro. Foi então que meus olhos não acreditaram no que viram: aquela garota baixinha e de curvas interessantes que se levantou para ajudar a garçonete era ninguém mais, ninguém menos que Sara, a minha Sara, ou alguém muito parecido com ela. Semicerrei os olhos para ter certeza de que minha visão não estava me pregando uma peça absurda. Não queria acreditar que era realmente aquilo. Não fazia sentido! O que Sara estará fazendo na companhia de Bella?? Pensei em invadir aquela reuniãozinha para constatar o que via, mas logo ponderei melhor. Seria mais uma das minhas péssimas ideias, afinal, se fosse mesmo a Sara, era óbvio que ela já sabia de tudo sobre Bella e eu. E quando eu achava que já havia visto tudo, a outra garota detrás da pilastra se levantou. Ao avistar aquela figura gótica e sombria, eu podia jurar que fantasmas existem. Um flash tornou presente todas aquelas coisas do passado, que eram para ser passado e senti meu estômago revirar. Tive vontade de vomitar. Suei frio, exatamente como naquele dia em que comi os omeletes de queijo com Sara. Não podia ser verdade, eu estava ficando maluco, testemunhando coisas que não existiam, não tinham a menor chance de serem reais. Não, Samantha não podia estar viva, ela se jogou do prédio. Eu vi com meus próprios olhos. Todos sabiam que Samantha estava morta. Morta! Outra vez a d***a do flash e tudo começou a girar. Eu me curvei, apoiando as mãos nos joelhos e segurei o vômito que subia pelo esôfago numa massa única e azeda como se tivesse urgência em sair de dentro de mim. Meu corpo todo suava, e desta vez não era de calor. Ergui os olhos em direção ao grupo, queria ver mais uma vez o fantasma de Samantha, mas agora minha vista estava borrada e eu pressenti algo de r**m, tudo à minha volta rodopiava cada vez mais rápido, minhas pernas ficaram trêmulas e fracas, eu não podia suportar o peso do meu corpo e senti que ia desabar. Apaguei.
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