CAPÍTULO 6

1160 Words
Em algumas semanas, consegui retornar à minha rotina. Vi Bella poucas vezes desde então. Soube que lanchava na sala, alegando sofrer de enxaqueca e que o barulho no intervalo do pátio a deixava m*l, o que ajudou a reforçar sua imagem de mimada antipática. Ela estava me evitando, assim como eu a evitava. Nesse tempo, passei a ficar com uma garota do primeiro grau. Era só s**o, mas me ajudou muito a me desligar de Bella. A garota era ótima na cama e eu adorava fazê-la gozar. Por ironia, ela também era ruiva, alta, esguia. Coincidência perturbadora, creio eu. O estranho é que eu queria f********o muitas e muitas vezes com ela num mesmo dia, como se estivesse faltando algo, pois nunca me sentia completamente satisfeito. Atribuí isso aos hormônios que tinha voltado a tomar pra ficar forte. Mais alguns dias se passaram até encontrar Bella no pátio outra vez. Era estranho. No refeitório, peguei minha bandeja e sentei no outro extremo da entrada. No instante seguinte, Bella entrou pela porta com um cara da sua altura, bem vestido. Já o havia visto antes, era do terceiro ano. Ela não trazia mais o semblante caído, nem olheiras. O cabelo estava impecável novamente, a pele maquiada e sedosa, o batom rosa estava mais cintilante e delicado do que nunca. O papo dos dois parecia estar interessante. Cada um pegou uma bandeja e foram se servindo vagarosamente, com pausas entre as respostas de um para o outro. Bella estava linda e não pareceu me notar lá no fundo do bandejão. Logo em seguida, Peter chegou. Sentou-se e deu uma mordida em sua maçã. – Você viu? – Vi o que, Peter? – Aquela garota esquisita... Bella, né? Tava parecendo um zumbi dia desses e agora tá ali na fila mais gata ainda conversando com aquele guri do terceiro ano. O que será que deu nela? As outras garotas a chamam de vampira, tá ligado né? Eu mastigava um pedaço de pão com queijo e fingi não dar bola pro comentário dele. – Sei lá, cara. Tô sabendo de nada, não. Minha vida anda uma m***a pra eu me preocupar com os outros. Vou lá saber quem é vampira nessa p***a de lugar? Se pudesse, metia o pé daqui. Peter terminava de comer sua maçã e respondeu, retrucando: – Eita, que mau humor, cara... Cê é louco. Só tava comentando, ué. Desde que essa guria chegou, as outras só falam dela. Parece que essa tal Bella não dá muita moral pra ninguém. É na dela, metidinha... Coisa desse tipo. Eu já estava me estressando com aquele papo. Não queria saber nada da vida dela. – p***a, cara. Eu não quero saber de "guria" nenhuma. Papo chato pra caramba. Valeu mesmo, vou nessa. Ao sair do refeitório, apenas tive tempo de olhar pra Bella de relance. Dessa vez, acho que fui notado. Coloquei meus óculos escuros e fiz de conta que não a vi. O rapaz ainda estava bem animado com o papo. m*l sabia ele a enrascada que aquela garota era. Eu matei os dois últimos tempos de aula que faltavam e fui pra casa. Minha mãe não tinha ido trabalhar. Estava sentada no sofá vendo TV com Laura. Ao me ver, Laura correu em minha direção e abraçou minhas pernas. Eu mais parecia um imenso gigante perto daquela bonequinha. Peguei-a no colo e dei-lhe um beijo no rosto. Depois, fiz carinho em seus cabelos. – Sua irmã tá sentindo sua falta, Mat! Minha mãe era mestre em proferir coisas óbvias ou que eu já havia notado. Apenas assenti, concordando com a colocação dela. – Eu também estou sentindo sua falta, Laurinha. Que tal se passarmos a tarde brincando na sala? Corre lá pegar sua caixa de brinquedos. Rapidamente, ela pulou do meu colo e foi buscar a caixa. Minha mãe aproveitou pra me perguntar como eu estava. – Normal, mãe. Vida seguindo. – E a escola, Matheo? Eu queria ficar na minha. Ela não deixava. – Você sabe melhor do que ninguém que as minhas notas estão todas azuis. Não sou o primeiro da classe, talvez nem o vigésimo melhor. Mas tô longe de reprovar. Relaxa, mãe, eu sei me cuidar. – Nossa, você tá um poço de mau humor hoje. Não destrate sua irmã. Vou pro meu quarto dormir um pouco. Recolham a bagunça da sala depois. Não sou empregada de ninguém! – e ela foi murmurando outras coisas enquanto subia as escadas até que não pude mais ouvi-la. Laura voltou com sua caixa cheia de barbies sem cabeça. Eu certamente deveria contar alguma história de príncipes e princesas, como ela sempre pedia. Já havia tentado de todas as maneiras falar de histórias menos melosas, mas Laura sempre voltava pra mesma ladainha. Se eu mencionasse um monstro c***l, ela logo perguntava pela princesa que viria para torná-lo um lindo príncipe após um doce beijo. – Bom, nem precisa pedir, Laurinha. Hoje vou te contar sobre a fantástica história de uma Rainha má que fez de tudo pra roubar o coração de um príncipe. Laura arregalou os olhos, empolgada, e se deitou de barriga no chão apoiando o queixo nas mãos, que sustentavam sua cabeça atenta. – E qual o nome dessa rainha má, Mat? Olhei pra ela e depois peguei a barbie. A única que tinha cabeça. – Então, Laurinha, essa Rainha má ironicamente se chamava Bella! – Uáu... Como na Bela e a Fera, né? Eu sorri. – Uhum. Só que nesse caso a Bella e a Fera são a mesma pessoa. Pois a Rainha má chamada Bella faria o que fosse pra ter o coração do príncipe em suas mãos. Ela conhecia todo tipo de feitiço, além de usar sua beleza pra conseguir o que queria. Os homens se sentiam enfeitiçados por seu encanto e faziam tudo o que Rainha má Bella pedisse. – Mas Mat, qual é o nome do príncipe? Era só uma criança. Ela não entenderia as referências. – O príncipe se chamava Matheus. E assim passei minha tarde. Durante esse tempo, esqueci de tudo e era apenas o irmão babão de Laura. Lanchamos e depois a deixei vendo desenho na TV. Minha mãe desceu do quarto e ficou com ela preparando o jantar. No meu quarto, ouvia um pouco de música, deitado na cama. Via meu feed de notícias no f*******: pelo celular. Uma das páginas que eu seguia tinha uma imensa reportagem. Era meio que um jornal de fofocas da escola. A foto estampada era de Bella, o que prontamente me chamou atenção. A manchete trazia: "Mimada, rica e transexual: saiba tudo sobre Bella." Li até o final. Tentei imaginar como Bella estava se sentindo. Como seria a reação na escola no dia seguinte após descobrirem o segredo que ela escondia de todos, inclusive de mim? Eu não perderia a aula do dia seguinte por nada nesse mundo. Aquela escola estaria em polvorosa. Aumentei o volume da música e peguei no sono, satisfeito.
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