CAPÍTULO 5

1624 Words
Onze meses antes Já passaram pela sensação de ter que abrir mão de algo? De saber que é o necessário, o que deve ser feito, mesmo a contragosto? Pois bem, Bella me colocava nesse tipo de situação. Lembro da primeira vez que a vi. Foi no início do primeiro bimestre do segundo grau (já era a segunda vez que eu fazia essa série). Ela entrou na sala toda tímida. Vestia um jeans de cintura alta e um cropped que deixava os ombros nus. Na época eu não sabia o que era um cropped ou que aquilo que ela vestia tinha esse nome. Mas era sexy. Jurava que ela tinha olhado pra mim quando entrou, antes de se sentar na primeira fileira. Eu não podia mais observá-la em detalhes, mas admirava os cabelos ruivos, longos e soltos que pendiam por suas costas. Em um determinado momento, ela se virou e pegou algo na mochila lilás, pendurada no encosto da cadeira. Notei sua pele lisa e aparentemente macia. Ela usava um esmalte azul que cintilava. Peter me mandou uma mensagem pelo celular assim que ela voltou para frente outra vez. "Eu tô vendo, guri... Tira o olho dela" "Ahahah... Vacilão... Conhece?" "Vsf kkkk... Conheço não, mas gostaria. Mor gata... Krl" "É, ela é bonita... Será que veio transferida de alguma outra escola?" "p***a, cara, deve ser... Tem cara de patricinha" "Achei ela tímida, pô" "As tímidas que são melhores, Mat" Olhei para o Peter. Ele gesticulava de modo obsceno como se estivesse comendo a garota. "Vc não vale nada, Peter" "Ah lá quem fala... Passou o rodo nessa sala. Tu tá é querendo essa aí pra você que eu sei" "Quem sabe??" A aula começou e Bella pegou sua caneta para anotar a matéria. Sua letra devia ser caprichosa, mas de onde eu estava ficava difícil de confirmar. Ela levantou a mão pra pedir algo. Ir ao banheiro. Ela falou num tão baixo que m*l pude saber como realmente era sua voz. Só observei ela se levantando e se dirigindo rumo ao corredor. "Ela é bonita, mas precisa aumentar aquela b***a" "Talvez, não achei das piores, Peter" "Oi?? Vc só pega mulher rabuda, krl. Slc" "Ah, nem sempre..." "Que foi, já paixonou na guria, é Mat?? Kkkk..." "Tmnc, cara.. Paixão o quê. Se der mole, como ela e a mãe dela" "E se a mãe dela for gorda e velha? Kkkk" "Vsf, Peter" "Se bem que se tiver umas t***s grandes a gente encara. b****a é b****a" "Que nojo. Tu é doido. Tmnc" Bella voltou. De fato, não tinha coxas grossas nem peito ou b***a grande. Mas era tudo tão proporcional, que podia me imaginar facinho transando com ela; pegando aquela magrinha com força. Como seria bom puxar aquele cabelo ruivo quando ela estivesse de quatro pra mim na cama. Só fui sair daquela hipnose quando o sinal tocou. Bella arrumava suas coisas na mochila, ao contrário do resto da sala, que deixava tudo jogado. Ninguém guardava nada na bolsa. Será que ela escondia algo importante? Peter e eu nos levantamos e esperei que ela também fizesse o mesmo. Aproximei-me, sutil, e sem que ela percebesse, coloquei o pé na frente no seu caminho. Obviamente, os outros alunos viram minha proeza, mas eu estava pouco me lixando se alguém contaria à direção. Até porque quando Bella tropeçou eu não a deixei cair de fato. Pelo contrário, segurei-a pelo braço e a ajudei a se erguer. Quando ela se apoiou em mim, um aroma de morango subiu daqueles cabelos ruivos. Peter me olhou e riu, sabendo que eu tinha feito aquilo de propósito pra me aproximar da garota. – Obrigada. Eu sou meio desastrada – Bella se desculpou enquanto retomava a postura. Parecia envergonhada. – Que isso. Eu vivo caindo também. Relaxa. Bella colocou a mochila nas costas, deu um sorriso e saiu pela porta segurando seus cadernos. Peter se aproximou e me deu um soco no ombro. – Cara, tu é muito cara de p*u, mané! Tá maluco! – Peter ria sem parar. – Eu tinha que achar algum jeito de me aproximar. – E o que ela te disse, hein? “Vem cá, meu gostosão”? Peter às vezes vinha com uns deboches desnecessários. Muito s*******o. Isso só o deixava parecendo um personagem i*****l do American Pie. Às vezes, eu achava que ele era virgem. – Foi quase isso, Petzinho. Pra comer bem, mané, precisa esperar ficar no ponto. – dei uma piscada pra insinuar que eu sabia o que estava fazendo. Então peguei minha mochila e fui para o pátio. ~*~ Sete meses antes Ainda tentava compreender como tudo havia fugido ao meu controle daquela maneira. Eu nunca acreditei em coisas sobrenaturais, mas lembro da minha mãe falando certa vez que uma p********a fez uma magia pra acabar com o casamento dela. Eu ainda achava que era o problema com álcool do meu pai que tornou o casamento um fracasso. De qualquer forma, a tal p********a tinha conseguido ficar com o meu pai no final. Não se casaram, mas moravam juntos. E se magia existisse realmente? E se Bella, se é que poderia chamá-la assim, me jogou algum tipo de feitiço, ou macumba? Mesmo depois de colocar um ponto final em tudo, eu ainda pensava nela. Era ódio, era raiva, rancor, às vezes paixão, às vezes sei lá. O fato é que Bella havia me passado pra trás. Eu nunca tinha deixado uma garota entrar na minha vida como a deixei entrar. Por sorte não chegamos ao ponto de apresentá-la à minha família. Nem mesmo Peter soube o quão doido eu fiquei naquela garota. Eu, que me achava o espertão! Bloqueei o número dela e sumi das redes sociais. Bella ligou algumas vezes para o meu número tentando se explicar. Deixou um áudio na caixa postal, que só ouvi tempos depois. Ela chorava feito criança e apesar do meu ódio, não pude deixar de sentir tristeza. Quando tudo parece se encaixar, vem uma avalanche e destrói todos os meus planos. Eu queria ser o pai dos filhos dela. Isso soava tão brega que eu deixava essa ideia ecoar apenas dentro da minha cabeça. Mas era o que eu pensava. E naquele momento não havia Bella, não havia mais planos, não havia amor, não havia nada. Eu estava me sentindo um completo i****a. Os dias foram passando até eu ficar anestesiado. Passei uma semana longe da escola. Peter me perguntou o que estava rolando, por que minhas redes sociais tinham sumido. Respondi que estava sem saco, muita mulher enchendo a paciência e que estava com problemas familiares. Ao entrar na sala de aula, reparei o lugar de Bella vazio. Era aquele mesmo lugar da primeira vez que a vi entrando na sala. Nunca mudou. Por alguma razão, ela nunca quis se sentar perto de mim. Na verdade, era ela que nunca parecia querer assumir um namoro sério. Talvez tenha sido justamente isso o que me fez gamar nela, alguém difícil de conseguir. Sem contar que nunca havíamos transado. Meu palpite era que ela ainda fosse virgem. E eu queria tanto f********r. Amor mesmo, mais que f***r. Segurei minha vontade de perguntar ao Peter o que havia acontecido com Isabella. Preferi não associar mais a minha imagem à dela ou evitar fazer meu amigo pensar que eu estivesse preocupado com aquela garota. Fiquei com a dúvida e a levei pra casa. O sono me tomou até o dia seguinte. Fazia um tempo que eu não dormia direito. A luz do sol entrando pelas frestas da janela me fizeram levantar rápido. Tudo o que eu precisava para despertar era de um banho. Passei meia hora deixando a água cair sobre o meu corpo. Com um puxão, trouxe a toalha pendurada na porta do box e me sequei. Abri uma das gavetas do armário pra pegar uma cueca. Na primeira gaveta, achei um objeto que era dela e que eu havia guardado numa das vezes em que saímos. Era um laço de cabelo. Bella nem sabia que estava comigo. Na época, até me perguntou se eu tinha visto o laço, no que respondi negativamente. O laço ainda tinha cheiro de xampu com aroma de morango. Furtar um objeto dela me fez sentir um completo doente, obcecado. Talvez fosse certo me desfazer do laço, só faltou a coragem, então optei por deixá-lo em um lugar que não pudesse vê-lo tão cedo pra evitar lembranças. Na escola, outra vez o lugar de Bella estava vazio. Engoli em seco, mas repensando que seria um alívio se não a visse mais. Peter chegou em seguida, bebendo num copo do Starbucks. O jeito almofadinha dele era demais pra mim. – Cara, aquela guria pediu pra trocar de sala. Tentei manter a naturalidade ao falar. – Jura? Mas por quê? Ele deu outro gole em seu copo do Starbucks e disse: – Bom, ninguém sabe. Ela apenas pediu pra mudar e como o diretor é amigo do pai dela, parece que não foi difícil. Já sentiram uma mistura de alívio e desespero? Pois é, eu era essa sensação naquele momento. Meu ódio por Bella surgia por absolutamente qualquer coisa que ela fizesse, qualquer mínima ação que fosse. Se ela ficasse na turma, eu teria odiado. Caso partisse, eu também sentiria raiva. Uma arma resolveria meus problemas. Eu a mataria e enterraria o corpo no quintal de casa. Ninguém ficaria sabendo. Pensei nisso milhões e milhões de vezes. Era o que Bella merecia. A morte.
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