Depois da aula de dança, resolvi que iria dar uma volta de carro só pra espairecer um pouco as ideias. O que é que eu tinha feito naquele banheiro? Não compreendia com clareza como foi que me deixei levar por um impulso daqueles. Maldita garota! Maldita!
– Não vá muito longe. Eu não abasteci o carro hoje, filho! – escutei a voz da minha mãe enquanto passava pela porta da sala com as chaves na mão. Não respondi.
Ao sair pela porta da cozinha em direção à garagem, me detive um instante e enchi os pulmões com o ar fresco da noite. Mil ideias na cabeça.
Eu não sabia para onde estava dirigindo. Simplesmente liguei o carro e deixei a música rolar. d***a. Tudo o que eu menos precisava nesse momento era de uma programação flashback. Menos ainda que tocasse Total Eclipse of the Heart.
De repente, Bella estava ali ao meu lado ouvindo aquela mesma música, personificada por aquelas palavras. Foi inevitável recordar as vezes em que ela dublava alguns trechos enquanto eu dirigia rumo ao Outback. Esses trechos não me pareciam arbitrários, ao contrário, ela olhava para mim como se os direcionasse, insinuando algo. Seu inglês era infinitamente melhor que o meu. Algumas partes da letra eu entendia, outras eu apenas fingia que entendia. Cacei a tradução no mesmo dia e gravei o que significava.
Ela deitou sobre o meu ombro e eu pude sentir o perfume suave. Com a mão gelada por causa do ar condicionado, segurou firme no meu braço direito. Ficamos assim, em silêncio, por um tempo. Então Bella se endireitou novamente e sorriu pra mim. Eu sorri de volta, tentando compreender como eu tinha chegado ao ponto de não desejar outra mulher que não fosse aquela.
Outra olhada para o banco da carona e a imagem de Isabella se dissipou feito fumaça. Uma vontade de chorar me invadiu por completo. Aquela música parecia durar uma eternidade e conforme cada verso avançava, eu ia me sentindo mais e mais destruído. Freei o carro num movimento brusco e a música se misturou com o ruído dos pneus cantando, então da mesma maneira brusca, quase simultânea, desliguei o som. Batia com os punhos no volante. Por quê? Não entendia o porquê daquilo. Se Bella não tivesse cruzado meu caminho, as coisas teriam continuado como eram. Talvez eu me apaixonasse por Sara. Gostasse dela de verdade. Mas não! Bella me deixou sem eira e nem beira. Virou meu mundo pelo avesso. Não que as coisas fossem simples ou fáceis antes. Mas funcionavam. Eu sabia quem eu era, pra onde ia. Me sentia dono de mim mesmo. Bella desmoronou as minhas certezas. Eu a odiava incansavelmente.
Quando me dei conta, estava parado no meio da rua. E não era qualquer rua. Era a rua da casa dela. Então era até lá que eu tinha dirigido... Maldita música, maldito feitiço. Estacionei o carro, puxei o freio de mão e desci. As luzes da casa estavam apagadas. Já devia ser tarde.
Era um sobrado de dois andares. Persegui aqueles muros com meus olhos rumo à segunda janela da esquerda pra direita, no piso superior: era o quarto dela.
A primeira ideia foi jogar uma pedra na janela. Típico. "Larga mão de ser i*****l, Matheo. E vai dizer o quê? Quer casar comigo? Você nunca teria filhos biológicos. Ela não é ela. Ela é XY, bota isso nessa sua cabecinha de vento. Sem contar o pior, que você poderia ir pro inferno... É isso que você quer?".
Minha própria voz ecoava dentro da minha “cabeça de vento” repetidas vezes essas mesmas palavras. Eu queria parar de ouvir, mas não conseguia. Olhei de volta pra janela e vi uma luz azul fraquinha se acender. Devia ser ela mexendo no celular. Apanhei meu aparelho, entrei nos contatos e abri uma conversa com ela pra confirmar se estava online. Ah, Bella... Eu só queria te mandar uma mensagem dizendo pra não chorar. Dizendo que o que eu fiz não foi só culpa minha. Ela tinha uma parte nisso. Por causa dela, todo esse caos se instaurou em nossos mundos e eu tive que tomar decisões difíceis.
Eu queria matá-la, eu queria vê-la só mais uma vez saindo do banho de roupão branco cantando girls just wanna have fun com os cabelos ainda molhados.
Não era sempre que eu botava a culpa nela. Também culpava a Deus. Se Ele era dono de todas as coisas, por que não fez Bella com v****a, útero, ovários, essas coisas que todas as mulheres têm? Mas não tinha nada a ver com Deus. O cara criou tudo perfeito e aí vem o ser humano querer mudar a ordem sagrada da criação. De certo modo, Bella representava o m*l. Olha o que ela fez comigo, olha no que ela me transformou.
Ok, em geral, eu estava bem melhor naquela época, na nossa época. Tentava manter uma rotina de estudos que, na mais pura verdade, foi motivada por causa dela. Por incrível que pareça, minhas notas subiram. Ainda não eram boas, mas melhores que antes. Eu queria impressioná-la de todo jeito, em parte porque sabia que a família dela tinha dinheiro. A minha não. Como agradar alguém que possivelmente poderia ter tudo o que quisesse? Presentes caros não a surpreenderiam. Concluí, então, que talvez meu esforço em ser menos burro ajudaria a me tornar um cara mais atraente aos olhos de Bella. Se ela simplesmente enxergasse o que eu fazia só pra agradá-la e merecê-la...
Apesar das crises de ciúme e inseguranças quase sempre serem minhas, também sentia nela algo que sugeria medo de me perder. Na época, não sabia ao certo o que era, porém notei que de alguma forma Bella tentava ser boa o suficiente pra mim, também. Me faltava clareza e a informação necessária para entender o porquê. Linda, rica, inteligente: qualquer homem iria querer ela sem que ela precisasse se esforçar. Por que uma pessoa do nível dela se interessaria por mim?
A grande realidade era que Bella era perfeita demais pra ser de verdade. Não, a grande realidade era que Bella era uma imensa e perfeita mentira.
A vigília em frente à casa durou quase até o amanhecer. Tive tempo apenas de voltar pra tomar um banho rápido e trocar de roupas antes de ir pra aula.
No intervalo, fiquei pelo pátio conversando com a Sara. Ela comentou comigo que tinha dormido m*l: pesadelos. Eu também não havia pregado os olhos a noite toda, mas Sara não precisava saber disso.
Disse a ela que quando fosse assim, quando tivesse pesadelos, poderia me ligar a qualquer hora, que eu a acalmaria.
– Ah, tava tarde já, meu anjo. Sua mãe ficaria brava caso o celular tocasse de madrugada acordando todo mundo.
– Meu quarto é longe do dela. Nem dá pra ouvir. Inclusive... Já sabe, né? Quando quiser dormir lá de novo... – falei reticente, em tom de malícia, insinuando que queria t*****r com ela.
– Gosta de um perigo, né? Se sua mãe pega a gente... Hum... Daria m***a com certeza.
Eu ri, imaginando a situação toda.
Entre uma pausa e outra, verificava se Bella apareceria. Nada dela até o momento. Devia ter perdido hora depois de ter ficado até tarde acordada.
Aquela mureta onde Sara estava sentada era a mesma mureta onde Bella costumava ficar, sozinha, ouvindo música. Foi ali que puxei papo com ela pra valer. Perguntei o que estava escutando e ela respondeu que eu não gostaria de saber.
– Mas é claro que gostaria.
Ela sorriu com um sorriso branco.
– Músicas dos anos 80... – fez uma pausa olhando para a tela do celular – Tá olhando o quê? Sou meio estranha mesmo!
Não parecia nada estranha naquele momento.
O vento de outono batia nos cabelos dela, bagunçando os fios de um modo atraente.
– Posso ouvir também? – pedi subindo na mureta.
Nesse dia havia pouca gente na escola. No pátio, menos ainda.
Era um daqueles fones sem fio. Coloquei no ouvido e me assustei com o exagero do volume.
– Assim você vai ficar s***a!! – minha voz provavelmente saiu em forma de grito porque m*l escutava minhas próprias palavras.
– Poxa, desculpa... Meu pai que sempre diz que eu vou acabar s***a se continuar ouvindo músicas nessa altura.
Dei de ombros e fiquei ali comentando a playlist que aquela garota carregava no celular. A maioria trazia uma batida dos anos 80 mesmo. Uma ou outra eu conhecia. m*l sabia eu como aquele som me marcaria e traria tantas angústias inimagináveis.
Mas, agora, tudo era apenas memórias. Lembranças... Agora, era Sara quem estava naquela mureta e os seus cabelos eram tão pretos quanto os meus. Sara era a minha realidade. Sara era tudo que um homem como eu deveria agradecer por ter nas mãos.
Ajudei-a a descer da mureta e a deixei em sua sala. Ao retornar, fiquei esperando dar a hora da saída. Aquele tempo, as esperas,as lembranças, tudo me angustiava. Permanecer naquela escola era angustiante.
Na saída, finalmente lá estava Isabella, mexendo nos cabelos que se descontrolavam com o vento. Um carro preto estacionou e ela imediatamente levantou-se da escadaria onde antes aguardava. Entrou no carro de forma totalmente despreocupada. Eu sabia que aquele motorista não era o mesmo de sempre. E por que o pai dela mandaria alguém ir buscá-la na escola num carro conversível? Algo estava errado ali.