Minha casa não ficava tão longe do colégio e como a chuva havia cessado, a noite fresca e o céu, que acabara de elevar uma lua entremeada por nuvens esparsas, eram um verdadeiro convite para irmos a pé. Caminhava de braços dados com Sara. Os poucos momentos de paz que eu sentia estavam ali, tomando conta de mim. Entre um passo e outro, trocávamos algum beijo.
Ao chegar no colégio, nos dirigimos para a quadra. Os refletores incomodavam um pouco a minha vista, porque eu não estava acostumado a frequentar aquele lugar no período da noite. Do lado extremo ao nosso, a professora parecia entretida na tentativa de fazer funcionar um rádio antigo de CD player. Quando enfim conseguiu, assoviou para que todos se voltassem a ela.
– Acho que vai ser legal, amor! – meu Deus, Sara estava realmente empolgada.
A voz da professora ecoava pelos quatro cantos da quadra de esportes. Algumas das coisas que ela dizia eram completamente incompreensíveis por conta da reverberação.
Ok, não era bem por isso. Sei lá, minha cabeça estava em outro lugar, transportada para outra dimensão, e nessa outra dimensão, Sara era completamente diferente. Até mesmo eu era um tanto diferente. Aquele outro eu não estaria ali, gastando a noite na quadra da escola. Como era péssimo não poder dizer isso pra absolutamente ninguém... Será que eu bebi antes de sair de casa e nem notei?
Emergi desses pensamentos quando ouvi a porta da entrada ranger as dobradiças. Alguém chegou. Atrasado, mas chegou. Eu sabia quem era e por isso não me movi como a maioria o fez, incluindo Sara, que cochichou algo em meu ouvido.
– É aquela garota esquisita.
Eu sabia muito bem de quem se tratava, como já disse, mas nesse instante voltei-me para a porta de entrada só pra confirmar.
Bella carregava uma mochila nas costas. Os cabelos ruivos estavam presos num coque. Alguns fios pendiam de sua cabeça, conferindo certo charme e espontaneidade. Ela trajava uma saia estilo colegial preta com bolinhas brancas e uma camiseta cortada ao meio que deixava parte da sua barriga à mostra. O tecido da camiseta era branco, mas um pouco transparente e por isso dava pra ver o sutiã vermelho, ou rosa, que ela usava por debaixo. Bella não tinha s***s grandes, eles eram pequenos. Muito pequenos, na verdade. Mas isso não me impedia de às vezes querer saber como era por debaixo do sutiã.
Puxei Sara pra perto de mim e apertei sua cintura com força. Odiava ficar e******o em locais públicos. Nesse instante, minha visão já não alcançava Bella, mas a sua imagem ficou gravada, pairando em minha mente e eu podia percorrer perfeitamente aquelas longas pernas até onde a saia curta permitia. Depois analisei demoradamente a faixa de pele que podia ser vista em sua barriga. Continuei examinando aquela figura de alto a baixo... Os cabelos presos deixavam visíveis pequenos brincos de pérola. No pescoço, ela trazia um pingente de cor dourada. O sutiã era rosa? Ou vermelho? Talvez fosse rosa. Combinaria mais com ela.
– Vem amor, já vai começar.
Sara me arrastou para o meio da quadra. Meu corpo, pesado, estava subordinado aos meus pensamentos, digo, àqueles que eu não era capaz de controlar. Errei os passos mais básicos da tal dança, mas a professora nos apurava e consertava tudo com a maior paciência. Tentei me concentrar, juro que tentei, mas a tarefa era difícil. Onde estaria Bella agora? Se não veio pra dança, então por que ela apareceu na escola a uma hora dessas e bem na quadra?
Sara sorria o tempo todo e me elogiava, apesar dos erros constantes que eu cometia. A garota acreditava tanto em mim...
Num dos intervalos, fomos os dois beber água. Bella estava sentada num canto mexendo em seu celular. O cabelo, agora solto, encobria parte de seu rosto por conta da cabeça curvada na direção da tela do celular.
Reparei em suas pernas cruzadas. Definitivamente, não eram as coxas grossas que costumavam me deixar louco. Não como as de Sara. Sara tinha os p****s grandes e umas coxas bem grossas. Bella era alta e esguia. Quando caminhava, tudo nela se movia com graça. A forma com que os cabelos balançavam a cada passo e as cruzadas de perna chamaram minha atenção desde que a avistei pela primeira vez. Minha psicóloga costumava dizer, na época, que eu estava descobrindo outros tipos de sensualidade, para além da forma física. Achei aquilo estranho no início, mas aos poucos começou a fazer sentido.
Enquanto ela mexia no cabelo e arrastava os fios por entres as unhas pintadas de rosa-claro, eu era obrigado a imaginar como seria aquela mão delicada pegando em partes do meu corpo. Podia jurar que agora ela caminhava na minha direção e, ao mesmo tempo, sabia que tudo não passava de coisas da minha cabeça. Mais uma vez, foi necessário dar uma balançada na cabeça para escapar daquele transe.
E ela continuava sentada no mesmo banco em posição estática.
Enchi minha garrafa e a de Sara, que aproveitou para ir ao banheiro. Não resisti e me virei mais uma vez para admirar aquelas pernas. Desta vez, me deparei com Bella de pé conversando com um cara.
Era quase tão alto quanto eu. Tinha uma barba bem feita, mais bem feita que a minha, pelo menos, e os cabelos aparados num corte moderno. Vestia um short da gucci e uma camisa polo branca. Eles sorriam um para o outro como se se conhecessem há tempos. A maneira com que ela mexia nos cabelos a cada palavra que trocavam me levou a questionar o tipo de relação que aqueles dois mantinham. Quem era, afinal de contas, aquele cara? Então a Bella não mantinha luto nenhum por conta da morte de Samantha. Como era vulgar!
– Nossa, até de noite aquele banheiro é imundo! – Sara conferia se o zíper da calça estava fechado.
– Tá aberto não, amor! – disse, confirmando a dúvida dela após olhar para o zíper da calça.
Voltamos para a quadra. Alguns casais já haviam retomado a dança. Sara e eu tentávamos melhorar nosso desempenho em relação ao primeiro bloco de aula, mas ainda não estava dando lá muito certo. Bella e seu par, agora integrados ao grupo, pareciam se sair melhor. E o tempo todo ela não parava de rir ou sorrir. O que podia ser tão engraçado naqueles passos? Sempre odiei quando as pessoas riem e eu não posso saber sobre o que é.
Entre um compasso e outro, Sara me dizia qualquer coisa e eu assentia. Para alguns dos comentários, eu dava a resposta adequada, já em outros, sinceramente, como não estava prestando real atenção, apenas acenava positivamente para ela.
Na segunda pausa que fizemos, percebi que o garoto disse algo pra Bella e nos lábios dela consegui ler nitidamente: “Vai lá, te espero aqui!”
Deduzi que ele ia ao banheiro. Talvez eu devesse ir também, só para checar algumas informações.
– Eu posso ir com você se quiser, amor!
– Não, Sara, eu gostei desse lado em que estamos. O ar condicionado cai bem aqui. Volto num instante.
Tentei não caminhar muito depressa pra não causar nenhuma estranheza, mas também não queria perdê-lo de vista. De fato, o cara caminhava em direção ao banheiro. Assim que ele entrou, eu também entrei em seguida. Usava o mictório.
Fui atraído pelo espelho, que ficava do lado oposto ao mictório. Observava o reflexo do cara misterioso virado de costas pra mim. Uma onda de calor subiu pelas minhas costas –era o meu sangue esquentando, impulsionado pelas suposições que eu fazia a respeito da natureza daquela relação. Será que ele era mesmo algum amante de Bella? Imunda, quer dizer que me trocou fácil assim!
O garoto terminou de urinar e veio em minha direção fechando o zíper da calça. Eu abri uma torneira, me debrucei sobre a pia e deixei a água escorrer. Em seguida, molhei as mãos e enxaguei o rosto como se quisesse sair de algum transe. De olhos agora abertos, olhei outra vez para aquele cara no espelho lavando as mãos despreocupadamente, bem ao meu lado. i*****l.
– Ela é bonita, não é, cara? – o diálogo iniciado por mim ali soou meio estranho.
– Desculpa, falou comigo? – replicou o cara.
– Tá vendo mais alguém aqui além de você e eu?
Ele ficou sem reação e continuou lavando as mãos. Ao terminar, pegou o papel toalha e se secou sem dar a menor atenção para o que eu tinha dito. Decidi dar dois passos para mais perto do garoto, que o fiz meio oscilante. Ele me olhou com um semblante confuso.
– Eu não sei quem você é. Não sei de onde veio, mas só quero te dizer uma coisa, mané: se afaste de Isabella enquanto ainda há tempo. – foi difícil disfarçar o ódio... E o ciúme em minhas palavras.
– Cara, você é algum tipo de maluco? Eu nem te conheço. Não sei do que está falando.
– Aquela garota com quem você está dançando, ela me pertence, entendeu? Entendeu??? – fui me aproximando dele, enquanto erguia o tom de voz, num acesso de agressividade. Eu não gostava de agir assim, mas eu precisava intimidá-lo de algum modo.
– Calma, cara. Estava apenas dançando com ela. É só uma dança. – respondeu amedrontado.
– Não me importa o que estavam fazendo. O que interessa é o que vocês não vão fazer. Só me escuta e vê se te afasta dela. Ou eu acabo com você. – Nessa hora, eu já estava segurando o moleque pelo colarinho e pressionando seu corpo contra a parede. Havia um pavor nos olhos dele enquanto me encarava.
Assim que o soltei, ele correu em disparada pela porta, deixando-me a sós no banheiro. Minha respiração estava tão ofegante que mais parecia que eu tinha acabado de percorrer uma maratona. Acho que suava frio e definitivamente estava nauseado. Era um m*l-estar que eu nunca senti antes. Mas, pelo menos, dei um jeito de afastar aquele sujeito de perto da Isabella. A minha Isabella.