Nesse dia, as aulas tiveram que ser suspensas. Duas meninas muito assustadas se afastavam da multidão junto comigo. Pareciam incrédulas.
– Gente, eu realmente achava que em pleno século 21 as pessoas não seriam capazes de uma coisa dessas. Pra quê toda essa violência contra a menina, meu Deus? Deixa ela ser feliz, não fez nada pra ninguém.
A outra concordou.
Eu pensava que Deus estava simplesmente sendo justo. Pessoas como Bella não eram normais. Talvez devessem se tratar. Concordava que a violência foi tamanha, um exagero absoluto, mas a comunidade escolar tinha seu direito de manifestação, sim. Ela fez por merecer.
"Mas como deve estar o olho dela? Será que machucou muito? Será que acertou mesmo? Aff, vão cuidar bem dela, eu sei que vão".
Descartei a ideia de pegar um ônibus. Caminhar ajudaria a digerir melhor o que eu presenciei naquela manhã. Contudo, a cena toda, e especialmente o seu choro apavorado me atormentava sem trégua, não parava de se repetir na minha memória recente durante todo o trajeto para casa. Os ovos explodindo enquanto a acertavam. Os puxões de cabelos, a gritaria, as ofensas, num looping insistente diante dos meus olhos. Por que eu estava com pena, meu Deus? Fui me arrastando pra casa.
Corri até a gavetinha da pia do banheiro e tirei o fundo falso. Peguei o laço dela que mantinha guardado ali. A fragrância de morango já não era mais tão intensa, mas não importava, porque eu conseguia, de alguma forma, reproduzir o exato aroma com a minha memória. Deitei na cama e fiquei olhando para o laço incessantemente, brincando com ele por entre os dedos e recordando uma época feliz, uma época em que fui um cara completo. Seria um absurdo chorar ali, naquele momento, não seria?
"Talvez eu devesse ir lá devolver o laço. Aproveitava e perguntava como ela está... NÃO! i****a!! Talvez eu devesse pedir pra minha mãe ligar na casa dela, então? Uhum, ok! E eu ia dizer o quê pra minha mãe? Que eu me apaixonei por uma mulher que não é mulher? d***a, d***a, d***a!!!!"
Quer dizer que eu não teria notícias de Bella tão cedo. Pra “ajudar”, não tínhamos nenhum amigo em comum com quem eu pudesse me informar. Restava sentar e esperar. Não... Ela fez por merecer, também. Não era uma completa vítima. Eu, sim, era uma vítima daquela situação. Aqueles ovos explodindo não eram mais dolorosos e humilhantes que tudo que ela me fez passar. Eram?
"Sim, ela bem que merecia! Castigo de Deus. Não se pode enganar as pessoas e ficar impune. Eu não tenho nada a ver com isso"
Desci pra sala e fui jogar no meu Xbox.
Sentei no sofá, joguei uma almofada pro lado. Peter me mandou uma mensagem.
"Krl, mané, muita doideira isso. Slc"
Talvez Peter soubesse de alguma coisa.
"Eu não te vi no tumulto, Peter" indaguei de forma despretensiosa.
"Eu tava lá na porta, guri. Só não acertei um ovo nela por que o segurança brotou na frente. Acho que nunca me diverti tanto na minha vida kkkkk"
"Um ovo acertou em cheio no olho dela, deve ter machucado pra caramba, né?” (Será que eu ainda soava despretensioso?)
"Sei não, cara. Foi tudo muito rápido. Ninguém desconfiava que 'aquela' gata era um macho kkkkkkk"
Peter devia ter a mentalidade beirando a de um camundongo. Era um tremendo i*****l.
"Mas ei, Mat, não vi nem um comentário seu lá na postagem. Tá com medinho? Tá com dózinha do travequinho...? Tu tinha uma quedinha por ela né? Kkkk"
"Vsf, fdp kkkk... Você também achava ela gostosa pra krl!!!"
"Mas tu era mais interessado. Fala aí, pegou né?"
"Cara, tu deve tá cheirando caco de vidro moído com merda... Só fala bosta. Slc"
"Kkkk... Fala aí, mano, quantos centímetros a jeba dela tem?"
Bella nunca ficou completamente nua na minha frente. Um dia, ela precisou tomar banho em casa depois de tomarmos um temporal. Mas só a vi de relance de calcinha. Nunca reparei em volume nenhum debaixo das roupas, nem mesmo quando usava seus jeans justos.
"Você que deve saber... Parece interessado, Peter!"
"Krl... Slc, tô fora. Gosto muito de b****a, guri. Deixo essa pra você. Vai que é tua, brother!"
"A hahahahha, vsf, arrombado"
Em seguida, Peter me mandou uma série de montagens com fotos colhidas no f*******: dela. Uma das fotos fui eu que bati ao visitarmos um jardim na cidade vizinha. Ela posava ao lado de uma árvore imensa, tão bonita quanto a modelo. Bella sorria, pedindo pra que eu pegasse seu melhor ângulo e por mais que eu clicasse milhares de vezes e afirmasse que todas as fotos estavam perfeitas, ela resmungava e pedia pra tentarmos outra vez. Esta em questão foi a minha última tentativa, o resultado que finalmente havia dado certo. Bella adorou a foto. Na montagem, a legenda dizia: “quantos centímetros tem esse p*u?” Um trocadilho com o tronco da árvore.
Outras montagens colocavam barba em seu rosto ou recortes de corpos de travestis nuas colados em sobreposição ao seu próprio corpo e anúncios com o nome de Bella em sites de prostituição... Era fake, obviamente.
Eu queria muito que Bella não visse nada daquilo.
Maldito remorso!
Fechei aquele amontoado de imagens estúpidas e respirei fundo. A agonia fazia meu coração acelerar. Queria desfazer tudo, voltar no passado e impedir que fizessem m*l à Isabella.
"To rindo litros, mané... Galera é f**a!!"
"Kkkkkkkk", respondi.
Desliguei o Xbox e deitei no sofá. Antes, eu tinha plena certeza de que aquele show do horror me serviria de vingança e, consequentemente, eu me sentiria melhor. Mas não, cara. Nada estava funcionando. Eu não conseguia rir pra valer daquelas piadas com o Peter. Eu não era eu. Como ela se sentia agora?
Entrei no seu perfil do face: desativado. Era de se esperar, considerando a enxurrada de comentários ofensivos. O i********: não fugiu à regra. Todos os perfis sumiram das redes. Então desbloqueei o número pra ver quando é que tinha ficado on pela última vez. Foi na manhã antes do incidente. Pensando bem, a essas horas ela não devia estar próxima de celular nenhum, talvez estivesse deitada no colo do pai, chorando, sentindo-se humilhada.
O restante do dia se resumiu a isso, nada mais além de remoer aquela situação indigesta. O sono fugia de mim, como se ele mesmo me odiasse. Eu me revirava de um lado para o outro da cama, e em todos os cantos e ângulos repetiam-se as cenas de violência, os gritos, o pavor no rosto de Bella, as sirenes da viatura de polícia. Quando eu finalmente fui tomado pelo sono, um sobressalto involuntário me arrancou da cama. Arregalei os olhos outra vez. Era só o teto acima de mim. Não preguei mais os olhos. Quando vi o sol raiar, pensei num café preto sem açúcar. Era a esperança que eu tinha de manter as engrenagens do meu cérebro funcionando. Ou melhor, funcionando no modo mínimo, só pra que eu parecesse vivo durante a aula chata e morta de História. Mais uma falta e todo o ano letivo estaria perdido.
Ou o caminho se tornara mais longo que o habitual ou meus passos que estavam curtos demais. O que eu menos queria ao chegar ao colégio era ressuscitar as sensações que o episódio do dia anterior me provocou, eu realmente não tinha a menor pressa para encarar aquele inferno. Passei rápido pela entrada e segui pelo corredor que dava para a sala de aula. Peter estava lá com seu copinho do Starbucks. Fez sinal de continência pra mim, como de costume. Como de costume, acenei com a mão. Minha cara devia estar péssima.
Admito que café não era de todo suficiente pra me manter vivo, então dois ou três goles de vodka combinaram perfeitamente para me fazer seguir adiante em meio ao pedantismo sem fim das aulas. O r**m era a sede, efeito colateral do álcool, e a bexiga cheia solicitando que eu fosse imediatamente ao banheiro urinar. Tão logo a professora terminou de falar, levantei-me e saí para o pátio. As pernas, mais cansadas que o habitual, e uma dor na nuca faziam questão de me lembrar o quão pouco eu havia dormido na noite passada. Sentar um pouco pra tomar um ar e dar um tempo me faria bem, mesmo que a vontade de fazer xixi me obrigasse a levantar urgentemente. Tomei coragem e fui me arrastando em direção ao banheiro.
Álcool ou café, nenhum dos dois funcionou como eu esperava. Era Bella passando pelo canteiro de plantas próximo à entrada central? Sim, a própria. Alta, esbelta, com uma saia jeans e a camiseta branca amarrada em nó. Os gestos impecáveis de sempre, só que agora sob vigilância de um imenso segurança trajando um terno preto clichê. Onde é que estava todo o medo que eu pensei dominar seus sentimentos? Quer dizer... Tudo o que eu imaginei na noite em claro foi um equívoco?
Não demorou muito para que um aglomerado, feito formiga em volta de um pedaço de doce no chão, se formasse ao seu redor.
Por que você está fazendo isso comigo, Bella? Por quê?