CAPÍTULO 10

2580 Words
Um mês após a morte de Samantha Quem me assistia de longe, sem acesso vip aos detalhes dos bastidores, poderia fazer uma série de suposições a meu respeito. Algumas delas, inclusive, chegavam aos meus ouvidos. Outras não passavam de pura especulação minha, e eram baseadas na reação dos meus colegas ao me verem adentrar no mesmo ambiente que eles. De todas as reações, a que mais me agradava era o desconforto misto de interesse. Eu só podia concluir uma coisa: que eu era considerado um dos caras mais atraentes de todo o colégio. Fora os boatos que circulavam. As garotas piravam só de imaginar que eu olhara para alguma delas, e isso me causava um prazer indescritível. Prepotente, eu?... Vaidoso, eu diria. Óbvio que não demorou muito e eu já tinha me tornado assunto na página do f*******: do grêmio estudantil – aquela mesma página responsável por revelar a quem quisesse saber, o miserável e degradante segredo da nossa amada Bella. "SAIBA TUDO SOBRE O PARTIDO DO MÊS: CONHEÇA O MAT, CAMISA DEZ DO TIME DE FUTSAL DA ESCOLA PRIMEIRO DE MAIO (...) Ele tem apenas dezessete anos, mas o jeito é de homem experiente. Com seus um metro e noventa e dois de altura, o rapaz deixa qualquer garota morrendo de amores. Atacante do time de futsal, Mat foi considerado o grande responsável por trazer o vigésimo campeonato interescolar de futsal deste ano para o nosso colégio. Sem dúvida um talento nato! Os detalhes sobre essa personalidade até então praticamente em anonimato, todas vocês vão ficar sabendo nesta edição agora mesmo! Mat odeia o inverno. Ele prefere o calor, pois gosta de suar quando está correndo para sentir as calorias queimando. Em sua rotina para manter o corpo sarado, malha duas horas todos os dias e mantém uma alimentação balanceada, apesar de algumas vezes não resistir a uma costela do Outback. Ele não é tudo?!! Por falar em coisas calóricas, seu tipo preferido de cerveja é a Colorado. Acho uma excelente dica de presente caso, queiram se aproximar desse pedaço de mau caminho! Seu filme preferido é "O Poderoso Chefão", a série de que mais gosta é "Um maluco no pedaço", mas a que está acompanhando atualmente é "Vickings". Será que ele chamaria alguma de nós pra assistir com ele a temporada que acabou de sair? Quem não gostaria, não é? Quanto às preferências musicais, nosso homem não é nada eclético. Gosta é de rock pesado! Dizem que naquele fone de ouvido que ele carrega pelos corredores da escola não toca nada além de Kiss, Metallica, Sepultura e Guns N’ Roses. Será que é por isso que ele tem aquela carinha de mau?? Mas deve ser só a carinha, meninas, pois ele se derrete todo pela irmãzinha de oito anos e é o homem da casa, já que os pais são divorciados. Instinto protetor! Fala sério, ele é tudo o que qualquer garota deseja ter. E pra piorar: Mat está solteiro, meninas!!! É pra morrer de vontade de tirar uma casquinha desse pedaço de mau caminho! Mas tenham calma. Mat não gosta de se sentir sufocado, embora quando esteja afim de uma garota, seja capaz de fazer tudo por ela. Pelo menos é o que se diz sobre o nosso garoto. Teríamos algumas de nós o privilégio de conferir tudo isso?? Tentem a sorte, garotas, pois Mat é definitivamente o Partido do Mês. " Quando a reportagem saiu, Bella estava bem ao meu lado e lia alguns trechos pelo celular. Eu pedia incessantemente que deixasse aquilo para lá, que muitas coisas a meu respeito não passavam de invenção e especulação. Ela, no entanto, se esquivava a cada tentativa minha de lhe tomar o celular das mãos e impedi-la de continuar com os olhos pregados na tela do aparelho. Eu era o “Constrangido do Mês”, essa era a verdade. – “Partido do mês” – enfatizou ela, começando com um risinho discreto que foi se intensificando conforme intensificava também o constrangimento estampado no meu rosto, e terminou numa gargalhada indiscreta – Ah, não precisa ficar vermelho, Mat... Eu tô brincando! Passei meu braço por trás da sua cintura, envolvendo-a, trazendo-a pra mais perto de mim, mesmo que Bella não desgrudasse os olhinhos curiosos do celular. – Mas sabe o que realmente importa, Isabella? – por conta da diferença de estatura, ela recostava a cabeça na altura do meu peito e, assim, servia de apoio para o meu queixo. – Não sei não, senhor partido do mês! – debochou outra vez. – Engraçadinha... Como eu dizia, o que realmente importa é saber se você concorda com as coisas que essa reportagem diz! Era importante pra mim saber a opinião de Bella. O que ela pensava a meu respeito? Aquele texto só me rasgava elogios, isso é bem verdade, mas... Vez ou outra, eu me pegava questionando meu próprio caráter. Eu era tão suficiente para ela como a reportagem fazia crer que eu seria para qualquer outra garota? Mais inseguro impossível, apesar de evitar ao máximo que ela percebesse algum indício de insegurança. – Olha, Mat, tirando o fato de que agora você é um fã não declarado de música dos anos oitenta, sim, eu acho você um partidão! – ela ergueu a cabeça e me olhou nos olhos. Observei seus olhos logo abaixo dos meus. Aqueles olhos com longos cílios fitavam os meus sem receio algum. Negros e profundos. Poderia me perder neles sem medo. E me perdi, de fato! Os olhos dela. Nunca os mencionei. Quando ela me perguntava qual era a característica física que eu mais gostava nela, a resposta imediata era “esses cabelos ruivos e macios me fascinavam”. Não queria admitir que seu olhar me envolvia tanto. “Olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, me disse certa vez, deitada no meu colo, no jardim atrás da escola. Olhava para eles e me sentia seduzido. – Olhos de quem? – perguntei para pegar a referência. – Não, pera, – Bella se ergueu, tomada de indignação – você nunca leu Dom Casmurro? Tentava recordar se já havia lido, o título não me era estranho, mas a real é que eu não pegava em um livro sequer há anos. – Acho que não... Você sabe que não sou muito de ler. Mas posso ouvir você contar a história... Foi de lá que tirou essa frase? Olhos de... Cigana? não sei o quê dissimulada? Ela riu. – … Oblíqua e dissimulada, Mat! Sim, é um livro da literatura brasileira, muito bom por sinal! – E fala sobre o quê? Ver sua empolgação enquanto contava as reviravoltas do enredo do tal livro foi, sem dúvida, mais interessante do que lê-lo de fato. Capitu e Bentinho, uma traição! Quero dizer, uma suposta traição. Havia semelhanças entre aquele enredo e a minha história com Bella. Capitu era atraente, audaciosa e perspicaz. Talvez tenha realmente traído Bentinho com o seu melhor amigo. A principal diferença era que Bentinho ao menos tinha o benefício da dúvida e isso eu nunca tive, eu descobri de uma só vez quem era Isabella. Depois do segredo de Bella ser exposto foi que entendi o que ela queria dizer com “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, ou melhor dizendo, “olhos de ressaca”, como os de Capitu. Eram como a ressaca do mar, perigosos aos mais desavisados ou àqueles que talvez não soubessem nadar. A ressaca do mar é traiçoeira, como os olhos de Capitu, como os olhos de Bella me seduzindo até o fundo do poço no qual nunca imaginei um dia me encontrar. Agora, eu relia aquela matéria a meu respeito e rememorava as tantas coisas que passamos juntos. Remoía, para ser mais sincero. Aliás, naqueles dias, as lembranças pareciam mais reais que a vida medíocre que eu levava. Tudo que eu menos precisava era trazer à mente o suicídio de Samantha. Mas foi inevitável, já que ao rolar as postagens no feed pelo celular, a imensa matéria sobre o caso, mais um dos grandes furos daquele grupo da escola, invadiu minha tela e meus pensamentos. "DEPRESSÃO MATA! COMO IDENTIFICAR SE VOCÊ TEM DEPRESSÃO?" era o título que introduzia o texto. Nunca tinha ouvido falar dessa garota até ela surgir na vida de Bella. Foi logo após o nosso término. Samantha se tornou a pessoa em quem Bella mais confiava, por isso sempre a mantinha por perto. Mas por que ela? Samantha era uma garota esquisita, arredia e de olhar desconfiado. Sempre carregava pra todos os cantos uma pilha de livros, cujos títulos nunca ouvira falar, mas que, só de julgar pela capa, não deviam ser nada interessantes. Costumava vestir um jeans surrado e casaco preto de moletom todo desgastado. O esmalte escuro nas unhas estava sempre descascando. Aposto que era de propósito. Não era falta de retoque ou de cuidado, não. Circulava pelo colégio com um crucifixo no pescoço. Que ideia! O “acessório” só a deixava ainda mais esquisita. Soube que ela foi até expulsa do time de vôlei após denúncias das outras alunas. Reclamavam dos seus olhares estranhos quando as meninas ficavam nuas no vestiário. Desde então, a informação era de que Samantha só piorava das bizarrices e que falava com cada vez menos pessoas. Finalmente, fez de Bella a sua única amiga e companhia em todo o colégio. Aquela era uma amizade tão improvável de acontecer, que eu me pegava observando as duas juntas nos intervalos entre as aulas, a minha mente ali no maior esforço pra compreender qual era a lógica da união. Talvez, o que as juntasse fosse o fato de serem igualmente excluídas pela escola. Isabella, por não ser mulher de verdade, e Samantha pela aparência bizarra demais para os padrões de convívio social. As diferenças entre as duas eram gritantes. Isabella aparecia sempre arrumada, com os cabelos bem desenhados e a maquiagem delicada, sem exageros. Já a tal Samantha parecia ter escolhido o desleixo como única opção de look, fora que não era nada atraente. Eu, se fosse igual à Samantha, jamais andaria na companhia de Isabella. Seria deprimente demais, principalmente porque aquela menina, que agora sabíamos não se tratar de uma menina de verdade, conseguia ser bem mais atraente. No início, eu não apostei muitas fichas na longa duração daquela amizade. Era muita incompatibilidade. No entanto, a cumplicidade das duas acabou durando mais do que eu poderia imaginar, mais do que eu gostaria, na realidade. Tanto que após a morte de Samantha, Bella se recolheu num luto sem fim. Aquilo me angustiava, porque eu pensei assim, com o fim da relação das duas, a minha chance de reaproximação era certa. Foi tudo em vão. Samantha, agora morta, me separava de Bella mais do que quando era viva. Ela passava as horas lendo os mesmos livros que Samantha carregava pra cima e pra baixo. A mureta que em outros tempos serviu para escutarmos hits dos anos oitenta, passou a ser o local de leitura de Bella. O pior: também passou a usar o crucifixo, herança da morta. Toda vez que a encontrava no refeitório, estava sozinha, quieta com algum livro ao lado da bandeja, comendo vagarosamente e sem vontade. Eu podia ver nas suas feições o tremendo esforço a que se submetia pra se restabelecer depois da perda. Em alguns momentos, de tanto observá-la, podia jurar que estava chorando. Ela não tinha mais aqueles olhinhos de cigana oblíqua e dissimulada, aqueles olhinhos profundos e sensuais. Mas o fato era que, apesar de tudo, Bella sabia mais do que ninguém que o mundo nunca fora feito para pessoas fracas. Não mesmo! – Às vezes, acho que ela deveria mudar de escola, amor! – comentou Sara enquanto avistávamos, de longe, Bella comendo sozinha. Eu discordava. Eu concordava. Eu não sabia mesmo o que pensar. – Cara, o pior é que vejo uns malucos botando os olhos nela, sabe? – Peter era uma vela de plantão entre Sara e eu. – Sério, Peter? – Sara ficou interessada no papo. Eu ouvia tudo quieto e comia a minha refeição. – Uhum... Principalmente os guris novatos que não sabem que ela nasceu homem. Olhei para Isabella. Comia tão devagar que mais parecia mastigar um pedaço de papel. Ela ficaria magra demais se continuasse comendo m*l daquele jeito. Talvez eu devesse pedir pra minha mãe fazer um bolo, sei lá, algo mais saboroso que a comida h******l da escola, então eu entregaria a ela. Era preciso se alimentar melhor, senão... Como eu era i****a! – Olha, podem dizer tudo o que for sobre essa garota: que é esquisita, que é homem ou uma vampira... Mas não se pode negar que ela é realmente bonita! – Sara encarava Bella sem nem ao menos disfarçar. – Lembro quando ela chegou na escola... Tu lembra, Mat? – Peter estava prestes a me colocar numa furada. Fuzilei meu amigo com os olhos. Por acaso ele queria que Sara soubesse do meu interesse Isabella quando a vi pela primeira vez? Peter sacou meu olhar e ficou sem graça. – Vocês se conhecem, amor? Você e essa Bella? Sara era muito esperta. – Ela foi da nossa turma. Depois trocou de sala. Só isso. Não queria me aprofundar naquele assunto. – E antes de saberem tudo sobre ela, vocês não achavam ela bonita? – Sara poderia muito bem comer a sua comida quieta. Peter e eu nos olhamos. – Achei normal! – respondi. – Ah, não era de reparar muito não. Ela sempre foi na dela, poucos amigos... – complementou Peter. Sara franziu a testa, duvidando de nós. – Aham... Se eu e mais meio mundo achamos essa garota bonita, como que nenhum dos dois achou isso também?? Eu queria enterrar a cabeça no chão. – Olha, nem todo mundo precisa achar essa Bella bonita. Ela nem mulher é. Eu costumo achar mulheres de verdade bonitas. – Preferi ser enfático e seco pra não levantar qualquer suspeita. Sara ainda mantinha o olhar desacreditado diante das nossas respostas, mas cedeu, trocando de pauta, porém não do objeto do assunto. – Amei aquela saia que vi ela vestindo na nossa primeira aula de dança, Mat. – É, você disse, amor... Peter me olhou sem entender. Eu detestava dançar. – Vocês tão naquele projeto de dança de terça à noite? – Sim, Peter. Mat e eu estamos treinando nossas habilidades para o baile de final de ano. Sara estava muito empolgada com essas malditas aulas. – O que o amor não faz, né, Mat?? Dançarino... – ironizou. Não entendi o porquê de tanta ironia. Sorri após a colocação de Peter. Continuava a comer o meu quieto. E observar se Bella se alimentava direito. Por que diabos ela não levantava o olhar daquela bandeja? Eu queria ver o seu rosto, me certificar se havia olheiras, ou se o semblante era melhor, comparado com o do dia anterior. – E será que ela... Cortou lá embaixo? Digo, será que ela tem pepeca agora? "Eu também gostaria de saber, Sara" pensei comigo. Era uma curiosidade também minha. – O pai dela é médico... Eles têm dinheiro. Tudo indica que sim. – Peter falou de modo sentencioso, como se tivesse certeza de algo. Eu continuava em silêncio. Queria saber mais sobre ela, muito mais. Eu não a conhecia de verdade! Bella se levantou. Pegou o livro, entregou a bandeja e foi embora. Tive que me segurar pra não acompanhá-la com os olhos. Será que seus cabelos ainda tinham aroma de morango?
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