A NOIVA DA VINGANÇA
A mansão Capón parecia respirar diferente naquela semana, tudo se movia mais rápido, mais pesado, serviçais cruzavam corredores carregando caixas, tecidos caros, arranjos de flores escuras e velas longas que seriam usadas na cerimônia. A casa, já naturalmente sombria, estava sendo preparada para algo que não parecia um casamento.
Parecia um ritual. Um ritual horrendo para ela, seu casamento.
Veludos negros cobriam mesas do salão principal, rosas vinho profundo eram arranjadas em vasos de cristal pesado. Candelabros antigos eram polidos até refletirem a luz dourada das velas que seriam acesas na noite da cerimônia.
Nada era leve, nada era romântico, era luxo, era poder, era vingança, e Olivia Dante estava no centro disso. Apenas uma semana havia passado desde que ela entrou naquela casa como prisioneira disfarçada de noiva.
Apenas ete dias, mas pareciam meses, até anos. Oespelho do quarto mostrava algo que ela quase não reconhecia, o rosto ainda era bonito, os olhos diferentes ainda chamavam atenção, um verde profundo, o outro azul claro, mas algo havia mudado. As maçãs do rosto estavam mais marcadas.
Ela havia emagrecido, não porque não havia comida, mas porque comer ali era uma batalha, Olivia só se sentava à mesa quando Eros estava presente, quando ele não estava, o pai dele sempre encontrava uma forma de transformá-la em nada.
— Filha de assassino não come na mesa da minha família.
A frase ecoava em sua cabeça todas as noites.
Domingo Capón não escondia o desprezo.
Ele a olhava como se fosse algo sujo que havia sido arrastado para dentro de sua casa. Cada palavra dele era uma lembrança constante do que seu pai havia feito.
E no fundo… ele tinha razão. Carlos Dante havia matado a mulher dele, a filha dele, a família Capón carregava cicatrizes por causa da família Dante.
Esse ódio fazia sentido. E por mais que Olivia quisesse negar… ela entendia. Isso tornava tudo pior, lorque não havia inocência naquele casamento, havia apenas dívida, ela suspirou, desviando o olhar do espelho.
Duas mulheres estavam no quarto ajudando na preparação do vestido para os ajustes finais, costureiras trazidas especialmente de Barcelona.
Elas falavam baixo entre si enquanto ajeitavam o tecido sobre a cama, o vestido era… impressionante, mas também intimidante, camadas de seda branca caíam como água sobre o tecido base, enquanto o corpete era bordado com fios de prata e pequenas pedras que refletiam a luz como gelo. As mangas eram delicadas, quase translúcidas, e a saia se abria em uma longa cauda que parecia feita para uma rainha.
Ou para um sacrifício, Olivia tocou o tecido com cuidado.
— É pesado — murmurou.
— Vestidos importantes sempre são — respondeu uma das costureiras.
Importante, ela quase riu, do outro lado da casa, vozes masculinas ecoavam no salão.
Homens importantes estavam chegando, aliados, chefes de outras famílias, a cerimônia não era apenas um casamento.
Era um anúncio político, Eros Capón estava consolidando poder, ainda maior do que ele ja tem, Olivia era o selo dessa vitória. Ela fechou os olhos por um momento, pensando nele.
Eros Capón, gigante, perigoso, lindo, ela odiava admitir isso, mas era verdade, ele era um homem que dominava qualquer espaço onde entrava. Ombros largos, postura impecável, a presença de alguém que sabia exatamente o poder que carregava.
E aquela cicatriz… Muitos desviavam o olhar, achavam assustadora, mas Olivia não, ela achava… fascinante.
A cicatriz contava uma história, uma história de dor, e isso o tornava ainda mais perigoso, ainda mais humano, o problema era que ele nunca mostrava esse lado, para ela, ele era apenas crueldade.
Um homem que observava sua humilhação como se fosse entretenimento, Amália fazia questão de reforçar isso todos os dias, ela não morava na mansão.
Mas parecia morar, estava lá todas as manhãs, todos os almoços, todas as noites, como se fosse a verdadeira dona da casa, e pior: ela fazia questão de mostrar isso.
Uma tarde, Olivia entrou na biblioteca e encontrou Amália sentada no colo de Eros, rindo baixo enquanto ele dizia algo em espanhol perto de seu ouvido, Amália a viu primeiro.
Sorriu.
— Oh… desculpe — disse, sem qualquer tom de desculpa — não sabia que a noiva estava por perto.
— Se eu fui chamada aqui, sabia sim que estava por perto. — Olivia não abaixava a cabeça.
— E isso não importa, ratos são para ser eliminados. — ela diz.
Eros levantou os olhos, olhou diretamente para Olivia, e não afastou Amália, não disse nada.
Apenas observou, como se estivesse analisando a reação dela.
Aquilo queimava, Olivia odiava sentir aquilo.
Aquele ciúme absurdo. Ridículo. Ela odiava o homem.
Mas ainda assim…
Ainda assim aquela cena a fazia querer quebrar algo, e Eros sabia, ele sempre sabia.
Às vezes até parecia se divertir com isso.
Uma noite, Amália passou a mão pelo peito dele de forma lenta enquanto conversava com outros convidados.
Eros apenas levantou o olhar, diretamente para Olivia, observando, esperando, e ela não desviou o olhar, mas sentiu o ódio crescer.
— Senhora Dante.
A voz de uma das costureiras a trouxe de volta ao presente.
— Podemos provar o vestido?
Olivia assentiu, elas ajudaram a colocá-lo com cuidado, o tecido frio deslizou pela pele, ajustaram o corpete, prenderam os botões delicados, quando Olivia se virou para o espelho…
Ela quase não reconheceu a pessoa ali.
A garota no reflexo parecia uma noiva perfeita. Elegante. Imponente. Mas os olhos contavam outra história, uma história de medo, porque havia algo que Olivia não conseguia tirar da cabeça.
O casamento.
A noite que viria depois, ela não sabia exatamente o que esperar, mas sabia o suficiente, Eros Capón não era um homem gentil, ele era um homem que destruía coisas.
E a ideia de estar completamente à mercê dele fazia seu estômago se revirar.
Ele era enorme perto dela, forte, itimidante, aideia de ele simplesmente decidir tomá-la…
A ideia de não ter escolha… Aquilo a fazia perder o ar, ela apoiou as mãos no espelho.
Respirou fundo.
— Está apertado? — perguntou uma das costureiras.
— Não — respondeu Olivia.
Não era o vestido que apertava. Era o destino.
No corredor, passos pesados ecoaram.
A porta do quarto abriu.
Eros entrou.
As costureiras imediatamente abaixaram a cabeça, todos fazem isso em sua presença.
— Senhor Capón.
Ele não respondeu. Os olhos dele estavam fixos em Olivia, ela ainda estava diante do espelho, vestida de noiva.
O silêncio que caiu no quarto foi denso, Eros caminhou alguns passos para dentro. Observando,o vestido, o cabelo, os olhos.
Algo apertou dentro dele novamente, ele havia planejado tudo, cada detalhe, cada humilhação.
Mas vê-la ali…
Preparada para se tornar oficialmente parte da vida dele… Despertava algo inesperado.
Olivia percebeu o olhar dele, e lentamente virou-se, os olhos se encontraram.
— Está satisfeito? — perguntou ela, com a voz baixa, cansada.
— Muito. — respondeu Eros.
Ela apertou os lábios.
— Espero que esteja.
— Por quê?
— Porque minha vida acabou por causa disso.
Ele inclinou a cabeça.
— Sua vida está apenas começando.
Ela riu, um riso triste.
— Você realmente acredita nisso?
Eros não respondeu, ele continuou olhando para ela, e pela primeira vez desde que planejou aquela vingança…
Uma dúvida pequena, incômoda e perigosa começou a surgir dentro dele, porque destruir Carlos Dante era fácil, mas viver com Olivia Dante… talvez fosse muito mais complicado.
E a pior parte? Ele não tinha certeza se queria que fosse fácil.