A DANÇA DA HUMILHAÇÃO
— Eu não ia beijar ela.
Santiago fala ao se aproximar de Eros, com um copo de uísque nas mãos, ofereceu um a Eros que estava parado, erto, como uma pilastra fria e sem vida. Eros recusa a bebida.
— Eu sei.
A voz de Eros é fria como gelo, e Santiago ja sabe que o amigo está em ódio puro por dentro, Santiago só não sabe do que se trata todo esse ódio.
— Ela é apenas uma menina, só estava confusa.
— Não sinta pena dela, Santiago. Ela faz parte de uma vingança, ter sentimentos por ela piora tudo.
Eros diz, mas Santiago não sabe definir se ele disse isso para ele mesmo.
— Eu sei. Mas ainda sim, não tem como não olhar para ela e ver apenas inocência.
— Desde quando você sente pena de alguém?
— Não sinto. São apenas fatos.
— Ela tem sangue do Dante, merece o seu destino.
— E qual o destino dela, Eros?
Eros fica calado, ele sabia o que faria, seu pai e ele planejaram a anos, agora que finalmente está acontecendo, não era hora para hesitar, mas…
Eros esta com o olhar nela, ele simplesmente não consegue parar de olhar. Ela estava linda, o vestido, a maquiagem, ela era linda, mas vestida de noiva, era mesmo uma perfeição. Porém o olhar de medo, o choro que não cessava, era silencioso, ela não fazia escândalo, só escorriam as lágrimas, de dor, de medo.
E mesmo assim era a criatura mais linda que ja viu na vida.
— O destino dela é sofrer.
— Se está dizendo, estou com você até o fim.
— Eu sei.
— Só…
Santiago hesita por um instante. Não sabia como abordar esse assunto com Eros.
— Ela é virgem. — fala por fim.
— Eu sei, eu ouvi tudo que ela te disse.
— Não destrua a noite dela, mesmo que a quebre depois, de uma primeira noite digna a menina.
— Porque está preocupado com isso.
Eros desvia o olhar de Olvia para encarar Santiago por alguns instantes.
— Só… fiquei com pena da menina. Ela tinha sonhos, ela tinha uma vida, e tudo foi tirado dela, para ser destruido, pelo menos isso poderia ser bom.
— O que farei com ela não é da sua conta, e nunca mais sinta pena dela. Nunca mais sinta nada por ela, sentimento algum.
— Eu não sinto nada. Só estou te falando algo, como sempre falei.
— Não quero que fale dela.
Santiago sustentou o olhar de Eros por alguns segundos, o silêncio entre os dois não era comum.
Eles sempre se entendiam. Sempre.Mas não agora, havia algo diferente no ar, algo que nenhum dos dois estava nomeando.
— Não quero que fale dela. — Eros finalizou.
A voz dele não era alta, mas era definitiva.
Santiago respirou fundo, levando o copo de uísque aos lábios.
— Certo.
Ele sabia quando parar, mas também sabia quando observar, e naquele momento…
Eros Capón estava longe de ser o homem controlado que sempre foi.
Santiago desviou o olhar discretamente.
Seguindo a direção do olhar do amigo.
Olivia.
Ela estava do outro lado do salão, sozinha, mesmo cercada por dezenas de pessoas, era impossível não notar, o vestido branco contrastava com todo o ambiente escuro, luxuoso e pesado da festa. Ela parecia deslocada… como luz em um lugar que só conhecia sombras.
Mas não era isso que prendia atenção, era o rosto dela, as lágrimas silenciosas, o jeito que ela mantinha o queixo erguido mesmo estando claramente destruída, e ainda sim com orgulho. Aquilo… era perigoso.
— Você está olhando demais para alguém que só quer destruir.— Santiago disse baixo.
Eros não respondeu, mas também não desviou o olhar.
— Está chamando atenção. — continuou Santiago.
— Não me importa.
A resposta veio seca.
— Deveria importar.
Silêncio.
— Você não olha assim pra ninguém.
Eros virou lentamente o rosto, os olhos azuis cravaram em Santiago, frio, perigoso.
— Está dizendo que me conhece?
Santiago arqueou levemente a sobrancelha.
— Mais do que qualquer um.
O clima pesou, mas não houve confronto.
Porque ambos sabiam. Era verdade, Eros desviou o olhar novamente, de volta para ela.
— Ela é só uma peça — disse mais baixo dessa vez, como se precisasse reafirmar.
— Então pare de olhar como se não fosse.
Santiago respondeu sem pensar. Erro. O olhar de Eros voltou, mais escuro, mais perigoso.
— Cuidado.
Santiago ergueu levemente as mãos.
— Só estou dizendo o que vejo.
— Então pare de ver.
O silêncio voltou, mais pesado, mais tenso, a música no salão aumentou levemente, o som de violinos preenchia o ambiente, misturado ao burburinho das conversas e ao tilintar de taças de cristal.
Mas havia algo prestes a acontecer. Eros percebeu, Santiago também.
— Vai começar. — murmurou Santiago.
Eros nem precisou perguntar o quê, a tradição, a dança dos noivos, o centro do salão começou a ser aberto, os convidados se afastavam lentamente, formando um grande círculo.
As luzes foram suavizadas, a música mudou, mais lenta, mais íntima, mais… simbólica. Uma das mulheres da casa se aproximou de Olivia.
Falou algo baixo, ela hesitou, mas acabou sendo conduzida até o centro da pista, sozinha, todos os olhares voltaram para ela.
Eros sentiu algo apertar no peito, irritação, ou algo pior. Olivia parou no centro, as mãos levemente trêmulas ao lado do corpo, ela olhou ao redor, procurando, sabendo quem deveria estar ali.
Esperando.
Eros deu um passo à frente.
Santiago observou.
— Não faz isso. — disse baixo.
Eros não respondeu, mas não foi em direção a Olivia, ele passou direto por ela, sem sequer olhar, o movimento foi lento, calculado, c***l, o salão inteiro percebeu.
Olivia também, k ar pareceu desaparecer por um segundo, ela virou levemente o rosto, vendo, sentindo. Eros caminhava até Amália sem hesitação, sem pausa, sem remorso.
Ele parou diante dela, estendeu a mão.
— Dança comigo.
Amália sorriu, um sorriso vitorioso, quase predatório, ela colocou a mão na dele sem hesitar.
— Sempre.
Eros puxou Amália para o centro da pista, e então começou, a dança, como se fosse ela a noiva, como se Olivia… não existisse.
O salão murmurou baixo, mas audível, alguns chocados, outros entretidos, outros… satisfeitos, Olivia ficou parada, no centro, sozinha.
O vestido branco agora parecia pesado demais, as lágrimas voltaram, mas ela não chorou alto,não fez cena, apenas ficou ali, assistindo.
Enquanto o homem que acabara de se casar com ela…
Dançava com outra mulher.
Amália estava radiante, k corpo colado ao de Eros, a mão dele firme em sua cintura, 3la inclinou levemente o rosto, sussurrando perto do ouvido dele.
— Era assim que deveria ter sido desde o começo.
— Não. Não era.
Eros respondeu rápido demais, mas não a afastou, Amália fechou os olhos por um instante, aproveitando, sentindo, saboreando, porque aquilo era vitória, ela abriu os olhos.
E olhou diretamente para Olivia, e sorriu, lento, c***l, provocador. Olivia sentiu como uma faca, mas não desviou o olhar, não dessa vez, não mais.
Santiago observava tudo, o maxilar travado, as mãos fechadas.
— Isso foi baixo… até pra você.
Eros ignorou, mas o corpo dele, esstava rígido, tenso demais, lorque mesmo dançando com Amália… Ele sabia. Sabia exatamente onde Olivia estava, sabia que ela ainda estava ali, sabia que estava olhando.
E isso…
Aquilo o incomodava, mais do que deveria, ele apertou levemente a cintura de Amália, mas não era ela que ele queria sentir, e isso o irritou.
— Você está distraído — Amália murmurou.
— Não estou.
— Está sim.
Ela se aproximou mais.
— Está pensando nela.
O silêncio foi resposta. Amália endureceu, mas não deixou transparecer.
— Ela está sendo humilhada — disse suavemente — exatamente como você queria.
Eros finalmente falou.
— Eu sei.
Mas não soava satisfeito, e isso Amália percebeu e odiou, do outro lado do salão…
Olivia finalmente se moveu, um passo, depois outro saindo do centro da pista, cada passo era pesado, mas firme, ela não iria correr, não iria fugir, não iria dar esse gostinho, ela parou perto de uma das mesas, respirou fundo.
E então levantou o rosto novamente, se ele queria humilhar, ela não iria quebrar, não ali, não na frente de todos.
Santiago a observava, e pela primeira vez, sentiu algo diferente, respeito, lorque qualquer outra pessoa, já teria desmoronado, mas ela não, ela estava de pé, e isso…
Era perigoso, música terminou, plausos começaram, Eros soltou Amália lentamente.
Mas seus olhos… Foram direto para Olivia, pela primeira vez naquela noite, ele percebeu uma coisa, ela não tinha quebrado, talvez…
Talvez isso fosse o maior problema de todos.