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1297 Words
O CORAÇÃO CRUEL Os dias que se seguiram foram marcados por silêncio, não um silêncio tranquilo, mas aquele que grita dentro do peito, que pesa nos ombros e não permite descanso. Carlos Dante se movia como um homem condenado, cada passo calculado, cada palavra medida, nada de ordens gritadas, nada de reuniões ostensivas, tudo era feito nas sombras, longe dos olhos errados. Especialmente longe dos olhos de Eros Capón. O Coração c***l. Era assim que o chamavam nos corredores do poder, nas bocas sussurradas dos homens que ainda respiravam depois de cruzar seu caminho, frio, implacável, um homem que não perdoava, não esquecia e não recuava. Dante sabia disso melhor do que ninguém. Sabia desde o dia em que pisaria em solo espanhol trazendo consigo ambição demais e escrúpulos de menos. Naquela época, o mundo era simples, crescer ou morrer. A família Capón era um obstáculo. E obstáculos eram removidos. Mas nunca fora o plano matar uma mulher. Muito menos uma criança, o incêndio, os tiros, o caos que saiu do controle, ele lembrava do rosto de Eros ainda jovem, coberto de sangue e fuligem, o grito mudo preso na garganta ao encontrar os corpos. Lembrava da cicatriz sendo aberta, da vida sendo partida em duas. E agora o passado cobrava juros. — Olivia não vai pagar por isso. Dante murmurava para si mesmo enquanto observava a filha sair de casa todas as manhãs, sorridente, alheia à tempestade que se formava sobre sua cabeça. Ela ainda falava de aulas, de música, de sonhos que não cabiam naquele mundo sujo, e era exatamente por isso que ele precisava agir. O plano era simples, brutalmente simples. Brasil. Longe da Espanha, longe de Capón, longe da vingança, ali, Dante ainda tinha aliados, homens que lhe deviam favores, lealdade, sangue. Pessoas capazes de esconder Olivia, protegê-la, dar a ela uma vida que não fosse construída sobre cadáveres. Ele pagaria o preço, sabia disso, mas Olivia não, naquela noite, Olivia chegou em casa mais tarde do que o habitual. As aulas de balé haviam se estendido, o ensaio para uma apresentação futura exigia mais dela. O corpo doía, mas o sorriso permanecia. Ela entrou no hall e estranhou a ausência dos sons habituais, não havia música. Não havia vozes. Apenas homens que ela não reconhecia totalmente, movimentando-se rápido demais, com malas nas mãos. — Pai? — chamou, confusa. Carlos Dante apareceu no topo da escada. O rosto duro. Os olhos fundos. A expressão de quem já havia tomado uma decisão irreversível. — Olivia, vá para o seu quarto — disse, sem rodeios. Ela franziu a testa. — Aconteceu alguma coisa? Ele desceu os degraus em passos firmes. — Vamos viajar. Ela piscou, surpresa. — Viajar? Agora? — Sim. — Mas… pra onde? — Arrume apenas o essencial — respondeu, evitando o olhar dela — documentos, roupas confortáveis. — Pai — a voz dela tremeu levemente — o que está acontecendo? Estamos fugindo? Ele parou diante dela, por um segundo, quase cedeu, quase contou tudo, nas a verdade só a apavoraria mais. — Confie em mim. — disse apenas. Olivia engoliu seco, mas assentiu. — Tá… tá bom. Ela subiu, o coração acelerado, sentindo que algo estava muito errado, mesmo sem saber o quê, menos de uma hora depois, eles estavam fora da mansão. Nada de carros conhecidos, nada de rotas usuais, Dante havia estudado cada caminho alternativo, cada estrada esquecida, cada trajeto fora do alcance imediato da rede Capón. O carro avançava pela noite, Olivia observava pela janela, abraçando a própria bolsa. — Pai… — murmurou — você está me assustando. Ele estendeu a mão e segurou a dela. — Vai ficar tudo bem — mentiu com convicção. O aeroporto privado surgia à frente quando o estômago de Dante se revirou, silêncio demais. Luzes apagadas demais, homens demais. O primeiro tiro ecoou como um trovão. — Abaixa! — Dante gritou, puxando Olivia para baixo do painel. O caos explodiu em segundos. Gritos, disparos, homens correndo, corpos caindo, Olivia nunca tinha visto sangue daquela forma, nunca tinha ouvido ossos quebrando, ela tremia, as mãos tapando os ouvidos, o choro preso no peito. — Pai! — gritou, desesperada. Dante saiu do carro com a arma em punho, revidando, tentando abrir caminho, tentando ganhar tempo. Era inútil. Eles estavam cercados, homens surgiam de todos os lados, vestidos de preto, organizados, precisos, não atiravam a esmo. Avançavam como uma máquina. Então ele apareceu,Eros Capón caminhava pelo cenário de morte como se fosse imune a ele. Imponente, alto, a postura ereta, os ombros largos sob o casaco escuro, ls cabelos negros caíam de forma desleixada, contrastando com a dureza do rosto. Os olhos azuis, um deles morto, esbranquiçado, cego, atravessavam tudo. A cicatriz rasgava sua face como uma assinatura do inferno. Assustadora, hipnotizante, Olivia, mesmo em pânico, não conseguiu desviar o olhar, ele era terrível, e absurdamente bonito, o reconhecimento foi imediato. — Capón… — Dante rosnou. Eros não respondeu, apenas levantou a mão. — Nenhum vivo. Os tiros recomeçaram, Homens de Dante caíam um a um,inertes, envoltos em poças de sangue que se formava, era a cena mais pavorosa que Olivia ja viu na vida. O brasileiro avançou com um grito, disparando, acertando dois antes de ser atingido com violência no rosto. Caiu de joelhos. Eros se aproximou, oprimeiro chute foi brutal, depois outro, e outro, Olivia gritou. — Para! — ela correu até eles, sendo segurada por um dos homens — Por favor, para! Dante tentava se levantar, o rosto coberto de sangue. — Não encosta nela! — berrou, cuspindo vermelho. Eros o agarrou pelo colarinho e o levantou como se não pesasse nada. — Você ainda acha que tem direito de pedir alguma coisa? — a voz dele era baixa, controlada, mais assustadora do que qualquer grito. O soco que veio em seguida fez o som seco de osso quebrando. Olivia soluçou. — Por favor! — implorou, as lágrimas escorrendo — Ele é meu pai! Para! Eros não se virou, não a olhou, como se ela não existisse, e para ele não existia mesmo, era apenas alvo de vingança Dante caiu novamente no chão, gemendo. — Não era para aquilo ter acontecido — Dante murmurou, a voz falhando — meu sócio na epoca, ele não me disse que teria crianças… saiu do controle… eu não queria… Eros se abaixou, ficando à altura dele. — Nós sabemos que em nosso mundo ninguém é inocente, Dante. Ele segurou o rosto de Dante com força. — E agora você vai pagar por cada segundo. Olivia se desvencilhou e caiu de joelhos ao lado do pai, tentando ajudar ele, agora Eros olhava a pequena figura, linda demais para aquele mundo, mas estava e isso era sentença. — Por favor… — repetiu — eu faço qualquer coisa. O pedido ecoou, Eros finalmente virou o rosto. Por um segundo, os olhos azuis passaram por ela como lâminas, frios, vazios de compaixão, não havia curiosidade, não havia piedade, apenas posse antecipada ?as ele não disse nada. Virou-se novamente para Dante. — Levem-no — ordenou. Os homens obedeceram, Olivia tentou segui-los, mas mãos fortes a seguraram. — Pai! — gritou, desesperada. — Soltem meu pai. Dante tentou olhar para ela uma última vez. — Me perdoa… — murmurou. — Eu vou ajeitar tudo, eu prometo minha filha. Eros caminhou até ela lentamente. Parou diante dela. Ela levantou o rosto, tremendo de ódio e medo. — Eu te odeio. — disse, com a voz quebrada. Ele a observou por um segundo a mais. — Ainda não — respondeu — Mas vai. E se afastou. A noite engoliu tudo, e Olivia Dante, sem entender o mundo que desmoronava à sua volta, sentiu pela primeira vez que sua vida havia acabado ali, e que o homem de coração c***l seria o centro de sua ruína.
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