A LEI DO SANGUE
A ordem de Eros Capón foi dada com a mesma naturalidade com que outros homens pediriam um café.
— Levem a garota.
Não houve grito, não houve raiva, apenas sentença,Olivia foi puxada para longe do pai enquanto ainda chamava por ele, a voz rasgada pelo desespero.
Seus dedos tentaram se agarrar à camisa de Dante, mas mãos duras a arrancaram dali, o mundo parecia girar rápido demais, barulhento demais.
— Pai! — ela gritou outra vez, até sua garganta arder.
Carlos Dante tentou se erguer, mesmo com o corpo falhando.
— Não encosta nela! — urrou, cuspindo sangue.
Eros não se virou.
— Levem o brasileiro para o galpão — disse apenas.
O galpão.
A palavra era conhecida, temida, era onde homens deixavam de ser homens, para serem apenas objeros de tortura a homens crueis que queriam informações, vingança, poder. Dante foi arrastado como um saco de carne, jogado no banco traseiro de um carro diferente, o cheiro de ferro e gasolina já anunciava o que viria. Ele fechou os olhos por um segundo, respirando com dificuldade.
Eu falhei, pensou, mas ela não vai pagar.
O galpão ficava afastado da cidade, um prédio antigo, esquecido, cercado por mato e silêncio, qs paredes carregavam ecos de gritos que nunca mais encontraram saída.
Dante foi amarrado a uma cadeira de metal no centro do espaço vazio. A luz pendente balançava levemente, lançando sombras distorcidas.
Eros entrou por último.
Tirou o casaco com calma, dobrou as mangas da camisa escura, cada gesto era lento, calculado, como se estivesse preparando uma cerimônia.
— Você tentou fugir — Eros disse, caminhando ao redor dele — tentou roubar o que é meu outra vez.
Dante levantou o rosto inchado.
— Ela não é sua.
O soco veio sem aviso, seco, preciso, a cabeça de Dante tombou para o lado.
— Tudo o que toca minha vida — Eros respondeu — se torna meu.
Ele fez um sinal.
Os homens começaram, a dor veio em ondas. Não era pressa, não era explosão, era método. Cada golpe tinha propósito. Cada pausa aumentava o terror.
Dante gritava, gemia. Sangrava.
Mas não implorava.
Eros observava tudo em silêncio, apreciando aquilo que estava acostumado a fazer durante toda sua vida.
Quando finalmente se aproximou, ajoelhou-se à frente dele, o olho azul cravado em seu rosto destruído, o outro morto refletindo apenas vazio.
— Olha pra mim — ordenou.
Dante forçou os olhos abertos.
— Você vai convencê-la — Eros disse, a voz baixa — vai fazê-la aceitar o casamento.
Dante riu, um som quebrado, cheio de sangue.
— Nunca… — cuspiu — você é um monstro.
Eros inclinou a cabeça, pensativo.
— Se você não fizer isso — continuou, ignorando — tudo o que eu fizer aqui… — tocou levemente o ombro de Dante — eu farei com ela.
O riso morreu, o silêncio que se seguiu foi absoluto.
— Não… — Dante sussurrou, o pânico finalmente vencendo — não ela.
— Aqui se faz, aqui se paga — Eros respondeu — você destruiu minha família. Agora eu destruo a sua.
Dante começou a chorar, não por ele, por Olivia.
— Ela é inocente… — murmurou — não sabe de nada… não entende esse mundo.
— Vai aprender — Eros disse.
Um último golpe.
— Ou você faz com que ela aceite… — ele se levantou — ou você assiste.
Dante desabou.
— Eu… — respirou com dificuldade — eu faço.
Eros sorriu, não de alegria.
De vitória.
— Ótimo.
Ele virou as costas.
— Limpem ele.
O galpão voltou a cheirar a sangue e medo.
Olivia foi levada de volta para casa, mas nada parecia igual, os portões se abriram, mas os homens que guardavam a entrada não eram os mesmos.
Os olhares eram frios, estranhos, nenhum sorriso, nenhuma palavra gentil, ela saiu do carro devagar.
— Onde está meu pai? — perguntou, a voz falhando.
Silêncio absoluto, ninguém sequer ousava olhar a prometida de Eros Capón era sentença de morte. Mesmo que todos saibam que era vingança, que era um ato c***l, ninguém ousava mexer com o que pertencia a Eros.
— Eu quero falar com ele.
Um dos homens finalmente respondeu, a voz baixa, ameaçadora.
— Coopere, señorita. Capón não perdoa quem resiste.
O nome caiu como uma lâmina.
— Capón? — Olivia sentiu o estômago revirar — o que meu pai tem a ver com isso?
Ninguém respondeu, ea tentou correr, dois passos, e já foi segurada pelos braços.
— Me solta! — gritou — eu quero ir embora!
— Não faça isso piorar — o homem disse — pelo seu próprio bem.
Ela foi levada escada acima, empurrada para dentro do próprio quarto, a porta se fechou, trancada em sua própria casa.
O lugar que sempre fora seguro agora parecia pequeno demais, o cheiro era o mesmo, os móveis os mesmos, mas algo estava errado, tudo estava errado, ela bateu na porta.
— Pai! — gritou até perder a voz.
Nada.
Horas se passaram, o medo se transformou em exaustão, ela se encolheu na cama, abraçando os joelhos, chorando em silêncio até o corpo ceder, quando dormiu, foi por puro esgotamento, o pesadelo a acordou.
Um estalo seco, 3la sentou na cama de supetão, o coração disparado, o quarto não estava vazio.
Ele estava ali.
Encostado na parede, parcialmente oculto pela sombra, como se sempre tivesse feito parte daquele espaço, alto, imóvel, dominante, o homem do aeroporto, o mesmo olhar de gelo.
A cicatriz rasgando o rosto como uma ameaça permanente, Olivia sentiu o corpo travar.
— O que… — a voz não saiu.
Ele deu um passo à frente, o olho azul a analisava como se ela fosse um objeto defeituoso. O outro, morto, parecia ainda mais perturbador.
— Tem nojo do que vê… — disse, a voz grave, carregada de desprezo — chica guapa de ojos bonitos?
Ela se levantou de um salto.
— Quem é você? — gritou, a voz finalmente explodindo — Sai do meu quarto!
Ele não se mexeu.
— Esta casa não é mais sua. — respondeu calmamente.
— Você não manda aqui!
Eros riu baixo, um riso assustador, frio, que ela podia sentir na espinha.
— Eu mando em tudo o que seu pai toca.
Ela o encarou, tremendo.
— Onde ele está? O que você fez com ele?!
Ele se aproximou até ficar a poucos passos, era tão alto que Olivia se perdia nele.
— Ele está vivo — disse — por enquanto.
As pernas dela fraquejaram, como se estivessem feitas de papel.
— Você é doente — sussurrou — um psicopata.
Eros inclinou-se levemente, ficando à altura do rosto dela.
— E você — respondeu — é minha dívida sendo paga.
Ela sentiu o ar faltar.
— Eu nunca vou aceitar nada seu.
O olhar dele escureceu.
— Vai.
Ele se virou para sair.
— Descanse — disse, já à porta — amanhã seu pai vai conversar com você.
A porta se fechou, o trinco soou alto demais, Olivia caiu sentada no chão, abraçando a si mesma, o mundo que ela conhecia tinha acabado, e o homem que agora dominava sua vida não tinha coração. Apenas contas a acertar.