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1196 Words
A LEI DO SANGUE A ordem de Eros Capón foi dada com a mesma naturalidade com que outros homens pediriam um café. — Levem a garota. Não houve grito, não houve raiva, apenas sentença,Olivia foi puxada para longe do pai enquanto ainda chamava por ele, a voz rasgada pelo desespero. Seus dedos tentaram se agarrar à camisa de Dante, mas mãos duras a arrancaram dali, o mundo parecia girar rápido demais, barulhento demais. — Pai! — ela gritou outra vez, até sua garganta arder. Carlos Dante tentou se erguer, mesmo com o corpo falhando. — Não encosta nela! — urrou, cuspindo sangue. Eros não se virou. — Levem o brasileiro para o galpão — disse apenas. O galpão. A palavra era conhecida, temida, era onde homens deixavam de ser homens, para serem apenas objeros de tortura a homens crueis que queriam informações, vingança, poder. Dante foi arrastado como um saco de carne, jogado no banco traseiro de um carro diferente, o cheiro de ferro e gasolina já anunciava o que viria. Ele fechou os olhos por um segundo, respirando com dificuldade. Eu falhei, pensou, mas ela não vai pagar. O galpão ficava afastado da cidade, um prédio antigo, esquecido, cercado por mato e silêncio, qs paredes carregavam ecos de gritos que nunca mais encontraram saída. Dante foi amarrado a uma cadeira de metal no centro do espaço vazio. A luz pendente balançava levemente, lançando sombras distorcidas. Eros entrou por último. Tirou o casaco com calma, dobrou as mangas da camisa escura, cada gesto era lento, calculado, como se estivesse preparando uma cerimônia. — Você tentou fugir — Eros disse, caminhando ao redor dele — tentou roubar o que é meu outra vez. Dante levantou o rosto inchado. — Ela não é sua. O soco veio sem aviso, seco, preciso, a cabeça de Dante tombou para o lado. — Tudo o que toca minha vida — Eros respondeu — se torna meu. Ele fez um sinal. Os homens começaram, a dor veio em ondas. Não era pressa, não era explosão, era método. Cada golpe tinha propósito. Cada pausa aumentava o terror. Dante gritava, gemia. Sangrava. Mas não implorava. Eros observava tudo em silêncio, apreciando aquilo que estava acostumado a fazer durante toda sua vida. Quando finalmente se aproximou, ajoelhou-se à frente dele, o olho azul cravado em seu rosto destruído, o outro morto refletindo apenas vazio. — Olha pra mim — ordenou. Dante forçou os olhos abertos. — Você vai convencê-la — Eros disse, a voz baixa — vai fazê-la aceitar o casamento. Dante riu, um som quebrado, cheio de sangue. — Nunca… — cuspiu — você é um monstro. Eros inclinou a cabeça, pensativo. — Se você não fizer isso — continuou, ignorando — tudo o que eu fizer aqui… — tocou levemente o ombro de Dante — eu farei com ela. O riso morreu, o silêncio que se seguiu foi absoluto. — Não… — Dante sussurrou, o pânico finalmente vencendo — não ela. — Aqui se faz, aqui se paga — Eros respondeu — você destruiu minha família. Agora eu destruo a sua. Dante começou a chorar, não por ele, por Olivia. — Ela é inocente… — murmurou — não sabe de nada… não entende esse mundo. — Vai aprender — Eros disse. Um último golpe. — Ou você faz com que ela aceite… — ele se levantou — ou você assiste. Dante desabou. — Eu… — respirou com dificuldade — eu faço. Eros sorriu, não de alegria. De vitória. — Ótimo. Ele virou as costas. — Limpem ele. O galpão voltou a cheirar a sangue e medo. Olivia foi levada de volta para casa, mas nada parecia igual, os portões se abriram, mas os homens que guardavam a entrada não eram os mesmos. Os olhares eram frios, estranhos, nenhum sorriso, nenhuma palavra gentil, ela saiu do carro devagar. — Onde está meu pai? — perguntou, a voz falhando. Silêncio absoluto, ninguém sequer ousava olhar a prometida de Eros Capón era sentença de morte. Mesmo que todos saibam que era vingança, que era um ato c***l, ninguém ousava mexer com o que pertencia a Eros. — Eu quero falar com ele. Um dos homens finalmente respondeu, a voz baixa, ameaçadora. — Coopere, señorita. Capón não perdoa quem resiste. O nome caiu como uma lâmina. — Capón? — Olivia sentiu o estômago revirar — o que meu pai tem a ver com isso? Ninguém respondeu, ea tentou correr, dois passos, e já foi segurada pelos braços. — Me solta! — gritou — eu quero ir embora! — Não faça isso piorar — o homem disse — pelo seu próprio bem. Ela foi levada escada acima, empurrada para dentro do próprio quarto, a porta se fechou, trancada em sua própria casa. O lugar que sempre fora seguro agora parecia pequeno demais, o cheiro era o mesmo, os móveis os mesmos, mas algo estava errado, tudo estava errado, ela bateu na porta. — Pai! — gritou até perder a voz. Nada. Horas se passaram, o medo se transformou em exaustão, ela se encolheu na cama, abraçando os joelhos, chorando em silêncio até o corpo ceder, quando dormiu, foi por puro esgotamento, o pesadelo a acordou. Um estalo seco, 3la sentou na cama de supetão, o coração disparado, o quarto não estava vazio. Ele estava ali. Encostado na parede, parcialmente oculto pela sombra, como se sempre tivesse feito parte daquele espaço, alto, imóvel, dominante, o homem do aeroporto, o mesmo olhar de gelo. A cicatriz rasgando o rosto como uma ameaça permanente, Olivia sentiu o corpo travar. — O que… — a voz não saiu. Ele deu um passo à frente, o olho azul a analisava como se ela fosse um objeto defeituoso. O outro, morto, parecia ainda mais perturbador. — Tem nojo do que vê… — disse, a voz grave, carregada de desprezo — chica guapa de ojos bonitos? Ela se levantou de um salto. — Quem é você? — gritou, a voz finalmente explodindo — Sai do meu quarto! Ele não se mexeu. — Esta casa não é mais sua. — respondeu calmamente. — Você não manda aqui! Eros riu baixo, um riso assustador, frio, que ela podia sentir na espinha. — Eu mando em tudo o que seu pai toca. Ela o encarou, tremendo. — Onde ele está? O que você fez com ele?! Ele se aproximou até ficar a poucos passos, era tão alto que Olivia se perdia nele. — Ele está vivo — disse — por enquanto. As pernas dela fraquejaram, como se estivessem feitas de papel. — Você é doente — sussurrou — um psicopata. Eros inclinou-se levemente, ficando à altura do rosto dela. — E você — respondeu — é minha dívida sendo paga. Ela sentiu o ar faltar. — Eu nunca vou aceitar nada seu. O olhar dele escureceu. — Vai. Ele se virou para sair. — Descanse — disse, já à porta — amanhã seu pai vai conversar com você. A porta se fechou, o trinco soou alto demais, Olivia caiu sentada no chão, abraçando a si mesma, o mundo que ela conhecia tinha acabado, e o homem que agora dominava sua vida não tinha coração. Apenas contas a acertar.
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