5

1372 Words
O SACRIFÍCIO DO PAI Carlos Dante nunca havia sentido medo daquela forma, não o medo comum, aquele que se infiltra aos poucos e permite fuga. Era um medo absoluto, paralisante, que se instalava nos ossos e não deixava espaço para esperança. Ele despertou em um quarto escuro, de paredes nuas, o corpo inteiro latejando como se tivesse sido esmagado por dentro. Cada respiração queimava, as mãos estavam livres, mas isso não significava liberdade, significava apenas que não havia mais para onde ir, ele tentou se sentar e falhou na primeira tentativa, o gosto metálico do sangue ainda estava presente na boca. Quando finalmente conseguiu, apoiado na cama estreita, lembrou-se de tudo com clareza c***l, o galpão, os golpes,a ameaça. “Tudo o que eu fizer com você, farei com ela.” A imagem de Olivia ajoelhada no asfalto, gritando por ele, rasgou seu peito novamente. — Filho da p**a… — murmurou, a voz rouca. A porta se abriu, dois homens entraram, não disseram nada, apenas jogaram uma camisa limpa sobre a cama. — O chefe quer você apresentável — disse um deles, sem emoção. Carlos riu, um som amargo. — Apresentável pra quê? — cuspiu — Pra implorar melhor? O homem não respondeu, minutos depois, ele foi levado de volta para casa. Sua casa, mas nada ali lhe pertencia mais, os corredores pareciam mais longos, mais frios, os homens de Eros estavam em todos os lugares. Cada olhar era um lembrete silencioso de que ele havia perdido. A porta do quarto de Olivia estava fechada. Guardada. — Não — Dante parou, o coração disparando — eu preciso falar com ela agora. — Ordem do Capón — respondeu o segurança — quando ele mandar. O nome soava como uma sentença,horas se passaram, cada segundo era uma tortura diferente, Dante andava de um lado para o outro como um animal enjaulado, ensaiando palavras que nunca deveriam ser ditas, como convencer a própria filha a aceitar um destino que ele mesmo a empurrara? Quando finalmente a porta se abriu, suas pernas quase cederam. — Você tem dez minutos — disse o homem. Dante entrou, Olivia estava sentada na cama, abraçando os joelhos, o rosto inchado de tanto chorar. Quando levantou os olhos e o viu, correu até ele. — Pai! — segurou o rosto dele com cuidado — Meu Deus… o que fizeram com você? Ele fechou os olhos, engolindo o choro. — Não olha assim pra mim — pediu, a voz falhando — eu não mereço. Ela o abraçou com força, como se ainda fosse aquela menina pequena que acreditava que ele podia consertar tudo. — O que está acontecendo? — perguntou, desesperada — Quem é aquele homem? Por que ele estava no meu quarto? Dante se afastou lentamente. Sentou-se na poltrona, como se o peso do mundo tivesse esmagado suas costas. — Olivia… — começou — você precisa me ouvir até o fim. Ela assentiu, inquieta. — Eu errei — disse, sem rodeios — errei de formas que você nunca imaginou. As escolhas que fiz… construíram tudo o que temos, mas também destruíram outras vidas. Ela franziu a testa, sem entender o próprio pai, aquele que era seu melhor amigo, que sempre confiou de olhos fechados. — Pai, eu não entendo… — Eros Capón — o nome saiu pesado — perdeu a família por minha causa. O silêncio caiu entre eles. — O quê? — Olivia sussurrou. — Não era para ter acontecido daquele jeito — Dante continuou, a voz embargada — era para ser só uma tomada de poder… mas saiu do controle. A mãe dele… a irmã… morreram. Olivia levou a mão à boca. — Você… matou uma criança? Ele fechou os olhos, aquilo destruiu Carlos Dante — Eu não puxei o gatilho — respondeu — mas fui responsável. E isso é pior. Ela se levantou de repente. — Então tudo isso é culpa sua?! — a voz tremia entre choque e revolta. — Sim — respondeu — e agora ele quer cobrar. Ela começou a andar pelo quarto, respirando rápido. — Ele é louco! — disse — Ele não pode… ele não tem direito! Se você fez isso tem que pagar na justiça, pai. Isso foi crueldade demais, uma crianca. A decepção na voz dela quebra Dante, sua filha nunca falou naquele tom, era doloroso. — Ele tem poder — Dante respondeu, amargo — e isso é tudo que importa nesse mundo. Ela parou diante dele. — O que ele quer de mim? O coração de Dante se partiu ali. — Ele… — a palavra custou a sair — quer que você aceite se casar com ele. O mundo pareceu girar. — O quê?! — Olivia recuou — Eu? Porque? — Olivia, escuta… — Não! — ela gritou — Eu nunca vou aceitar isso! Nunca! — Se você não aceitar… — Dante levantou o olhar, os olhos marejados — ele vai te machucar. Ela riu, histérica. — Você está dizendo isso pra me assustar? Ele se levantou com dificuldade e puxou a camisa, mostrando as marcas roxas, os cortes, os hematomas ainda vivos. — Isso foi só para me convencer — disse — Ele prometeu fazer pior com você. Olivia empalideceu. — Pai… — a voz saiu fraca — você está me pedindo pra me entregar a um monstro. — Estou pedindo pra você viver — respondeu, ajoelhando-se diante dela — mesmo que isso me destrua, estou pedindo para ter paciência, eu vou reverter isso. Ela começou a chorar. — Você sempre disse que ninguém ia me machucar — soluçou — que eu estava segura. — Eu sei — confessou — porque achei que podia controlar tudo. Ela caiu sentada na cama, o rosto entre as mãos. — Eu tenho medo — sussurrou. Dante segurou as mãos dela. — Eu sei — disse — mas ele não vai te matar. Ele precisa de você viva. Isso… — respirou fundo — é a única coisa que me permite respirar. E eu preciso de tempo, para reverter isso. Ela levantou os olhos vermelhos. — E se eu disser não? Ele engoliu seco. — Então eu vou assistir enquanto ele quebra você — respondeu, a voz em pedaços — como ele me quebrou. O silêncio que se seguiu foi insuportável. — Eu te odeio por me colocar nisso. — Olivia disse, com uma franqueza que o destruiu. — Eu também — ele respondeu — todos os dias. Ela se levantou, indo até a janela, olhando para fora como se procurasse uma saída que não existia. — Ele vai estar sempre lá — murmurou — olhando pra mim como se eu fosse… nada. — Ele já te vê como parte da dívida — Dante disse — e dívidas, para ele, não desaparecem. Ela respirou fundo. — Eu tenho que casar? Porque casar? Porque nao matar, ja não seria vingança.— disse, finalmente. — Não, não posso te perder, eu vou dar um jeito. — Pai, eu prefiro morrer. — Não, ele não vai te matar, seria uma afronta grandiosa demais para a cupula que envolve nosso mundo, ele vai te usar para tirar tudo de mim, só peço que aguente. — Ele vai me tocar? Dante soluça cheio de dor, aquel pergunta acaba com seu auto controle, sua filha, sua menina, que cuidou sozinho desde que sua esposa morreu, que prometeu cuidar como uma princesa, sendo usada por um demônio, era doloroso demais, era o fim, mas senão fosse assim ele não teria chance de tirar ela viva de tudo. Dante sentiu o corpo ceder. — Olivia… — tentou. — Desculpa. — Pai? Você acabou com a minha vida. — Eu sei. — Vai me tirar de lá? — Eu vou. — Eu vou aceitar então, mas se me abandonar nas maos desse monstro, eu nunca o perdoarei. — Não vou. Dante chorou, não de alívio, mas de culpa eterna, do lado de fora do quarto, Eros Capón ouviu tudo em silêncio. E pela primeira vez em muitos anos, sentiu algo parecido com satisfação completa, a vingança estava selada. E o preço pago era perfeito. Se casaria com a menina, a destruiria, e faria questao que Dante visse tudo, e quando tudo dele estivesse em suas mãos, fecharia sua vingança com chave de ouro.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD