Nicholas chegou em casa ainda antes do meio-dia.
O sol batia direto no pequeno quintal da frente, iluminando o portão enferrujado que rangia sempre que era aberto. Ele entrou devagar, como se o corpo estivesse alguns segundos atrás da própria vontade. Fechou o portão com cuidado excessivo, atravessou os poucos metros até a porta e entrou.
A casa era simples. Simples demais.
Um quarto. Cozinha e sala divididas por uma parede americana já marcada pelo tempo. Um banheiro.
Nada mais.
Nada que lembrasse, nem de longe, os corredores intermináveis de um castelo com mais de trezentos quartos, salões que ecoavam passos, alas inteiras reservadas a hóspedes, conselheiros, guardas, criados. Nada de vitrais, tapeçarias antigas ou lareiras monumentais.
Apenas silêncio.
E, por algum motivo, a primeira coisa que lhe veio à mente não foi o castelo.
Foi Sophie.
O jeito preocupado com que ela o olhara antes de fechar o consultório. O cuidado excessivo na voz. A sensação incômoda de tê-la afastado sem explicação.
Nicholas fechou a porta atrás de si, jogou a chave sobre a mesinha de centro e se deixou cair no sofá como se o corpo finalmente tivesse desistido de sustentar qualquer postura.
— Sua Alteza Real… — murmurou, encarando o teto baixo.
Soltou uma risada sem humor.
— Só pode ser piada.
Passou a mão pelo rosto, trincando o maxilar.
— Tem anos que ninguém me chama assim.
O título parecia estrangeiro na própria boca. Um peso que ele havia aprendido a ignorar, a empurrar para longe, a fingir que não existia. Aqui, ele era só Nicholas. O veterinário. O homem comum. O homem que gostava de chegar cansado em casa e saber exatamente o que o esperava no dia seguinte.
Ou quem.
Suspirou fundo.
Pegou o celular do bolso e abriu o e-mail outra vez.
Leu.
Releu.
Leu de novo.
A convocação continuava ali, intacta, fria, irredutível. Cada palavra parecia calculada para lembrá-lo de que aquela vida — o consultório, a rotina simples… Sophie — nunca deixara de ser provisória aos olhos deles.
Ele apagou a tela.
Acendeu de novo.
Continuou olhando, como se o e-mail pudesse mudar sozinho se encarado tempo suficiente.
Foi então que a tela brilhou outra vez.
Uma chamada recebida.
Nicholas nem precisou ler o nome.
— Claro… — murmurou, fechando os olhos por um instante.
Atendeu com um suspiro contido.
— Fala.
— Sumido — a voz do outro veio familiar, direta, sem cerimônia. — Vai fingir que não sabe por que eu tô ligando?
Nicholas soltou uma risada curta.
— Devo considerar coincidência você me ligar no mesmo dia em que recebo um e-mail do chanceler?
Do outro lado da linha, houve uma pausa breve. Depois, Matthias riu, daquele jeito que Nicholas conhecia desde a infância.
— Você sabe melhor do que ninguém que nada em Auren é coincidência.
Nicholas passou o polegar pelo anel, girando-o devagar.
— Então para de rodeio. Qual é o motivo da convocação?
— Oficialmente? — Matthias respondeu. — Não posso te dizer nada.
— E extraoficialmente?
Matthias suspirou.
— Extraoficialmente, todo mundo aqui acha que você ia fazer exatamente o que fez.
— Ignorar?
— Fingir que não viu e não responder — confirmou. — Sete anos depois, você continua previsível.
Nicholas sorriu de canto.
— Previsível ou coerente?
— Teimoso — Matthias corrigiu. — Sempre foi.
Nicholas recostou-se no sofá.
— Eu não quero voltar.
— Eu sei — Matthias respondeu sem hesitar. — Mas isso não muda nada.
O silêncio que se seguiu foi pesado, antigo, cheio de coisas não ditas.
— Você é o príncipe herdeiro — Matthias continuou, agora mais sério. — Querendo ou não, tem deveres com o reino.
Nicholas fechou os olhos, sabia do que o primo falava. O casamento com Katarina.
— Eu preferia não ter.
— Você sempre preferiu — Matthias rebateu, sem dureza. — Desde moleque. Enquanto todo mundo sonhava com o trono, você sonhava em fugir do castelo.
A mão de Nicholas apertou o celular.
— E ainda assim — Matthias prosseguiu — você realmente achou que podia sumir por sete anos sem que ninguém soubesse onde você estava.
Nicholas abriu os olhos, encarando o teto baixo da sala.
— Achei que, pelo menos, iam respeitar.
— E respeitaram — Matthias respondeu. — Seu pai respeitou. Sua mãe respeitou. Todo mundo respeitou. Mas isso não significa que esqueceram de você, está na hora de voltar.
Nicholas sentou-se no sofá, inclinando o corpo para frente.
— Então avisa ao rei que ele vai ter que vir aqui me arrastar — disse, a voz baixa, firme. — Porque eu não vou voltar para Auren por bem.
Do outro lado da linha, Matthias ficou em silêncio por alguns segundos.
Quando falou de novo, a voz veio mais baixa.
— Só toma cuidado com o que você tá tentando proteger, Nick.
Nicholas franziu o cenho.
— Como assim?
— Às vezes a gente foge achando que tá salvando alguma coisa… — Matthias hesitou. — E acaba só adiando o impacto.
Nicholas não respondeu.
Pensou em Sophie.
No jeito como ela sempre percebia tudo. No risco absurdo de perdê-la sem nunca ter tido coragem de dizer nada.
— Eu estou bem aqui — respondeu por fim. — Pela primeira vez em muito tempo.
Matthias suspirou.
— É justamente isso que assusta todo mundo.
A ligação caiu alguns segundos depois, sem despedidas elaboradas. Nunca precisaram disso.
Nicholas largou o celular ao lado do sofá.
O anel pesava em seu dedo.
E o medo não era o reino.
Era o que ele poderia perder se Auren resolvesse, enfim, puxá-lo de volta.
**
Os dias que se seguiram passaram em um silêncio quase desconcertante.
Duas semanas inteiras sem novos e-mails.
Sem ligações internacionais.
Sem notificações da chancelaria, do rei ou de qualquer outro nome ligado àquela vida que Nicholas fingia não existir.
No início, ele estranhou.
Depois, começou a acreditar.
Talvez Matthias tivesse sido claro ao transmitir a ligação. Talvez tivesse dito ao rei, com a lealdade que lhe era característica, que Nicholas não queria voltar. Que estava bem. Que havia construído algo ali.
Algo que não cabia em títulos nem em acordos antigos.
Nicholas quis acreditar que o pai entendera.
A rotina retomou seu ritmo lento e previsível. Consultas agendadas. Manhãs tranquilas. Sophie sempre atenta, sempre eficiente… sempre ali.
E era isso que o desarmava.
O jeito como ela chegava antes dele e deixava o café pronto. Como percebia quando ele estava cansado demais para conversar. Como respeitava silêncios que ele mesmo não sabia explicar.
O anel continuava em seu dedo, mas girava menos. Como se, aos poucos, o corpo estivesse baixando a guarda. Como se aquela vida estivesse, finalmente, criando raízes.
Até aquela tarde.
Era pouco antes das duas. O paciente das 14h ainda não havia chegado, e o consultório estava quieto demais. Nicholas estava encostado no balcão da recepção, conferindo algo no tablet, enquanto Sophie organizava alguns papéis, concentrada demais para perceber o quanto ele a observava quando achava que ela não via.
A televisão da sala de espera permanecia ligada no noticiário, mais como ruído de fundo do que por real interesse.
Foi quando a imagem mudou.
— …chegou hoje ao país Sua Majestade, o Rei Edmund de Auren, acompanhado da Rainha Eleanor e de uma comitiva reduzida…
Nicholas ergueu a cabeça no mesmo instante.
O som da própria respiração pareceu alto demais.
A imagem mostrava a descida de um homem alto, de postura impecável, cabelos grisalhos bem alinhados, expressão serena. Ao seu lado, uma mulher elegante, de sorriso contido, vestida com sobriedade clássica. Poucos seguranças. Tudo discreto. Calculado.
O mundo pareceu desacelerar.
O estômago afundou.
Então ele veio.
De verdade.
— …a visita tem sido tratada com descrição, e até o momento não foi divulgado o motivo oficial da presença do casal real no país…
O anel voltou a girar.
Uma volta lenta.
Outra.
Mais rápida.
Nicholas permaneceu imóvel, os olhos presos à tela, como se qualquer movimento pudesse tornar aquilo irreversível. Como se desviar o olhar significasse aceitar o que vinha a seguir.
Sophie, distraída, acompanhava as imagens com curiosidade genuína.
— Uau… — comentou, com um sorriso leve. — Que surreal, né? Um rei de verdade aqui no nosso país.
Nicholas demorou um segundo a responder.
— É… — disse, por fim, sem tirar os olhos da televisão. — Bastante surpreendente.
Ela inclinou um pouco a cabeça, observando melhor a imagem.
— Olha a classe desse homem — continuou. — Tudo nele parece… diferente. Nem parece um de nós.
Riu, sem malícia.
Nicholas desviou o olhar da tela e a encarou.
Por um segundo, pensou em como ela nunca o olhava daquele jeito, como algo distante, inalcançável. Para Sophie, ele era só o Nicholas. E isso doía mais do que qualquer título.
— Claro que ele é um de nós — disse. — Ser rei não torna ninguém melhor que o próprio povo. Se ele acreditar nisso, é um péssimo monarca.
Sophie piscou, surpresa. Depois sorriu.
— É… — concordou. — Acho que você tem razão.
Voltou os olhos para a televisão, pensativa.
— Agora… eu nunca ouvi falar nesse lugar. Como é mesmo o nome?
Nicholas respondeu antes de pensar.
— Auren.
O nome saiu fácil demais. Natural demais.
— Auren… — Sophie repetiu devagar. — Nome estranho. Onde será que fica isso?
Já estava abrindo o navegador no computador quando ele falou, rápido demais, seguro demais, como quem conhece aquele lugar desde sempre.
— Fica na Europa Central. Entre cadeias montanhosas e regiões de planície. Clima temperado, invernos rigorosos. Uma história antiga, marcada por conflitos territoriais.
Sophie congelou por um segundo.
Virou o rosto lentamente para encará-lo.
— Nossa… — disse, com um meio sorriso curioso. — Você sabe bastante sobre isso.
Nicholas percebeu a gafe no mesmo instante.
O coração deu um salto desconfortável.
Pigarrareou, desviando o olhar.
— Geografia sempre foi um… interesse meu.
Não era mentira.
Só não era toda a verdade.
Antes que ela pudesse comentar qualquer coisa, a porta do consultório se abriu.
— Boa tarde — disse uma voz feminina. — Desculpa o atraso.
Nicholas se endireitou imediatamente, aliviado demais para disfarçar.
— Boa tarde — respondeu, profissional, já caminhando em direção à porta. — Pode entrar, por favor.
A desculpa perfeita.
Enquanto ele desaparecia para dentro da sala de atendimento, Sophie voltou a olhar para a televisão.
A imagem agora mostrava um close no rei. O brasão real bordado discretamente na lapela do casaco.
Algo nela se agitou.
O símbolo.
Ela franziu levemente a testa, tentando puxar da memória onde já tinha visto aquilo antes. Era familiar. Antigo. Trabalhado com linhas firmes e elegantes.
Não sabia de onde.
Ainda.
O noticiário seguiu.
Sophie continuou olhando.
Sem ainda fazer a ligação.
Mas com a estranha sensação de que aquela imagem tinha acabado de atravessar a vida deles e que nada, dali em diante, permaneceria intocado.