Nicholas permaneceu imóvel por alguns segundos. O consultório estava silencioso demais, como se até os sons da rua tivessem decidido respeitar aquele instante.
Ele respirou fundo.
Uma vez.
Depois outra.
— Sophie… — chamou, a voz baixa, cuidadosamente neutra demais para quem o conhecia bem.
Ela ergueu os olhos de imediato.
— Sim?
Nicholas demorou mais do que o habitual antes de falar, como se organizasse cada palavra com precisão excessiva. Não era só o que precisava dizer, era o que não podia.
— Você se importaria de me deixar sozinho por alguns minutos? — pediu, educado como sempre. — Preciso… resolver algo.
O pedido, em si, não tinha nada de rude. Mas o tom, formal e distante demais, fez Sophie franzir levemente a testa.
— Claro — respondeu, sem hesitar. — Sem problema.
Nicholas assentiu uma única vez, evitando o olhar dela.
— Poderia fechar a porta, por favor?
Aquilo foi o suficiente para que o estranhamento se tornasse real.
— Claro — repetiu, mais devagar agora.
Ela se levantou e caminhou até a porta do consultório, fechando-a com cuidado, quase sem fazer ruído. Do lado de fora, apoiou-se por um instante no balcão da recepção, olhando para a madeira clara à sua frente como se pudesse enxergar através dela.
Algo estava errado.
Ela voltou a se sentar na cadeira da recepção, mas não retomou os prontuários. Os dedos ficaram suspensos sobre o teclado, imóveis.
O que foi isso?
Nicholas nunca pedia para ficar sozinho daquele jeito. Quando precisava de silêncio, apenas se fechava em si mesmo. Não afastava pessoas. Não afastava ela.
Sophie cruzou os braços, recostando-se na cadeira.
Será que eu falei alguma coisa errada?
A cena voltou inteira à sua mente: o comentário sobre o anel, o jeito como ele parecera surpreso por ela perceber… talvez tivesse passado do limite.
— d***a… — murmurou, quase sem perceber que falava em voz alta.
Abaixou a cabeça, apoiando o queixo na mão.
Eu não devia me meter assim na vida do meu chefe.
Chefe.
Às vezes, Sophie esquecia disso. Esquecia que Nicholas não era apenas o veterinário gentil do bairro, o homem educado que tomava café m*l dormido e sorria para os clientes. Esquecia e falava como se estivesse conversando com alguém próximo demais. Alguém acessível demais.
— Eu falo demais — sussurrou, irritada consigo mesma. — Como se ele fosse um amigo qualquer.
Ou algo pior.
Suspirou fundo.
Talvez ele não tenha gostado. Talvez eu tenha sido invasiva. Ou inconveniente.
O pensamento do anel voltou com força.
Eu não devia ter comentado aquilo.
Ela fechou os olhos por um instante, tentando se recompor.
Agora pronto. Fiz m***a.
Do outro lado da porta, Nicholas apoiou as mãos na mesa de atendimento, inclinando o tronco para frente. O jaleco branco parecia apertado demais de repente. Ele passou a mão pelo rosto num gesto rápido, impaciente, não com ela, mas consigo mesmo e voltou ao notebook.
Abriu-o outra vez.
A tela ainda estava ali.
O e-mail.
O remetente não precisava ser lido duas vezes. Nem uma. Nicholas soubera no instante em que a notificação surgira.
Era da corte.
Ou melhor: em nome do rei.
Bufou baixo ao ver o cabeçalho formal demais para aquele espaço simples, quase doméstico, que ele construíra para si. Para eles.
— Claro… — murmurou, com ironia contida. — Sempre em nome do rei.
Abriu a mensagem.
O texto surgiu limpo, impecável, frio.
Assunto: Convocação Oficial
À Vossa Alteza Real, o Príncipe Nicholas de Auren,
Por determinação de Sua Majestade, o Rei Edmund de Auren, solicitamos o retorno imediato de Vossa Alteza ao Reino de Auren.
Assuntos de Estado exigem sua presença com a maior brevidade possível.
Detalhes logísticos serão encaminhados assim que houver confirmação de recebimento desta mensagem.
Com o devido respeito,
Chancelaria Real de Auren
Em nome de Sua Majestade, o Rei.
Nicholas recostou-se na cadeira com força, soltando o ar pelos pulmões de forma brusca.
— Vossa Alteza Real… — repetiu, entre dentes, como se o título tivesse gosto amargo.
O polegar encontrou o anel quase automaticamente.
Girou.
Uma vez.
Duas.
O brasão antigo refletiu a luz do consultório por um segundo antes de desaparecer sob o movimento constante.
— Não… — murmurou. — Não agora.
Não ali.
Não com ela do outro lado da porta.
Leu o e-mail outra vez, mesmo sabendo que o conteúdo não mudaria. A palavra imediato parecia pulsar na tela.
Imediato.
Como se sua vida ali fosse provisória. Como se aquele consultório, aquela rotina… como se Sophie fosse apenas algo que poderia ser interrompido sem aviso.
Ele fechou o notebook com um estalo seco.
— Não é possível que isso esteja acontecendo agora — disse em voz alta, andando pelo espaço pequeno.
Parou perto da janela, encarando o vidro como se o mundo do lado de fora pudesse lhe dar alguma resposta.
— Eu não vou nem responder — completou, mais firme, embora a mão ainda tremesse levemente.
O anel girou outra vez, mais rápido agora, quase nervoso.
Nicholas passou a mão pelos cabelos, desarrumando-os sem perceber. O controle que sempre mantinha escorria pelos dedos.
Auren.
O nome do reino soava como uma sentença antiga.
E, junto dele, veio o medo real: o de perder a única pessoa que não o via como nada além de Nicholas.
Foi pegar um copo de água. Bebeu devagar, como se o gesto pudesse reorganizar algo dentro dele.
Controle. Naturalidade. Nada aconteceu.
Repetiu isso mentalmente enquanto endireitava o jaleco e passava os dedos pelo anel, girando-o uma vez antes de se conter.
Uma batida soou na porta.
Leve.
Hesitante.
Quase envergonhada.
— Doutor? — a voz de Sophie veio abafada pela madeira. — Posso?
O coração dele deu um salto incômodo.
Nicholas fechou os olhos por um segundo a mais do que o necessário. Inspirou fundo e caminhou até a porta, abrindo-a com o mesmo cuidado de sempre.
Sophie estava ali, os ombros levemente tensionados, o corpo inclinado para frente como quem já se desculpa antes mesmo de falar.
Ela não parecia só profissional.
Parecia preocupada.
— Eu sei que o senhor pediu para ficar sozinho — começou, rápida — mas… temos um paciente.
Nicholas seguiu o gesto dela até a recepção, avaliou a cena por um instante e suspirou, baixo.
— Pode deixar entrar.
O tom não foi ríspido.
Mas foi contido demais.
Sophie percebeu. E aquilo doeu mais do que ela esperava.
O atendimento foi rápido. Objetivo. Nicholas fez tudo certo, mas sem a conversa calma, sem o sorriso fácil. Como se estivesse se mantendo longe de algo perigoso demais para tocar.
Quando a cliente saiu, o silêncio entre eles era espesso.
Nicholas parou à frente dela.
— Sophie.
Ela ergueu os olhos.
— Sim?
— A partir de agora, não aceite mais pacientes de última hora.
Ela piscou, surpresa.
— Como assim?
— Apenas consultas agendadas — respondeu, firme.
Não era só sobre o trabalho.
Era sobre controle. Sobre evitar falhas. Sobre não deixar nada escapar.
— Mas… sempre fizemos assim — ela começou.
— Sophie — interrompeu, sem elevar a voz, mas com um peso novo nela.
Ela se encolheu levemente.
— Me desculpe.
Aquilo o desarmou um pouco.
— Não é culpa sua — disse, suspirando. — Você fez o que sempre fez.
O anel girou devagar.
— Mas precisamos mudar isso.
— Certo — respondeu, baixinho.
Quando ele disse que iam fechar mais cedo, o susto foi imediato.
— Agora? — ela perguntou. — Mas… não é nem meio-dia, Nick.
O nome escapou.
Ela corou.
— Doutor.
Nicholas arqueou a sobrancelha, quase sorrindo.
— Eu disse que você pode me chamar de Nick.
Ela riu sem graça.
— Desculpa.
Ele apoiou uma mão no balcão.
— Eu não estou muito bem hoje. Preciso ir pra casa.
Sophie hesitou.
— Aconteceu alguma coisa grave?
Ele a olhou, confuso por um segundo. Depois… tocado.
— Como assim?
— É que parecia tudo bem — ela deu de ombros — e de repente você ficou… diferente.
Ele a observou por alguns segundos. Pensou em tudo o que não podia dizer.
Sorriu.
Mentiu.
— É só uma dor de cabeça.
Sophie assentiu, mas não acreditou.
Enquanto organizava as coisas, teve certeza de algo que não ousou nomear:
Ele estava se afastando.
E não era por falta de sentimento.
Sozinho outra vez, Nicholas ficou parado no meio do consultório, ouvindo os sons familiares do lugar sendo desligados um a um.
O anel permaneceu imóvel em seu dedo.
Mas o peso dele nunca parecera tão grande.