Capítulo 33

1900 Words
A antessala do trono estava preparada para trabalho, não cerimônia. A mesa central estava ocupada por mapas abertos e pastas organizadas com precisão. Alistair permanecia de pé, ao lado, pronto para registrar. Matthias já estava ali quando Nicholas entrou, postura relaxada, mas atento, como quem conhecia bem aquele espaço. Edmund entrou por último. Não houve anúncio. Não houve preâmbulo. O rei tomou o lugar à cabeceira e abriu a reunião. — Vamos começar. O tom era neutro. Administrativo. — Alistair, registre. Audiência com o príncipe herdeiro, primeiro dia oficial após o retorno a Auren. Alistair assentiu e abriu a pasta. — Majestade. Edmund voltou-se para Nicholas. — Esta audiência não é para discussão. — disse. — É para alinhamento. Nicholas endireitou a postura. — Sim, Majestade. Edmund fez um gesto breve com a mão. — Matthias, situação atual. Matthias inclinou levemente a cabeça e começou, direto: — O Conselho aguarda o príncipe herdeiro às dez. Reunião curta, apresentação apenas. — lançou um olhar rápido para Nicholas. — Nada deliberativo hoje. — Ótimo. — Edmund assentiu. Matthias continuou: — À tarde, inspeção simbólica no setor leste da cidade. A presença do herdeiro foi solicitada. A imprensa já foi avisada. Nicholas manteve o rosto neutro. — Depois — Matthias acrescentou —, almoço institucional com dois representantes de Aurenfell. E, ao fim do dia, recepção restrita no salão azul. Edmund cruzou as mãos sobre a mesa. — Você estará presente em todos esses compromissos, Nicholas. Não era pergunta. — Sim, Majestade. — Sua função hoje é simples — o rei continuou. — Ser visto. Ser reconhecido. Ser estável. Fez uma pausa breve. — Não improvisar. Não reagir. Não criar ruído. Nicholas assentiu uma única vez. — A princesa Katarina estará presente no almoço institucional. — Edmund acrescentou, sem olhar diretamente para ele. — Aparição conjunta. Protocolar. Matthias manteve-se impassível. Alistair anotou. — Após a recepção da noite — Edmund concluiu — você estará livre. Nicholas respirou fundo, controlado. — Entendido. O rei fechou uma das pastas. — Há alguma dúvida objetiva sobre a agenda? Nicholas hesitou por um segundo, não por emoção, mas por escolha. — Não, Majestade. Edmund assentiu. — Ótimo. Levantou-se, encerrando a audiência com a mesma frieza com que começara. — Lembrem-se — disse, olhando para ambos — estabilidade hoje é prioridade absoluta. Fez um gesto mínimo com a cabeça. — Audiência encerrada. Nicholas inclinou-se levemente, como herdeiro. Matthias fez o mesmo. Quando a porta se fechou atrás deles, o silêncio do corredor pareceu mais pesado do que antes. Matthias foi o primeiro a falar, baixo: — Bem-vindo de volta ao trabalho. Nicholas soltou um ar lento, quase imperceptível. Não tinha sido confrontado. Não tinha sido punido. Mas tinha sido encaixado. E, de algum modo, isso pesava ainda mais. O restante da manhã se dissolveu em compromissos que Nicholas m*l registrou conscientemente. Salas diferentes. Mesas longas. Rostos atentos demais. Vozes que falavam de fronteiras, acordos comerciais, movimentações militares, relatórios que pareciam não terminar nunca. Ele assentia quando esperado, respondia quando provocado, mantinha a postura correta enquanto a mente escapava em intervalos perigosos, Sophie no meio do pátio, o olhar dela erguido, a noite anterior, a promessa feita ao pai. Matthias esteve presente em quase todas. Silencioso, preciso, confortável naquele papel que Nicholas vestia como um casaco emprestado. Edmund conduzia tudo com a firmeza habitual, sem perder tempo explicando nada que o filho já deveria saber. Eleanor apareceu apenas em momentos pontuais, o suficiente para lembrar a todos que aquela manhã não era apenas política, era simbólica. Quando o último compromisso técnico se encerrou, Nicholas sentiu um alívio estranho. Não porque o dia estivesse mais leve, mas porque sabia exatamente o que vinha a seguir. A exibição. O pátio interno do castelo foi aberto pouco antes do meio-dia. Não houve anúncio espalhafatoso, nem convocação grandiosa. A notícia simplesmente correu, como sempre acontecia em Auren. Em pouco tempo, o espaço foi sendo ocupado por moradores da capital, comerciantes, artesãos, funcionários do reino, famílias inteiras que se posicionavam com curiosidade respeitosa. Guardas reais delimitavam o perímetro com discrição treinada. Era o povo visível de Auren. O suficiente. Nicholas aguardava em uma das galerias laterais, de frente para o pátio, sentindo a farda pesar mais do que em qualquer outro momento do dia. O tecido rígido prendia os ombros, o colarinho parecia alto demais. Ele respirou fundo uma vez. Depois outra. Não havia para onde fugir. O silêncio começou a se organizar antes mesmo do anúncio. Alistair deu dois passos à frente. — Sua Alteza Real... — a voz ecoou clara, precisa. — O Príncipe Herdeiro Nicholas de Auren. Nada mais. Nicholas avançou. O primeiro passo foi o mais difícil. Depois, o corpo assumiu sozinho. Costas retas. Passos medidos. O rosto neutro que aprendera a construir desde cedo. Ele atravessou o espaço até o ponto determinado, posicionando-se ao lado do pai. Edmund já estava ali. Firme. Imóvel. Rei. Eleanor permanecia próxima, alguns passos atrás, o olhar atento demais para ser apenas cerimonial. Katarina estava à direita, postura impecável, expressão serena, pertencente àquele lugar como se nunca tivesse sido outra coisa. Matthias, um pouco mais atrás, atento, quase invisível, mas pronto. Nicholas parou. Ficou. O pátio inteiro parecia suspenso naquele instante. Ele inclinou levemente a cabeça em direção ao povo. Um gesto mínimo. Ensaiado. Suficiente. Nada foi dito. Ainda assim, tudo estava sendo comunicado. Do meio da multidão, Sophie assistia. Misturada entre rostos desconhecidos, sentia-se pequena e, ao mesmo tempo, estranhamente exposta. Viu Nicholas surgir fardado, distante, intocável. O homem que ela conhecia desaparecia sob camadas de símbolo e expectativa. Ele parecia maior ali. Mais alto. Mais sério. Mais longe. Por um segundo, os olhos dele percorreram o pátio. E pararam. Não foi um gesto claro. Não houve reação visível. Mas Sophie soube. Soube pelo modo como o peito apertou, pela certeza silenciosa de que ele a tinha visto. Ele não podia reagir. Ela também não. O silêncio foi quebrado aos poucos por murmúrios baixos, cabeças se inclinando, comentários sussurrados. Não de dúvida. De constatação. O herdeiro estava de volta. Após alguns minutos,longos o suficiente para marcar, curtos o bastante para não cansar, Edmund deu um passo à frente. Um gesto mínimo com a mão. A exibição estava encerrada. O pátio começou a se esvaziar com a mesma naturalidade com que fora ocupado. Guardas retomaram posições. O povo saiu comentando, analisando, espalhando a imagem que tinha acabado de ver. Nicholas virou-se primeiro para dentro do castelo. Sentia-se estranho. Exposto. Como se tivesse sido observado por algo maior do que o próprio reino. O portão se fechou atrás deles com um som pesado, metálico. O pátio ficou do lado de fora. O povo também. Por um segundo, ninguém falou nada. Edmund já se preparava para avançar, a mente reorganizando o dia, o almoço, os horários, os compromissos que viriam em sequência, quando percebeu que Nicholas não estava se movendo. O filho tinha parado. Estava imóvel, rígido demais, como se ainda estivesse exposto ao olhar de centenas de pessoas. Os ombros não relaxaram. As mãos continuavam cerradas ao longo do corpo. O peito subia rápido. Curto. Errado. — Nicholas — Eleanor chamou primeiro. Ele tentou responder. Não conseguiu. O ar simplesmente não entrava. Era como se a farda tivesse encolhido de repente. O colarinho alto demais. O tecido pesado demais. O espaço fechado demais depois do céu aberto do pátio. O coração disparou sem aviso, batendo forte, irregular, como se tivesse esquecido o ritmo. Nicholas deu um passo instintivo para trás até as costas encontrarem a parede fria do corredor. Encostou-se nela com força, como se precisasse de algo sólido para não cair. Levou a mão à gola da farda, os dedos tremendo. Inspirou. Nada. Inspirou de novo, rápido demais, e Eleanor entendeu antes mesmo de ele conseguir falar. — Amor — disse, já à frente dele. Sem pedir permissão, abriu os primeiros botões da farda com mãos firmes, práticas, criando espaço onde o tecido apertava demais. Nicholas deixou. Não tinha forças para protestar. Fechou os olhos. O ar vinha em fragmentos. — Respira comigo — Eleanor pediu, baixa, próxima demais para ser rainha. — Devagar. Matthias deu dois passos à frente, o humor completamente apagado. — Nicholas — chamou. — Olha pra mim. Nicholas abriu os olhos apenas o suficiente para encontrá-lo. — Assim — Matthias continuou. — Não força. Inspira... solta. O corpo tremia agora. Não de frio. De excesso. Katarina observava em silêncio, o choque inicial se transformando rapidamente em compreensão. Não se aproximou. Não invadiu. Apenas ficou ali, atenta, respeitando aquele limite invisível. Alistair já tinha se afastado alguns passos, o olhar discretamente voltado para o chão, oferecendo privacidade como quem sabe exatamente quando não deve existir. — Ele precisa de um médico — Eleanor disse, alarmada. Matthias assentiu na mesma hora. — Quer que eu chame alguém? — perguntou, direto. — Agora. Nicholas balançou a cabeça negativamente, mesmo ainda sem conseguir respirar direito. — Não... — a voz saiu falha. — Não é isso. Inspirou com dificuldade. — É... — tentou de novo. — É um ataque de pânico. Fechou os olhos outra vez, concentrando-se na respiração como quem se agarra à única coisa possível. Eleanor o olhou com dor. — Mesmo assim, você precisa ser avaliado. — Mãe... — ele murmurou. — Eu sou médico. Edmund, que observava tudo em silêncio desde o início, falou pela primeira vez. — De animais. Nicholas deixou escapar uma risada curta, sem humor, ainda de olhos fechados. — Ainda assim, médico — respondeu, entre uma respiração e outra. — O corpo humano não é tão diferente quando entra em colapso. O silêncio que se seguiu foi diferente de todos os outros. Edmund olhava para o filho... mas não como antes. Não como o jovem teimoso que se recusava a aceitar o cargo. Não como o príncipe que "não queria". Mas como alguém que não conseguia. O rei tinha visto aquela cena centenas de vezes em outros, generais, ministros, homens esmagados pelo peso do cargo. Mas ver aquilo no próprio filho era diferente. Incomodava. Desorganizava. Sempre tinha acreditado que Nicholas apenas resistia por escolha. Ali, encostado à parede, tentando lembrar como respirar, o filho parecia... deslocado. Não rebelde. Deslocado. — Precisamos ir para o almoço — disse, por fim, num tom controlado. Não duro. Controlado. — Todos estão esperando. Nicholas soltou uma risada curta, sem humor, ainda encostado na parede. — Claro que estão. Fechou os olhos por um segundo. Quando abriu, havia algo diferente ali. Não raiva. Cansaço. — Me dá cinco minutos — pediu. — Só cinco. O corredor ficou em silêncio. Edmund o encarou por um instante longo demais para ser protocolar. Depois, assentiu. — Cinco minutos — repetiu. — Depois disso, seguimos. Não foi uma ordem. Foi uma concessão. Eleanor permaneceu ao lado do filho, com a mão firme no braço dele. Matthias soltou o ar devagar, como se só então tivesse percebido que também estava prendendo a respiração. Katarina foi a última a se mover. Voltou-se para Nicholas. — Você foi bem lá fora — disse, sem ironia. Sem pena. Nicholas abriu os olhos e a encarou, surpreso. Ela sorriu de leve. E então se afastou. Edmund não tinha ido embora. Olhou para o filho mais uma vez. E, pela primeira vez, a ideia o atravessou com força incômoda: Talvez Nicholas nunca tivesse sido feito para aquele mundo. E talvez isso não fosse uma falha de caráter, mas de destino.
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