Capítulo 34

1942 Words
O almoço com os representantes de Aurenfell aconteceu no salão menor, reservado para encontros institucionais que exigiam formalidade sem espetáculo. Nicholas esteve presente do início ao fim. Sentou-se ao lado do pai, como esperado. Katarina à sua direita, postura impecável, o sorriso treinado surgindo nos momentos corretos. Eles conversaram pouco entre si. O necessário. O protocolar. Nenhum toque além do ocasional roçar de mangas quando se inclinavam para ouvir melhor. Aurenfell era uma região estratégica e Nicholas sabia disso tão bem que nem precisou prestar atenção às explicações. Terras férteis, corredores comerciais antigos, um equilíbrio delicado entre tradição e progresso. Ele assentia quando esperado, comentava quando provocado, fazia perguntas inteligentes nos intervalos certos. Por fora, estava perfeito. Por dentro, o aperto no peito permanecia. Não era pânico. Não era falta de ar. Era algo mais sutil, como se o corpo ainda não tivesse esquecido o colapso recente, mantendo-se em alerta constante, pronto para fugir de um perigo que não tinha forma. Katarina percebeu. Não disse nada. Não olhou em excesso. Apenas esteve ali, sólida, funcionando como parte daquele cenário que ele não conseguia habitar completamente. Depois do almoço, vieram mais compromissos. Reuniões técnicas. Assinaturas simbólicas. Um encontro rápido com representantes locais. Um percurso curto pelos corredores internos do castelo para ser visto, cumprimentar, confirmar presença. Nicholas seguiu. A farda continuava pesada. O colarinho, incômodo. Às vezes levava a mão ao peito discretamente, pressionando o tecido, como se precisasse confirmar que ainda havia ar suficiente ali dentro. Não havia. Mas havia o bastante. O suficiente para não cair de novo. A tarde avançou sem incidentes. Sem crises. Sem explosões. Apenas aquele cansaço estranho que não vinha do corpo, mas da alma, um desgaste profundo, silencioso, que não se resolvia com descanso. Em mais de um momento, a mente fugiu. Sophie. O pátio. O olhar dela no meio da multidão. Pensar nela ajudava e machucava ao mesmo tempo. Ajudava porque lembrava quem ele era. Machucava porque lembrava onde não podia estar. Quando o último compromisso foi encerrado e Nicholas finalmente teve permissão para se retirar, o sol já começava a baixar, tingindo os corredores de dourado suave. O castelo parecia menos rígido naquele horário, como se até as pedras soubessem que o dia tinha sido longo demais. Nicholas caminhou sozinho por alguns instantes. O aperto no peito ainda estava ali. Mas agora, misturado a ele, havia algo novo. Não era coragem. Não era aceitação. Era consciência. Ele não tinha tido outra crise. Mas também não tinha se sentido melhor. E, no fundo, começava a entender que aquele mundo não o quebrava por rebeldia, nem por falta de esforço. Ele o quebrava porque não tinha sido feito para ele. E essa constatação, estranhamente, doía menos do que fingir que o problema era apenas vontade. ** Já passava das sete quando Sophie saiu para o jardim. O frio era cortante. A neve cobria o chão como um silêncio branco, intacto, refletindo a pouca luz que vinha das janelas do castelo. O ar queimava os pulmões, mas ela precisava daquilo. Precisava de espaço. De céu aberto. De algo que não tivesse paredes. Sentou-se em um dos bancos de pedra, ignorando o frio que atravessava o tecido do casaco e se infiltrava até os ossos. Durante a exibição, tinha ficado no meio do povo. Invisível como precisava ser. Tinha ouvido murmúrios que, até então, não a tinham alcançado daquele jeito. — Ele combina tanto com a princesa. — Vai ser um casal lindo. — Os herdeiros vão ser fortes. — Auren precisa disso. Nada era dito com crueldade. Talvez fosse isso o pior. Sophie percebeu tarde demais que estava chorando. As lágrimas escorriam silenciosas, misturando-se ao frio, caindo sem que ela tivesse forças para impedir. — Veja só... — uma voz suave surgiu atrás dela — minha amiga, senhorita Sophie, teve a mesma ideia que eu? Sophie sobressaltou-se. Secou o rosto rapidamente com a manga do casaco e se levantou num impulso, o coração acelerado. — Alteza — disse, lembrando-se de repente. Inclinou-se, desajeitada. Katarina riu, um som baixo e leve demais para aquele ambiente gelado. — Deixa disso, Sophie. — aproximou-se mais um pouco. — Não constatamos hoje de manhã que somos todos bons amigos? Sophie sorriu sem graça. — Achei que fosse brincadeira sua. Katarina suspirou, parando ao lado do banco. — Eu não tenho amigos aqui. — disse, simplesmente. — E olha que vivo neste castelo há mais de sete anos. Tirando minha dama de companhia... não há ninguém de verdade. Sophie a olhou com surpresa sincera. — Mas o príncipe Matthias... — comentou. — Ele pareceu bem próximo. Ele te chamou de Kat. Katarina riu, sentando-se no banco e fazendo um gesto para que Sophie se sentasse também. — Matthias é um bom homem. — disse. — Mas é homem. E, além disso, primo e amigo de Nicholas. Com ele, nunca dá para ser totalmente sincera. Sophie hesitou. — A senhora não devia estar aqui fora... pode se resfriar. Katarina arqueou uma sobrancelha. — E você não? — respondeu. — Ou o frio escolhe títulos agora? Sophie riu, apesar de tudo. — Você é uma princesa. Eu não sou ninguém. Katarina riu também. — Sabe o que eu gosto em você? — perguntou. — Você esquece as formalidades. Isso é raro aqui. Percebeu então o detalhe e sorriu de lado. — Só estamos nós duas. Pode me chamar de Katarina. Sophie relaxou os ombros. — Obrigada... pela gentileza. Houve um breve silêncio, preenchido apenas pelo som distante do vento entre as árvores cobertas de neve. — Posso lhe fazer uma pergunta? — Katarina disse então. — E contar com a sua sinceridade? Sophie assentiu, cautelosa. — Você veio do Brasil com Nicholas, não veio? O coração de Sophie quase parou. — E... — Katarina continuou, direta demais para não ser intencional — vocês estão juntos? Sophie empalideceu. Gaguejou por um segundo, o olhar fugindo. — Eu... não deveria ser eu a falar com você sobre isso. Katarina bufou, descrente. — Por favor. — disse. — Eu sou mulher. Ninguém nunca me conta nada até o último segundo. Seja sincera. Não haverá problema. Sophie respirou fundo. — Sim. Katarina soltou uma risada curta, sem humor. — Eu imaginei. — disse. — Quando vi vocês no corredor... e também porque sempre soube que Nicholas não gostava de mim. Olhou para o jardim, para a neve intacta. — Eu cheguei a este castelo com quinze anos. — continuou. — E ele fugiu logo depois. Sem se despedir. Sem olhar para trás. Só uma tola não perceberia. — Não é você o problema — Sophie disse, firme. — É o que você representa. Decidiram o futuro dele sem perguntar. Katarina sorriu de canto. — Nicholas exagera. — respondeu. — Ser príncipe herdeiro tem suas provações. Eu sei. Regras, deveres, sacrifícios. — fez uma pausa. — Mas ser mulher... Sophie inclinou-se, interessada. — Você não gosta de ser princesa? Katarina sorriu. Um sorriso triste. — Desde cedo, tudo o que você aprende é como agradar seu marido. — disse. — Como sentar. Como comer. Como falar. Como obedecer. Vim para cá aos quinze para aprender os costumes de Auren e me casar quando tivesse idade. Olhou para Sophie. — Nicholas reclama que o rei manda na vida dele. Mas quando ele for rei, tudo muda. — respirou fundo. — Quando eu for rainha... absolutamente nada muda. Sophie engoliu em seco. — Eu vou continuar me calando. Falando só quando permitido. — Katarina continuou. — A minha vida nunca passa a ser minha. — Eu nunca tinha pensado nisso... — Sophie murmurou. — Ninguém pensa. — Katarina respondeu. — Só sente quem vive isso. Houve outro silêncio. — Hoje, no café da manhã... — Katarina começou, mas a voz falhou. — Ele usou um tom comigo que... Parou. Não terminou a frase. Sophie virou-se para ela, alarmada. — Nick te mandou calar? Katarina assentiu. — Não foi exatamente o que disse. — explicou. — Foi o jeito. As palavras. O olhar. Ele me lembrou para que eu servia. Sophie sentiu o estômago revirar. — Que horror. Katarina deu de ombros. — Não é nada demais. — disse, tentando minimizar. — Ouvi isso a vida toda. Mas os olhos brilharam. — Só... dói. A neve continuava caindo, silenciosa. Katarina respirou fundo e, de repente, balançou a cabeça, como quem afasta um pensamento incômodo. — Vamos parar com esse assunto chato — disse, num tom mais leve. — Eu não tenho nada contra você. Nem contra o romance de vocês. Eu não tenho sentimentos amorosos pelo Nicholas. Sophie piscou, surpresa. — Não tem? Katarina soltou uma risada curta. — Sophie... como eu teria? — perguntou, sincera. — Nicholas, para mim, é um fantasma. Um rapaz que sumiu no instante em que eu cheguei a este castelo. Olhou para frente, para o jardim branco. — Ele voltou para casa e não se deu ao trabalho de me procurar nem para um cumprimento. Nunca tivemos uma conversa de verdade. Nunca houve sequer uma tentativa. Deu de ombros. — Eu realmente não ligo. Sophie a observava em silêncio, tentando entender. — Não acho que eu e ele teríamos um bom casamento — Katarina continuou. — Não como o de Edmund e Eleanor. Quando você os vê juntos, percebe que eles são muito mais do que rei e rainha. Existe escolha ali. Companhia. Afeto. Sophie suspirou, concordando sem precisar dizer. — Hoje, durante a exibição... — começou. — Eu ouvi tanta coisa do povo. Katarina sorriu de leve. — O povo não sabe o que acontece dentro deste castelo. — disse. — Não se martirize por isso. Nosso noivado é oficial desde que éramos crianças. Todo mundo sabe que o príncipe de Auren foi prometido à princesa de Karsevia ainda pequeno. Eles têm expectativas. Virou-se para Sophie. — Mas não fique triste por isso. Eles vão entender. Sophie sorriu, um pouco mais tranquila. Katarina riu. — Isso... se ele conseguir se livrar do meu pai. — comentou. — Porque, do jeito que Radovan é, vai jogar uma bomba aqui. Sophie caiu na risada. — Você é gentil. — disse. — Quando Nicholas falava da princesa a quem foi prometido, eu nunca imaginei você assim. Katarina sorriu, sem orgulho. — Não precisa me ver como concorrente. — respondeu. — Eu também não desejo esse casamento. Só não sou tão reativa quanto Nicholas para dizer isso na cara do meu pai. Sophie riu. — Obrigada por essa conversa, Katarina. — disse, sincera. — Mas acho que precisamos entrar. Está frio demais. Precisamos de um chá. Katarina levantou-se, estendendo a mão para Sophie, que aceitou. — Concordo. — disse. — Antes que a gente congele aqui fora. Deram alguns passos juntas em direção ao castelo quando Katarina perguntou, casual: — Você falou com Nicholas depois da exibição? Sophie balançou a cabeça. — Não. — respondeu. — O rei não deixa a gente se aproximar a qualquer hora. Só alguns minutos por dia. Katarina diminuiu o passo. — Ele teve uma crise de pânico depois. — disse, sem rodeios. — Ficou sem ar. Foi h******l de assistir. Sophie parou. — O quê? — o coração disparou. — E como ele está? — Melhor. — Katarina respondeu. — Cumpriu os compromissos. Mas assim que foi liberado, foi para o quarto. Deve aparecer agora à noite, no jantar. Sophie soltou um suspiro pesado. — Eu odeio não poder vê-lo. Katarina assentiu. — Imagino. — disse. — Mas ele vai aparecer. E, depois de um dia como hoje... acredito que ele precise de você. As portas do castelo se abriram à frente delas, deixando escapar o calor e a luz dourada do interior.
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