Edmund entrou no quarto sem bater.
Fez isso devagar, com cuidado incomum para alguém acostumado a abrir portas como quem abre destinos. O aposento estava em penumbra, cortinas parcialmente fechadas, o silêncio pesado demais para ser apenas descanso.
Nicholas estava deitado na cama, de lado, encolhido. Ainda vestia a calça da farda e a camisa branca que usava por baixo. Os pés descalços, a postura largada, como se o corpo tivesse desistido antes da mente.
O som da porta chamou sua atenção.
Nicholas ergueu o olhar, cansado.
— Não dava para bater, pai?
Edmund fechou a porta atrás de si com cuidado.
— Desculpa. — disse, sincero. — Eu não queria te acordar, se você estivesse dormindo. Entrei devagar por isso.
Nicholas suspirou e se sentou, apoiando os cotovelos nas pernas.
— O que foi? — perguntou. — Eu já vou me arrumar para jantar. Daqui a pouco eu chego lá.
Edmund não respondeu de imediato. Aproximou-se alguns passos, avaliando o filho com atenção que não era de rei.
— Como você está? — perguntou, por fim.
— Cansado.
O olhar de Edmund se manteve firme.
— Não estou falando só disso. — disse. — Você sabe.
Nicholas desviou o olhar por um instante.
— O peito ainda tá pesado. — admitiu. — A cabeça... meio turva. Mas tá tudo bem. Não vou ter outra crise, pai.
Fez uma pausa curta, amarga.
— Não precisa se envergonhar do seu filho fraco.
Edmund sentiu aquilo como um golpe seco.
— Eu nunca teria vergonha de você. — respondeu de imediato. — Jamais.
Nicholas riu, sem humor.
— Eu teria.
Edmund deu mais um passo à frente.
— Não teria. — repetiu. — E não tenho. Isso não foi fraqueza. Foi um acidente de percurso. E a gente vai passar por isso.
Respirou fundo.
— Felizmente aconteceu depois da exibição. Com as portas fechadas.
Nicholas fechou os olhos por um instante.
— Pai...
— O que foi?
Nicholas hesitou. Quando falou, a voz saiu mais baixa.
— O senhor precisa começar a considerar que... apesar de eu ter nascido príncipe herdeiro... esse talvez não seja o meu lugar.
Edmund estremeceu.
— Não. — disse de imediato. — Não quero ouvir isso agora.
Nicholas assentiu devagar.
— Eu sei que quer que eu seja igual ao senhor. — continuou. — Mas eu não sou, meu pai. Eu não me encaixo aqui.
— Nicholas... — Edmund tentou.
— Não. — ele interrompeu, firme, mas sem agressividade. — Essa é a minha casa, eu sei. Mas não é o meu lugar. E eu tenho certeza de que, com o tempo... o senhor vai perceber isso também.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Edmund não respondeu.
Depois de alguns segundos, desviou o assunto com suavidade inesperada.
— Por que você não toma um banho... — disse — e vai ver a Sophie?
Nicholas ergueu o olhar, surpreso com o tom.
— O quê?
— Depois de um dia difícil — Edmund continuou —, estar com quem a gente ama ajuda a recarregar as energias.
Houve um leve sorriso.
— Falo por experiência própria.
Nicholas sorriu de volta, pequeno, sincero.
— O senhor teve muita sorte. — disse. — Encontrou o amor na minha mãe. Uma princesa que te amou de volta.
Edmund riu baixo.
— Eu sou o homem mais sortudo do mundo. — respondeu. — Não por ser rei. Mas por ter sua mãe comigo.
Olhou para o filho com carinho aberto.
— E por nós termos você.
A voz suavizou ainda mais.
— Mesmo quando discordamos. Mesmo quando brigamos. — disse. — Eu tenho muito orgulho de você, meu filho. E jamais mudaria um único detalhe em quem você é.
Nicholas levantou-se num impulso e abraçou o pai com força.
Edmund correspondeu sem hesitar.
— Eu te amo, pai.
— Eu também te amo, Nicholas.
E, por alguns segundos, ali não havia rei nem herdeiro.
Havia apenas um pai tentando entender o filho.
E um filho, pela primeira vez em muito tempo, se sentindo visto.
**
Nicholas tomou banho sem pressa.
A água quente escorrendo pelos ombros ajudou a aliviar um pouco a tensão que ainda insistia em ficar presa ao peito, mas não apagou o peso do dia. Vestiu-se de forma simples depois, camisa leve, aberta no colarinho; calça confortável. Nada de farda. Nada que lembrasse quem ele precisava ser do lado de fora.
Saiu do quarto já decidido.
A essa altura, só havia uma coisa que ele sabia com certeza: se não fosse até Sophie agora, não aguentaria aquele castelo.
Bateu à porta dela uma única vez.
Entrou antes mesmo de ouvir a resposta.
Sophie estava diante do espelho, ajustando o vestido com a ajuda de Elara. Virou-se no mesmo instante em que ele entrou e tudo nela mudou ao vê-lo ali. O alívio veio primeiro, depois a preocupação.
— Alteza... — Elara começou, já recuando.
— Pode ir — Nicholas disse, num tom baixo, firme, que não admitia discussão.
Elara fez uma reverência rápida e saiu imediatamente.
O quarto ficou em silêncio.
Nicholas não disse nada.
Apenas fechou a porta com cuidado, como se qualquer ruído mais forte pudesse quebrá-lo, e então se virou para Sophie.
O que havia no rosto dele não era cansaço comum. Não era irritação. Era algo mais fundo. Mais frágil.
Ele deu dois passos na direção dela... e parou.
Como se não tivesse certeza se ainda podia pedir aquilo.
Sophie não esperou.
Atravessou o espaço entre eles e o envolveu num abraço firme, inteiro, sem perguntas. Nicholas afundou o rosto no pescoço dela com um suspiro que parecia ter sido guardado o dia inteiro.
Aos poucos, o corpo dele cedeu.
Os ombros relaxaram.
A respiração falhou.
Ele se agarrou a ela como quem precisava daquele abraço para não se desfazer em pedaços.
Ficaram assim por longos segundos.
Sem palavras.
Até que Sophie murmurou, baixinho, quase com medo de quebrar o momento:
— Soube que você passou m*l hoje.
Nicholas não perguntou como ela sabia.
Não importava.
— Foi... — a voz dele saiu rouca. — Foi uma crise de pânico.
Ele respirou fundo, tentando se recompor, mas as palavras começaram a escapar junto com o ar.
— Eu odeio essa vida, Sophie. — confessou. — Eu cheguei ontem. Vinte e quatro horas... e eu já não consigo mais.
Afastou-se um pouco, apenas o suficiente para escorregar até encostar as costas na parede. Dobrou os joelhos, sentando no chão, e os abraçou com força, como se tentasse se proteger de algo invisível.
Sophie sentou-se com ele, sem hesitar.
— Estar ali... — ele continuou, olhando para o nada. — Diante do povo. Só pra eles me olharem. Me avaliarem. — uma risada curta, amarga. — Eu me senti numa vitrine.
Fechou os olhos.
— Eu me senti m*l. — a voz falhou. — Me senti sufocado... mesmo ao ar livre.
O silêncio caiu pesado por um segundo.
— Eu juro — ele disse, quase num sussurro — que não sei como suportar mais um segundo disso.
E então aconteceu.
Não foi imediato.
Não foi dramático.
Uma lágrima escapou sem aviso.
Ele sentiu o rosto molhar e levou a mão ao próprio rosto, irritado consigo mesmo.
— Ah, droga... — murmurou. — Agora eu ainda choro. Para piorar toda essa situação.
Sophie não disse nada.
Apenas o puxou com cuidado, fazendo com que ele encostasse a cabeça em seu peito. Passou os dedos pelos cabelos dele, devagar, repetidas vezes, num gesto simples e antigo, como quem diz fica, eu tô aqui sem usar palavras.
Nicholas deixou.
As lágrimas vieram em silêncio. Sem soluços. Sem espetáculo. Apenas o corpo finalmente desistindo de sustentar o peso sozinho.
Ficou ali, o tempo que precisou.
Quando conseguiu falar de novo, a voz saiu baixa, cansada.
— Eu tô com saudade... — disse. — De ser só um veterinário.
Sophie fechou os olhos.
Apertou-o um pouco mais contra si.
E, naquele quarto pequeno, longe do trono, longe do povo, longe das expectativas, Nicholas deixou de ser príncipe por alguns minutos.
E isso, naquele momento, foi tudo o que o manteve inteiro.