Capítulo 35

1350 Words
Edmund entrou no quarto sem bater. Fez isso devagar, com cuidado incomum para alguém acostumado a abrir portas como quem abre destinos. O aposento estava em penumbra, cortinas parcialmente fechadas, o silêncio pesado demais para ser apenas descanso. Nicholas estava deitado na cama, de lado, encolhido. Ainda vestia a calça da farda e a camisa branca que usava por baixo. Os pés descalços, a postura largada, como se o corpo tivesse desistido antes da mente. O som da porta chamou sua atenção. Nicholas ergueu o olhar, cansado. — Não dava para bater, pai? Edmund fechou a porta atrás de si com cuidado. — Desculpa. — disse, sincero. — Eu não queria te acordar, se você estivesse dormindo. Entrei devagar por isso. Nicholas suspirou e se sentou, apoiando os cotovelos nas pernas. — O que foi? — perguntou. — Eu já vou me arrumar para jantar. Daqui a pouco eu chego lá. Edmund não respondeu de imediato. Aproximou-se alguns passos, avaliando o filho com atenção que não era de rei. — Como você está? — perguntou, por fim. — Cansado. O olhar de Edmund se manteve firme. — Não estou falando só disso. — disse. — Você sabe. Nicholas desviou o olhar por um instante. — O peito ainda tá pesado. — admitiu. — A cabeça... meio turva. Mas tá tudo bem. Não vou ter outra crise, pai. Fez uma pausa curta, amarga. — Não precisa se envergonhar do seu filho fraco. Edmund sentiu aquilo como um golpe seco. — Eu nunca teria vergonha de você. — respondeu de imediato. — Jamais. Nicholas riu, sem humor. — Eu teria. Edmund deu mais um passo à frente. — Não teria. — repetiu. — E não tenho. Isso não foi fraqueza. Foi um acidente de percurso. E a gente vai passar por isso. Respirou fundo. — Felizmente aconteceu depois da exibição. Com as portas fechadas. Nicholas fechou os olhos por um instante. — Pai... — O que foi? Nicholas hesitou. Quando falou, a voz saiu mais baixa. — O senhor precisa começar a considerar que... apesar de eu ter nascido príncipe herdeiro... esse talvez não seja o meu lugar. Edmund estremeceu. — Não. — disse de imediato. — Não quero ouvir isso agora. Nicholas assentiu devagar. — Eu sei que quer que eu seja igual ao senhor. — continuou. — Mas eu não sou, meu pai. Eu não me encaixo aqui. — Nicholas... — Edmund tentou. — Não. — ele interrompeu, firme, mas sem agressividade. — Essa é a minha casa, eu sei. Mas não é o meu lugar. E eu tenho certeza de que, com o tempo... o senhor vai perceber isso também. O silêncio que se seguiu foi pesado. Edmund não respondeu. Depois de alguns segundos, desviou o assunto com suavidade inesperada. — Por que você não toma um banho... — disse — e vai ver a Sophie? Nicholas ergueu o olhar, surpreso com o tom. — O quê? — Depois de um dia difícil — Edmund continuou —, estar com quem a gente ama ajuda a recarregar as energias. Houve um leve sorriso. — Falo por experiência própria. Nicholas sorriu de volta, pequeno, sincero. — O senhor teve muita sorte. — disse. — Encontrou o amor na minha mãe. Uma princesa que te amou de volta. Edmund riu baixo. — Eu sou o homem mais sortudo do mundo. — respondeu. — Não por ser rei. Mas por ter sua mãe comigo. Olhou para o filho com carinho aberto. — E por nós termos você. A voz suavizou ainda mais. — Mesmo quando discordamos. Mesmo quando brigamos. — disse. — Eu tenho muito orgulho de você, meu filho. E jamais mudaria um único detalhe em quem você é. Nicholas levantou-se num impulso e abraçou o pai com força. Edmund correspondeu sem hesitar. — Eu te amo, pai. — Eu também te amo, Nicholas. E, por alguns segundos, ali não havia rei nem herdeiro. Havia apenas um pai tentando entender o filho. E um filho, pela primeira vez em muito tempo, se sentindo visto. ** Nicholas tomou banho sem pressa. A água quente escorrendo pelos ombros ajudou a aliviar um pouco a tensão que ainda insistia em ficar presa ao peito, mas não apagou o peso do dia. Vestiu-se de forma simples depois, camisa leve, aberta no colarinho; calça confortável. Nada de farda. Nada que lembrasse quem ele precisava ser do lado de fora. Saiu do quarto já decidido. A essa altura, só havia uma coisa que ele sabia com certeza: se não fosse até Sophie agora, não aguentaria aquele castelo. Bateu à porta dela uma única vez. Entrou antes mesmo de ouvir a resposta. Sophie estava diante do espelho, ajustando o vestido com a ajuda de Elara. Virou-se no mesmo instante em que ele entrou e tudo nela mudou ao vê-lo ali. O alívio veio primeiro, depois a preocupação. — Alteza... — Elara começou, já recuando. — Pode ir — Nicholas disse, num tom baixo, firme, que não admitia discussão. Elara fez uma reverência rápida e saiu imediatamente. O quarto ficou em silêncio. Nicholas não disse nada. Apenas fechou a porta com cuidado, como se qualquer ruído mais forte pudesse quebrá-lo, e então se virou para Sophie. O que havia no rosto dele não era cansaço comum. Não era irritação. Era algo mais fundo. Mais frágil. Ele deu dois passos na direção dela... e parou. Como se não tivesse certeza se ainda podia pedir aquilo. Sophie não esperou. Atravessou o espaço entre eles e o envolveu num abraço firme, inteiro, sem perguntas. Nicholas afundou o rosto no pescoço dela com um suspiro que parecia ter sido guardado o dia inteiro. Aos poucos, o corpo dele cedeu. Os ombros relaxaram. A respiração falhou. Ele se agarrou a ela como quem precisava daquele abraço para não se desfazer em pedaços. Ficaram assim por longos segundos. Sem palavras. Até que Sophie murmurou, baixinho, quase com medo de quebrar o momento: — Soube que você passou m*l hoje. Nicholas não perguntou como ela sabia. Não importava. — Foi... — a voz dele saiu rouca. — Foi uma crise de pânico. Ele respirou fundo, tentando se recompor, mas as palavras começaram a escapar junto com o ar. — Eu odeio essa vida, Sophie. — confessou. — Eu cheguei ontem. Vinte e quatro horas... e eu já não consigo mais. Afastou-se um pouco, apenas o suficiente para escorregar até encostar as costas na parede. Dobrou os joelhos, sentando no chão, e os abraçou com força, como se tentasse se proteger de algo invisível. Sophie sentou-se com ele, sem hesitar. — Estar ali... — ele continuou, olhando para o nada. — Diante do povo. Só pra eles me olharem. Me avaliarem. — uma risada curta, amarga. — Eu me senti numa vitrine. Fechou os olhos. — Eu me senti m*l. — a voz falhou. — Me senti sufocado... mesmo ao ar livre. O silêncio caiu pesado por um segundo. — Eu juro — ele disse, quase num sussurro — que não sei como suportar mais um segundo disso. E então aconteceu. Não foi imediato. Não foi dramático. Uma lágrima escapou sem aviso. Ele sentiu o rosto molhar e levou a mão ao próprio rosto, irritado consigo mesmo. — Ah, droga... — murmurou. — Agora eu ainda choro. Para piorar toda essa situação. Sophie não disse nada. Apenas o puxou com cuidado, fazendo com que ele encostasse a cabeça em seu peito. Passou os dedos pelos cabelos dele, devagar, repetidas vezes, num gesto simples e antigo, como quem diz fica, eu tô aqui sem usar palavras. Nicholas deixou. As lágrimas vieram em silêncio. Sem soluços. Sem espetáculo. Apenas o corpo finalmente desistindo de sustentar o peso sozinho. Ficou ali, o tempo que precisou. Quando conseguiu falar de novo, a voz saiu baixa, cansada. — Eu tô com saudade... — disse. — De ser só um veterinário. Sophie fechou os olhos. Apertou-o um pouco mais contra si. E, naquele quarto pequeno, longe do trono, longe do povo, longe das expectativas, Nicholas deixou de ser príncipe por alguns minutos. E isso, naquele momento, foi tudo o que o manteve inteiro.
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