Capítulo 39

1594 Words
Pouco antes das oito, Sophie ainda estava diante do espelho. Pronta. E a palavra parecia estranha demais para caber naquela imagem. O vestido rosa bebê moldava-se ao corpo com delicadeza, caindo em linhas suaves que ela nunca imaginou usar. O cabelo estava preso em um penteado elegante, algumas mechas soltas emoldurando o rosto; a maquiagem era leve, realçando o que já existia nela sem transformá-la em outra pessoa. Ela se olhou mais uma vez. Não parecia alguém indo a um baile da realeza. Parecia alguém pertencendo ali e isso a assustava um pouco. Conferiu a hora. O coração acelerou. Respirou fundo e saiu do quarto, as mãos frias, o estômago apertado, os passos cautelosos como se cada corredor fosse um território desconhecido. O salão ainda não estava cheio quando entrou, e isso a tranquilizou um pouco. As luzes já estavam acesas, os músicos se organizavam, o murmúrio era baixo, quase respeitoso. Ela avistou o rei e a rainha quase de imediato, ao lado de Matthias e Katarina. Caminhou até eles com cuidado e fez uma reverência sutil, precisa e elegante demais para quem nunca tinha feito aquilo antes. Eleanor sorriu com orgulho imediato. Katarina foi a primeira a falar. Ela usava um vestido longo em tom azul profundo, de corte clássico, elegante sem ser exagerado. O cabelo loiro estava preso de forma impecável, e havia nela uma serenidade quase natural, como se aquele ambiente fosse apenas mais uma extensão de quem ela era. — Sophie... — disse, com um sorriso aberto — você está linda. Está literalmente parecendo da realeza. Sophie riu, sem graça, sentindo o rosto esquentar. — Para... — murmurou. — Você que está exagerando. — Não fique com vergonha. — Katarina continuou, divertida. — Eu só falei a verdade. — Concordo plenamente. — Eleanor acrescentou, avaliando-a com carinho. — Está deslumbrante. — Absolutamente encantadora. — Matthias disse, com um sorriso fácil. — Eu tambem concordo, está deslumbrante. — Edmund completou, num tom afetuoso. Sophie sentiu que ia derreter ali mesmo. — Vocês vão acabar me fazendo desmaiar antes do baile começar. — brincou, tentando aliviar o constrangimento. Edmund riu e então pigarreou levemente, assumindo o tom de quem organiza destinos. — Muito bem. — disse. — As coisas vão acontecer da seguinte forma: Nicholas será anunciado, cumprirá os protocolos, cumprimentará algumas pessoas... e a primeira dança será com a Katarina. Sophie olhou para Katarina de lado e fez uma careta fingidamente dramática. — Olha aí... — disse, em tom de brincadeira — sempre você no meio. — Desculpa. — Katarina respondeu, rindo. — Prometo não demorar. Eleanor então se inclinou um pouco em direção a Sophie. — Depois disso, ele estará livre. — explicou. — Aí você pode falar com ele em paz. Katarina deu um leve cutucão no braço de Sophie. — E dançar com ele. Sophie arregalou os olhos. — Dançar? — riu, nervosa. — Isso talvez não seja uma boa ideia. Eu não sei dançar. Todos riram. — Nicholas ensina. — Matthias disse, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Ele vai me ensinar aqui? — Sophie rebateu, em pânico fingido. — Diante de todo mundo? Na pista de dança? O grupo caiu na gargalhada. — Não há nada demais em uma dança. — Edmund disse, com gentileza. — Fique tranquila, minha filha. Antes que Sophie pudesse responder, o som da música cessou abruptamente. O salão inteiro se silenciou. O anunciante ergueu a voz. Nicholas foi anunciado. Ele apareceu sozinho. Vestia um terno de gala escuro, perfeitamente ajustado, camisa branca impecável. Usava alguns pins discretos no paletó, símbolos suficientes para lembrar quem ele era, mas nada espalhafatoso. Elegante. Contido. Lindo de um jeito que doía. Katarina levou a mão aos lábios e murmurou, divertida: — Fecha a boca, Sophie. — Eu não estou... — Sophie respondeu baixinho, mas os mais próximos ouviram — só estou... respirando. Risadas contidas surgiram ao redor. Nicholas desceu os degraus sem vê-la. Todos se curvaram à sua passagem, exceto o rei e a rainha. Ele cumprimentou algumas pessoas, manteve a postura impecável, respondeu aos protocolos como quem executa algo ensaiado demais. E Sophie... Sophie se apaixonava mais um pouco a cada passo que ele dava. Não pelo príncipe que o salão via. Mas pelo homem que ela sabia que estava ali, segurando tudo sozinho. Nicholas havia parado próximo a um dos pilares do salão, envolvido em uma conversa educada demais com um lorde de meia-idade, alto e excessivamente entusiasmado. — ...como eu dizia, alteza, a produção de lã em Westmoor teve um crescimento considerável este ano... Nicholas assentia no ritmo certo, o sorriso treinado no rosto, a mente a quilômetros dali. Foi quando ele a viu. Não de frente. Foi de canto de olho. Sophie estava alguns passos atrás do grupo, próxima à rainha, o corpo levemente voltado para eles, o vestido rosa bebê captando a luz do salão com suavidade. O cabelo preso revelava o pescoço de um jeito que ele conhecia bem demais. O sorriso veio antes que ele pudesse impedir. Abriu-se no mesmo instante. O olhar brilhou, vivo, como não estivera o dia inteiro. — ...alteza? Nicholas piscou, voltando à realidade por um segundo. — Perdão. — disse, educado. — O que dizia mesmo? Mas já não adiantava. Do outro lado do salão, Sophie prendeu a respiração ao perceber que havia sido vista. O coração disparou. Ela desviou o olhar por instinto, sem graça demais para sustentar o dele por muito tempo. Mas o sorriso já estava ali. E não saiu mais. Eleanor inclinou-se discretamente em direção a Edmund, observando a cena com atenção divertida. — Meu Deus... — murmurou, contendo um sorriso — esses dois estão ridicularmente apaixonados. Olha isso. Edmund acompanhou o olhar da esposa e riu baixo. — É quase constrangedor. — comentou. — Nem tentam disfarçar. Matthias cruzou os braços, divertido. — Confesso que é melhor do que qualquer entretenimento da noite. Katarina suspirou, com um sorriso resignado. — Daqui a pouco eu começo a me sentir m*l por ainda ter a primeira dança. Sophie virou-se para eles, fingindo indignação. — Eu não sabia que vocês eram tão engraçadinhos assim. O grupo riu junto. — Vamos fazer um bolão. — Matthias sugeriu. — Quanto tempo até o Nicholas se livrar do lorde... — fez uma pausa, pensativo — Lorde Albrecht? — Apostar é proibido na corte. — Edmund respondeu, sério demais para ser verdade. Matthias riu. Edmund completou, sorrindo: — Mas se fosse permitido... eu apostaria em um minuto. Do outro lado do salão, Nicholas finalmente encontrou uma brecha. — Lorde Albrecht, foi um prazer. — disse, já dando um passo atrás. — Precisarei cumprimentar outros convidados. O lorde ainda tentou dizer algo, mas Nicholas já estava se afastando. Com passos contidos, mas decididos, ele seguiu na direção deles, mas ainda não tinha dado cinco passos completos na direção deles quando outro homem surgiu no caminho. — Alteza! — disse o lorde, interceptando-o com entusiasmo excessivo. — Que prazer revê-lo. Nicholas conteve um suspiro. — O prazer é meu. — respondeu, no automático. O homem era baixo, bem-vestido demais para alguém tão pouco interessante, e falava com as mãos como se cada frase precisasse de ilustração. — Sou o lorde Heinrich von Falkenau. — apresentou-se, orgulhoso. — Não sei se se recorda, mas estive presente na última feira agrícola de verão... — Claro. — Nicholas assentiu, sem a menor ideia, nem estava no reino. — Lembro-me perfeitamente. — Pois então! — Heinrich continuou, animado. — Eu estava justamente comentando com outros convidados sobre a nova técnica de drenagem que implementamos nas planícies do norte. Um verdadeiro avanço! Reduzimos em quase quinze por cento a umidade do solo... Nicholas sorriu. Assentiu. Respirou. — Fascinante. — disse, no mesmo tom que usaria para comentar o clima. Do outro lado do salão, Matthias observava a cena com os braços cruzados. — Olha lá. — murmurou. — Ele vai dar um murro no lorde... já já. Edmund soltou uma risada baixa. — Não. — respondeu. — Um murro é demais. — Vocês estão se divertindo demais com isso. — Sophie comentou, arqueando a sobrancelha. — Está até estranho. — É divertido assistir. — Edmund admitiu, sem esconder o sorriso. — Ver meu filho tentando fugir e sendo sufocado por lordes que querem falar sobre suas produções. Sophie piscou. — É isso que eles estão falando? Matthias riu. — Com certeza. — disse. — Se bem conheço o lorde Heinrich, ele está falando sobre drenagem de solo. Sophie fez uma careta imediata. — É uma festa. — protestou. — As pessoas deviam dançar, beber, aproveitar. Não falar sobre drenagem de solo. O grupo caiu na risada. — Todos esses lordes querem um tempinho para mostrar suas belíssimas produções. — Edmund explicou, divertido. — Como não temos tempo de atender todos, eles aproveitam qualquer oportunidade. No centro do salão, Nicholas tentava encerrar a conversa. — Lorde Heinrich, foi um prazer ouvir sobre... — Ah, mas há mais! — o lorde interrompeu, empolgado. — Ainda não mencionei os novos canais auxiliares que projetamos... Nicholas deu um passo discreto para o lado. O lorde acompanhou. Outro passo. Outro acompanhamento. Até que Heinrich, empolgado demais para perceber limites, pousou a mão no braço de Nicholas, segurando-o. O sorriso do príncipe sumiu. Ele baixou o olhar lentamente para a mão alheia em seu braço. Depois ergueu os olhos para o lorde. O ar ao redor pareceu esfriar. — Ops. — Matthias murmurou. — Agora foi longe demais. — Certo. — Edmund disse, ainda sorrindo, mas atento. — Agora chega, tira ele de lá.
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