Capítulo 1

1314 Words
Parte I O cheiro de antisséptico misturado ao de café fresco preenchia o consultório naquela manhã. Era um espaço pequeno, organizado demais para quem atendia animais, com paredes claras, poucos quadros e uma estante onde os prontuários se alinhavam por cores. Sophie estava sentada atrás do balcão da recepção, digitando com rapidez enquanto conferia, pela terceira vez, os horários do dia. Vazio. Aquilo, por si só, já era estranho. Mas o que realmente a distraía não era a agenda, era o som da voz dele do outro lado da porta entreaberta. Nicholas falava baixo, calmo, como sempre. Cada palavra medida, cada gesto preciso. Sophie já conhecia aquele tom. Era o tom que ele usava quando estava concentrado… ou quando tentava não pensar em outra coisa. — Pronto, agora ela vai precisar apenas de repouso e da medicação nos horários certos. Nada de esforço por alguns dias, sim? Ela o observou passar a mão com cuidado pela cabeça do cachorro, o sorriso gentil surgindo de forma automática. Nicholas sempre fora assim com os animais. Com as pessoas, mantinha uma distância educada. Com ela, às vezes, essa distância parecia menor do que deveria. E era exatamente isso que a fazia ter tanto cuidado. A cliente se despediu, agradecida, e saiu. O silêncio voltou a ocupar o consultório. Nicholas ficou parado por um instante, como se tivesse esquecido o que vinha depois, então ergueu os olhos e encontrou os dela. — Está parado demais hoje, não acha? Sophie apoiou o quadril no balcão. — Está até estranho. Normalmente esse horário já estaria um caos. — Ainda bem. — Ele se encostou no batente da porta, cruzando os braços. Havia cansaço ali, visível demais para quem sabia onde olhar. — Estou com um sono terrível. Ela percebeu. Sempre percebia. Caminhou até a pequena copa improvisada e voltou com uma xícara. — Eu imaginei. — Estendeu o café. — Já deixei preparado. Os dedos deles se tocaram por um segundo a mais do que o necessário. Nada explícito. Nada escandaloso. Mas suficiente para que Sophie sentisse o coração acelerar e retirasse a mão rápido demais, como se tivesse cometido um erro. Nicholas também percebeu. E, como sempre, recuou. — Você é minha salvadora — disse, com um sorriso que não chegava inteiro aos olhos. — Eu só reparo nos detalhes — respondeu, voltando-se imediatamente aos papéis, como se aquilo fosse a coisa mais interessante do mundo. Não era. Ela só sabia que não podia olhar para ele daquele jeito. Não podia pensar no quanto gostava da presença dele. Não podia confundir profissionalismo com o que sentia toda vez que Nicholas sorria só para ela. — Sinceramente, não sei como teria cuidado disso aqui se não fosse pela sua ajuda — ele continuou. Aquilo apertou algo no peito dela. — Agora você está exagerando. — Não estou. Sophie ergueu os olhos devagar. O olhar deles se encontrou por um segundo a mais do que o normal. Era sempre assim: breves suspensões no tempo, rapidamente corrigidas. — Você sabe… — disse ela, tentando soar casual — um dia ainda vai ter que me contar de onde vem esse seu sotaque. Nicholas riu baixo. — É uma história longa demais. — Eu sou curiosa demais pra ficar sem saber — insistiu, apoiando os cotovelos no balcão. — Por favor, Nick. O apelido escapou antes que ela pudesse conter. Nicholas arqueou a sobrancelha. — Você é a única pessoa que me chama assim. — Desculpa — disse rápido. — Doutor. — Não precisa — ele respondeu. — Eu gosto. Aquilo foi perigoso demais. Sophie sentiu o rosto esquentar. — Faz até eu parecer… normal — ele completou, quase brincando. Ela franziu a testa. — Você não é normal? Nicholas ia responder, mas desviou. — Não acha que já estamos tempo demais falando de mim? — disse. — Fale de você. Ela riu, aliviada pela mudança de assunto. — Eu sou só a sua secretária. — Você é muito mais do que isso — respondeu, sem pensar. O silêncio caiu pesado. Nicholas pareceu perceber o que dissera e imediatamente se recompôs. Caminhou até a mesa, apoiou a xícara ali e começou a girar o anel no dedo. Era um anel robusto, de ouro antigo, pesado demais para alguém que levava uma vida tão simples. No topo, um símbolo discreto, um brasão trabalhado com precisão, quase apagado pelo tempo e pelo uso constante. Sophie percebeu. Sempre percebia. — Você faz isso quando está cansado — comentou, só para quebrar o clima. — Faço? — Faz. — respondeu com naturalidade. — Bastante, na verdade. Nicholas olhou para a própria mão, como se só então percebesse o gesto. Parou por um instante, depois sorriu, um pouco sem graça. — Vejo que você realmente repara nos detalhes. Ele a observou por alguns segundos a mais do que o necessário. Não havia intensidade explícita ali, mas havia algo mais difícil de ignorar: um reconhecimento silencioso, como se ambos soubessem que aquele olhar não era apenas curiosidade. — Você nunca pergunta coisas demais — comentou, a voz baixa. — Já reparou nisso? — Eu pergunto o suficiente — respondeu Sophie. — Só não insisto quando alguém claramente não quer responder. Ela disse aquilo com cuidado. Não era só sobre o passado dele. Era sobre os limites que ela mesma se impunha. Porque gostava dele. E porque não podia. — E você acha que eu não quero? — Nicholas perguntou. O coração de Sophie acelerou por um instante. Não pela pergunta em si, mas pelo modo como ele a olhava agora, atento demais, próximo demais de algo que ela fingia não perceber. Ela pensou antes de responder. — Acho que você quer… — disse, com honestidade contida — só não agora. O silêncio que se seguiu foi diferente. Não pesado, mas carregado. Como se ambos estivessem conscientes demais do que estavam evitando dizer. Nicholas levou a xícara aos lábios novamente, mas não bebeu. Ficou ali, parado, encarando o líquido escuro, como se estivesse longe dali por alguns segundos. Não era o café que o prendia, era a ideia incômoda de que, se falasse, poderia perder exatamente aquilo que o mantinha ali. — Sophie… — começou, num impulso. Ela ergueu os olhos imediatamente, o corpo atento antes mesmo da razão. Por um segundo, esperou algo que não sabia nomear. — O quê? Nicholas respirou fundo, endireitando a postura como quem se protege. — Nada — disse, com um sorriso breve, ensaiado demais para ser natural. — Esqueça. Era o recuo. De novo. O silêncio que se seguiu pareceu confortável à primeira vista, preenchido apenas pelo som distante da rua. Mas Sophie sentiu a mudança. Aquela espécie de vazio que ficava sempre que ele se afastava um passo além do necessário. Nicholas abriu o notebook mais por hábito do que por expectativa. O sorriso desapareceu do rosto quase instantaneamente. A cor lhe fugiu da pele. Sophie percebeu antes mesmo de entender. O modo como os ombros dele se enrijeceram. O movimento lento da mão que parou de girar o anel. O olhar fixo na tela, como se tivesse sido atingido por algo que sempre soube que um dia chegaria e que, ainda assim, esperava evitar. — Nick? — chamou, com cuidado. Não como funcionária. Como alguém que se importava demais. Ele piscou, como quem retorna de muito longe. Forçou um sorriso rápido demais, quase automático, e fechou o notebook com um clique seco. — Nada — disse. — Só… trabalho. Ela não insistiu. Sabia que insistir significaria atravessar uma linha que ele jamais a convidara a cruzar. Limitou-se a observá-lo á mesa, recompor a postura, ajeitar a manga do jaleco como se aquilo fosse suficiente para colocar tudo no lugar. Mas Sophie sabia. Não o quê. Ainda não. Só sabia que aquele silêncio não era comum. E que, de algum modo, tinha a ver com ele estar se afastando… justamente porque se importava.
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