Edmund piscou, visivelmente surpreso.
— Partir? — repetiu. — Partir... de Auren?
— Sim, majestade. — ela confirmou.
O rei a encarou por alguns segundos, em silêncio.
— Posso perguntar por quê? — disse, com cuidado.
Sophie assentiu, os olhos já marejados.
— Enquanto eu estiver aqui... — começou — o Nicholas vai continuar resistindo. Vai continuar negando. Vai continuar enfrentando o que não entende por completo.
Engoliu em seco.
— E isso coloca o povo em perigo. — completou. — Coloca todo mundo em perigo.
Edmund a olhou devagar.
— Você acha que a sua partida resolveria isso? — perguntou, não como desafio, mas como quem realmente precisava entender.
— Eu acho que... — Sophie respirou fundo — enquanto eu for uma possibilidade, ele não vai recuar. E eu não posso ser o motivo de uma guerra.
Deu um passo à frente.
— Eu preciso que o senhor me faça um favor. — disse, a voz firme apesar das lágrimas. — Quando eu for embora... não deixe o Nicholas ir atrás de mim.
O pedido ficou suspenso no ar.
— Eu sei que vai ser difícil. — ela continuou. — Eu sei que ele vai tentar escapar. Mas até eu já percebi o quanto o rei Radovan é perigoso... e o Nicholas continua achando que desafiá-lo não tem consequências.
Edmund permaneceu em silêncio por um instante longo.
Então fez algo inesperado.
Levantou-se completamente.
Não como rei diante de uma súdita.
Mas como alguém reconhecendo a grandeza de outro ser humano.
— Essa atitude... — disse, com sinceridade visível — é extraordinária.
Sophie deixou escapar uma risada breve, quebrada, enquanto as lágrimas finalmente desciam.
— O senhor não precisa dizer isso. — murmurou.
— Preciso sim. — Edmund respondeu. — Você seria uma belíssima rainha, Sophie.
Ela levou a mão ao rosto, tentando conter o choro.
— Essa não é a decisão mais fácil da minha vida. — disse. — Eu amo o Nicholas.
Respirou fundo.
— Mas eu não quero que pessoas inocentes se machuquem. — continuou. — Eu estudei guerras no Brasil. Nas minhas aulas de história. E tenho certeza de que nada do que eu li chega aos pés de uma guerra real.
Ergueu o olhar, firme.
— Eu não posso deixar isso acontecer. — disse. — E se o Nick não tem força pra fazer isso... eu faço por nós dois.
Edmund sentiu o impacto daquelas palavras com força.
— Eu admiro você ainda mais agora. — disse, sincero. — Muito mais.
Aproximou-se um pouco.
— Quando pretende partir?
Sophie enxugou o rosto com as mãos, tentando se recompor.
— Amanhã. — respondeu. — Depois da cerimônia pública na praça central. — fez uma pausa curta. — O anúncio da restauração do pavilhão leste. O povo vai estar lá.
Ergueu os olhos.
— Eu queria vê-lo uma última vez. — disse. — Isso... isso está tudo bem para o senhor?
Edmund assentiu sem hesitar.
— Está. — respondeu. — Claro que está. Eu posso providenciar uma passagem — ele começou.
— Não é necessário. — Sophie interrompeu, com um pequeno sorriso triste. — O Nicholas me deu dinheiro quando cheguei aqui. Para o caso de eu querer partir.
Edmund sentiu o peito apertar.
— Obrigado. — disse, por fim. — Por isso.
Sophie fez uma última reverência, mais contida ainda, quase íntima.
— Obrigada por me ouvir, majestade.
Virou-se e saiu.
A porta se fechou suavemente atrás dela.
Edmund permaneceu parado no centro do gabinete por longos segundos depois.
Porque, naquela noite, ele não havia recebido apenas um pedido.
Havia testemunhado um tipo de coragem que nenhum tratado, nenhuma coroa e nenhuma guerra jamais conseguiria ensinar.
Logo depois, Edmund entrou no quarto.
Não havia luzes acesas além de um abajur baixo, ao lado da cama. Eleanor estava sentada, com um livro fechado no colo que claramente não tinha sido lido. Ergueu os olhos assim que ele entrou e o observou por alguns segundos antes de dizer qualquer coisa.
— Você está diferente. — comentou, baixo.
Edmund afrouxou o nó da gravata com um gesto cansado e se sentou na beira da cama, de costas para ela por um instante. Demorou a responder.
— Sophie esteve comigo.
Eleanor não falou nada de imediato. Apenas fechou o livro com cuidado e o pousou ao lado.
— Ela veio se despedir? — perguntou, como se já soubesse a resposta.
Edmund respirou fundo.
— Veio pedir para partir. — disse. — Pediu que eu não deixasse o Nicholas ir atrás dela.
O silêncio se espalhou pelo quarto, denso, respeitoso.
Eleanor se levantou devagar e foi até ele, sentando-se ao seu lado. Não o tocou de imediato. Apenas ficou ali, próxima.
— Corajosa. — murmurou, depois de alguns segundos. — Mais do que muita gente que nasceu para isso.
Edmund soltou um ar pesado, quase um riso sem humor.
— Ela entende coisas que o Nicholas ainda se recusa a aceitar. — disse. — Entende o peso das escolhas. O risco. O custo humano.
Eleanor assentiu lentamente.
— Ela olha para o povo antes de olhar para si mesma. — disse. — Isso não se ensina. Ou se tem... ou não.
Edmund virou o rosto para ela.
— Você acha que ela seria uma boa rainha.
Não foi uma pergunta. Foi uma constatação dita com tristeza.
Eleanor sustentou o olhar.
— Acho que ela seria extraordinária. — respondeu. — Atenta. Presente. Daquelas que caminham entre as pessoas sem precisar de escolta para se sentir maior que elas.
Um silêncio curto.
— Ela ama o Nicholas. — continuou Eleanor. — Mas não usa isso para exigir nada. Nem posição. Nem promessa. Nem p******o.
Edmund abaixou a cabeça.
— Eu disse a você ontem que o obrigaria a casar. — confessou. — E ainda não tive coragem de olhar nos olhos do meu próprio filho para repetir isso.
Eleanor levou a mão até os cabelos dele, passando os dedos devagar, como fazia quando ele voltava exausto de alguma crise antiga.
— Porque você sabe que, quando fizer isso... — disse ela — alguma coisa entre vocês vai se quebrar.
— Sim. — Edmund respondeu, sem hesitar.
Ela se inclinou um pouco mais, apoiando a testa na lateral da cabeça dele.
— Mas você também sabe que não está fazendo isso por orgulho. — completou. — Está fazendo porque não vê outra saída.
Edmund fechou os olhos.
— Sophie disse que, se o Nicholas não tivesse força para pedir que ela fosse embora... ela teria para ir. — murmurou. — Disse que faria isso por eles dois.
A mão de Eleanor parou por um instante.
— Uma mulher assim... — disse, com a voz mais baixa — não foge. Ela protege.
Edmund engoliu em seco.
— Eu sempre quis que o Nicholas tivesse um casamento como o nosso. — confessou. — Que amasse. Que fosse livre dentro do dever.
Eleanor sorriu com tristeza.
— Eu também. — disse. — E talvez... — fez uma pausa breve — talvez ele ainda tenha isso. Só não da forma que imaginamos.
Edmund abriu os olhos e a encarou.
— Você acha que ele vai me odiar?
Eleanor não respondeu de imediato. Apenas o puxou para mais perto, envolvendo-o num abraço firme.
— Acho que ele vai sofrer. — disse. — E acho que vai demorar para entender.
Beijou a têmpora dele com cuidado.
— Mas também acho que, um dia, ele vai perceber que você escolheu a vida quando tudo apontava para a morte.
Edmund respirou fundo, deixando o peso ceder um pouco sob aquele gesto.
— Eu não posso permitir que Radovan faça o primeiro movimento. — disse, baixo. — Não posso.
— Eu sei. — Eleanor respondeu, sem hesitar. — E estou com você.
Ele se levantou apenas o suficiente para beijá-la com cuidado, a testa encostada à dela.
— Obrigado. — murmurou. — Por não me deixar sozinho nisso.
— Nunca. — ela respondeu.
As luzes do quarto permaneceram baixas.
Do lado de fora, o castelo dormia sob uma vigilância silenciosa demais para ser tranquila.
E, sem que nenhum deles soubesse, aquela seria a última noite em que tudo ainda estava inteiro.
**
Na manhã seguinte, Nicholas entrou no gabinete já fardado.
O tecido escuro da farda cerimonial estava perfeitamente ajustado aos ombros, os botões polidos refletindo a luz da manhã que entrava pelas janelas altas. Tudo nele indicava prontidão. Dever. Aparência impecável para o evento público que aconteceria em poucos minutos.
Edmund também estava pronto.
O rei permanecia de pé, próximo à escrivaninha, a própria farda real impecável, a postura rígida demais para um encontro casual. Eleanor estava ali, sentada a poucos passos, as mãos repousadas no colo, o rosto sereno apenas na superfície.
Nicholas estranhou na hora.
— O senhor mandou me chamar com urgência — disse, fechando a porta atrás de si. — Achei que já estivéssemos de saída.
Edmund não respondeu de imediato.
Apenas virou-se completamente para o filho, os olhos firmes, avaliando-o como se aquele instante exigisse mais do que pressa.
— Precisava falar com você antes. — disse, por fim. — É importante.
Nicholas deu dois passos à frente e parou.
Algo no tom do pai o fez endireitar a postura, atento.
— Pode falar.
Edmund respirou fundo, mas não desviou o olhar.
— Você vai se casar.
O silêncio caiu no gabinete como um golpe seco.
Nicholas piscou, como se não tivesse ouvido direito.
— O quê?
— Em uma semana. — Edmund continuou, sem alterar o tom. — Hoje marquei a data com o bispo. O casamento será no sábado, pela manhã.